Folheei ontem a nova edição da obra-prima de Ariano Suassuna. Aparentemente não há nada de novo. O autor afirmou numa entrevista à Folha que estava revisando seu conteúdo, mas não sei se é verdade. De qualquer forma é um excelente lançamento, o livro estava indisponível a um tempão. Quem não conhece a obra ainda vá até a livraria mais próxima o mais rápido possível e compre.
A Pedra do Reino
Desimportando-se com o Autor
Não suporto pessoas que se surpreendem com um comentário a favor ou contra determinadas obras, pelo fato dela ser de um ou outro autor. É sempre a mesma coisa, quando critico uma obra louvada por todos, sempre vem aquele que fala: “É, mas você não pode esquecer que quem escreveu foi Fulano”. E o contrário é ainda pior. Quando digo que gosto de “A Ira dos Anjos”, o ouvinte abismado retruca com o comentário típico: “Sidney Sheldon? Você gosta de Sidney Sheldon?”. Isso só prova que boa parte dos leitores estão acostumados a dar importância demais ao autor. Não conseguem imaginar que um escritor famoso como Machado de Assis possa ter escrito uma obra ruim. Ou não conseguem associar o nome de autor, conhecido por escrever livros comerciais ou até ruins, a uma boa história. Por causa desta mania, muitos acabam generalizando e “a maioria” se torna “todos”.
Para aqueles que misturam autor e obra, gostaria que pensassem da seguinte forma: depois que uma obra é publicada o autor não serve para nada. O que ele estava pensando ao conceber a obra, seu ponto de vista a respeito de algum personagem, sua visão da história, enfim, tudo isso não servirá para nada. Tanto é assim que quando um autor faz um comentário do tipo “ninguém entendeu o real significado”, eu começo a rir. O único motivo que levaria ele a dizer isso seria sua prórpia maneira de escrever, ou seja, ele está admitindo assim que escreveu mal uma obra, pois não conseguiu mostrar o “real significado”. Quando o autor está escrevendo, ele tem uma oportunidade única de dizer o que pensa. Se não sair exatamente como pensou, depois de publicada a obra, não há mais nada a fazer. Somos nós leitores e não o autor, que damos significado a obra. Somos nós que direcionaremos o enfoque para uma parte ou outra, independente do que o autor achar importante. Todo o resto se tornará bobagem.
Imagine se, por exemplo, Machado de Assis concedesse um entrevista hoje afirmado que Capitu realmente traiu Bentinho e que não era seu objetivo deixar a obra ambígua. Isso iria acrescentar alguma coisa? Deixaríamos de tirar nossas próprias conclusões por causa disso? Enfim, faria alguma diferença? Ao ler uma obra ninguém quer saber qual é o ponto de vista do autor a respeito dela. Aliás, é até melhor que não saibamos. Por causa disso uma única obra gera vários pontos de vista, muitos dos quais divergentes entre si e isso não é um problema para nós leitores.
Com isso, critico muitos escritores que possuem a mania de tentar mudar aquilo que escreveram anteriormente. Revisões para melhorar a ortografia de uma obra é uma coisa. Agora rever um trecho com a justificativa de que as pessoas o consideraram um trecho ruim é um desrespeito para com o leitor. O escritor deve aprender que seu papel não é conduzir a UM entendimento de sua obra, mas apenas produzir POSSIBILIDADES de interpretação. É justamente isso que compõe uma grande obra.
Outra coisa que me irrita bastante é quando críticos ou leitores dão importância demais a vida do autor. Embora uma biografia possa servir para abrir nossos olhos e prestarmos uma atenção maior a determinados aspectos da obra do autor, muitos querem reduzir sua criatividade e condicioná-la a certos eventos. “Fulano só escreveu isso porque foi preso” ou “Essa viagem mudou sua vida e por isso produziu a obra tal”, são comentários completamente sem pé nem cabeça. Se fosse assim todos os que passaram um tempo na Sibéria seriam um Dostoievsky. Criatividade não é algo que pode ser explicado simplesmente por se buscar conhecer a “psicologia” do autor, como está na moda dizer. Conduzir nossa compreensão de certa obra com base na vida do autor pode nos levar a uma interpretação tão equivocada quanto a de alguém que nunca leu nada sobre a obra.
Ver as coisas sob essa perspectiva nem sempre é simples. Somos muitas vezes induzidos a imaginar que realmente não entendemos o ponto ou não somos capazes de perceber a “beleza” de uma obra. Às vezes, por falta de referências, isso pode ser verdade. Mas para um leitor habitual, sempre vale a pena desconfiar.
Suplemento Literário
A Faculdade de Letras da UFMG, num projeto digno de grandes elogios, digitalizou e colocou disponível na internet todo o seu acervo do periódico “Suplemento Literário”. O periódico foi criado em 1966 pelo ficcionista mineiro Murilo Rubião, sob a responsabilidade da Imprensa Oficial e até 1992 foi publicado semanalmente, acompanhando o jornal “Minas Gerais”. Em 1993 a publicação foi interrompida e em 1994 voltou a ser publicado, com periodicidade mensal e independente. O acervo conta com 1282 fascículos indexados, digitalizados e microfilmados, totalizando cerca de 20.000 artigos em 38 anos. Como os fascículos foram somente “escaneados”, alguns estão quase ilegíveis. No entanto, a iniciativa amplia o uso da publicação e garante a preservação deste importantíssimo acervo. Em seus 36 anos, a publicação editou textos de autores ilustres e consagrados como Carlos Drummond de Andrade, Guimarães Rosa, Oswald e Mário de Andrade, Henriqueta Lisboa, Emílio Moura, Francisco Iglésias, Antônio Cândido, Cyro dos Anjos, Augusto de Campos, Fábio Lucas, Rui Mourão, Humberto Werneck, Sebastião Nunes, Sérgio Sant’Anna, Duílio Gomes, além de artistas plásticos como Amilcar de Castro, Inimá de Paula e Álvaro Apocalypse entre outros. O Suplemento é referência para pesquisadores e apaixonados pela literatura por conter textos inéditos de vários autores. O acervo encontra-se no site do Suplemento Literário
Memória: ficção ou realidade?
Não consigo entender como alguém pode dizer que é fã de Marcel Proust e sua obra “Em Busca do Tempo Perdido” e ainda assim afirmar que não conhece as memórias de Pedro Nava. Algumas pessoas, quando questiono a respeito, simplesmente respondem que ambos têm alguma semelhança mas que Proust escreve ficção e Nava memórias. Ora essa e daí? O problema, em minha opinião, não é se um escreve ficção e o outro não. O problema é Proust ser conhecido e reverenciado no mundo inteiro e Nava não ser lido por quase nenhum brasileiro. O desconhecimento da obra de Nava faz com que muitos não consigam perceber suas semelhanças. Proust apanha no ar meros detalhes e os transforma em sinapses para a volta ao passado. Relembra e revê detalhes com uma poesia magnífica. Mas é tudo ficção. Memórias de ficção. Nava pega suas próprias memórias e as transforma, contando-as de um modo encantador, que nos atrai o tempo todo. Parece até ficção, mas são memórias. Nava e Proust, portanto, são bem semelhantes e o que os diferencia é um mero detalhe: em um a ficção é misturada às memórias e em outro ocorre o contrário. Mas talento os dois têm de sobra.
Proust e Nava contam histórias familiares, destacam costumes, mentalidades, vestuários e hábitos, além de pensamentos filosóficos e políticos. Lendo a obra dos dois autores conhecemos a intimidade de duas sociedades aristocráticas distantes geograficamente, mas se vistas de perto, estão bem próximas. Pode-se afirmar que os personagens da obra de Marcel Proust se lessem as memórias de Pedro Nava se identificariam em muitos aspectos. Vamos pensar assim, pois acredito que alguns personagens de Nava leram Proust e se identificaram em muitos aspectos. Drummond, por exemplo, não só leu como traduziu parte de sua obra. Enfim, Nava era um grande fã de Proust e certamente sua obra foi influenciada pelo autor.
Por isso, recomendo o exercício aos fãs de Proust: leiam todos os volumes das memórias de Nava. Percebam como ficção e realidade são conceitos bem voláteis na literatura. Em alguns casos, Nava ao contar um fato, transforma-o por distorcê-lo ao ponto de se aproximar da ficção. E Proust, como grande contador de histórias, cria uma ficção tão próxima da realidade que até nos esquecemos de diferenciar os dois. E esqueçam os conceitos de realidade e ficção ao lerem ambas as obras. O que importa mesmo não é se o fato ocorreu ou não na vida do autor e sim como somos levados nessa viagem ao passado.
Estilo e Literatura
Estilo e literatura podem conviver bem. Não sei ao certo qual é o limite ideal entre a importância que se dá ao estilo e a importância que se dá a história. Pessoalmente, detesto quando o estilo é que compõe a obra. Sou da tradição que diz que a obra é composta de estilo e por isso a história é a coisa mais importante de um romance. A forma como esta deve ser contada pode variar, mas fazer da forma o principal objetivo de uma obra é algo que muitas vezes não dá certo. Daí a minha birra com Joseph Conrad e António Lobo Antunes. Quando vejo pessoas que leram “O Coração das Trevas” ou “Os Cus de Judas” tão entusiasmados, fico me perguntando o que eles têm de tão interessante. Para falarmos bem francamente, não existe história ali, só estilo. Ainda podem debater dizendo que a obscuridade de “O Coração das Trevas” é o que faz o romance ter lá sua importância, mas não consigo gostar. Para mim são páginas e mais páginas de um exercício de estilo.
Falando de limites, vou citar alguns exemplos de escritores que souberam traçá-los de maneira mais ou menos adequada, segundo meu ponto de vista. Em primeiro lugar William Faulkner. O primeiro capítulo de “O Som e a Fúria” é o perfeito exemplo de como estilo e literatura podem conviver em harmonia. Ao narrar a história sob a perspectiva de um retardado, Faulkner construiu uma referência a ser seguida para quem quisesse se aventurar no mundo da ousadia de estilos. Quando chegamos a terceira parte, a parte mais racional do romance, a surpresa é muito boa. Para quem persistiu e chegou até lá sem entender muito bem o que estava acontecendo, a terceira parte é um prêmio. Construímos relações com a primeira parte e ao final estamos com vontade de ler o romance novamente. Notem que o estilo contribui (e muito!) para que obra seja tão interessante. Não há uma impressão de que o escritor estava simplesmente exercitando um estilo, mas a sensação é de que estamos dentro da mente dos personagens. As mudanças radicais da estrutura do texto forçam a nossa mente a nos colocarmos no lugar dos personagens e sentir os acontecimentos, segundo a ótica de cada um.
Mas mesmo Faulkner cometeu seus excessos. “Absalão, Absalão!” é considerado por muitos como uma evolução de “O Som e a Fúria”. Eu, ao contrário, acredito que Faulkner colocou muito estilo na história, que é excelente, e o resultado ficou abaixo de “O Som e a Fúria”. A justificativa é demonstrar como uma mesma história pode ser ampliada, com diversos pontos de vista sendo misturados. A narrativa é propositalmente anárquica, circular e muitas vezes obscura. Ao final temos um quebra-cabeças montado que nem sabemos se realmente aconteceu da forma como foi contada a história. O que atrapalha no romance é a mania que Faulkner tem de intercalar capítulos simples com capítulos extremamente complexos. Isso faz baixar nosso entusiasmo e entre um e outro sentimos um grande tédio. Embora o livro vá melhorando a medida que as páginas avançam, a sensação final é de que Faulkner está nos falando: “Viram? Eu consegui!”.
Outro grande exemplo de estilo é Guimarães Rosa. Guimarães Rosa transformou a ordem estabelecida pelo romance no Brasil. Misturou prosa e poesia, transformando-as em algo único e fez avançar a literatura brasileira de uma forma nunca antes vista. Não é à toa que “Grande Sertão: Veredas” é quase uma unanimidade entre os críticos. A complexidade do romance não está na história, que é mais ou menos banal, e sim na linguagem utilizada. Já morei no interior de Minas Gerais e a linguagem é muito próxima às minhas referências. Mas mesmo para aqueles que desconhecem tal linguagem, ao ler em voz alta o romance, a sonoridade apresentada pelo texto faz criar uma “música” agradável e harmoniosa. Mas a complexidade da linguagem apresentada, que é sua grande virtude, também é seu grande defeito. Guimarães Rosa é impossível de ser traduzido e produzir o mesmo impacto em outro idioma, devido à forma radical de distorcer o português. Não conheço a tradução para o inglês, cujo título virou “The Devil to Pay in the Backlands”, mas pelas discussões que acompanhei a respeito, os leitores de lá associam o personagem Riobaldo a Fausto de Goethe, dando assim mais valor à historia do que à linguagem utilizada. Na Amazon, um dos leitores comenta que a tradução em inglês da obra deixa a desejar (inglês britânico), inclusive critica a forma como o título do romance foi traduzido. Portanto, quando Guimarães Rosa associou seu estilo à sua linguagem, automaticamente reduziu o alcance da obra.
Em resumo, tanto em “O Som e a Fúria” como em “Grande Sertão: Veredas” o que vemos é uma associação consciente e inteligente de história e estilo. Podemos dizer que o estilo é quase um personagem, devido a sua importância. Não conseguimos imaginar tais obras sendo concebidas de outra forma. Quando o estilo chama mais atenção do que isso, faz criar uma sensação de monotonia e a história perde o sentido. Muitos amam esses exercícios. Eu, quando cumpro o papel de leitor, exijo que o estilo tenha sua razão de ser, se não vejo isso, acabo abandonando a obra.
400 Anos
“En un lugar de la Mancha, de cuyo nombre no quiero acordarme, no ha mucho tiempo que vivía un hidalgo de los de lanza en astillero, adarga antigua, rocín flaco y galgo corredor.” Assim começa o maior romance de todos os tempos, segundo uma votação de críticos literários no mundo inteiro. É claro que somente um post não seria suficiente para dizer o quanto esta obra foi importante para a literatura. Basta dizer que depois de 400 anos, a imagem do cavaleiro errante e seu companheiro estão na mente de pessoas do mundo inteiro.
Para comemorar, o Instituto Cervantes relançou uma edição de “El Quijote” que é o sonho de consumo de todo leitor apaixonado. A supervisão do trabalho foi comandada por Francisco Rico, um dos maiores “quixoteiros” do mundo. São dois volumes que reúnem um estudo detalhado de toda a obra, mapas, ilustrações de armas, roupas, construções, instrumentos musicais que eram usados na época, além, é claro, da própria obra. Uma verdadeira enciclopédia cervantina. A obra é talvez o melhor livro já publicado de um autor. Enfim, se você tiver oportunidade de comprá-la, não hesite. Ela valerá cada centavo. Quem quiser conferir os comentários da editora, o link é
http://www.galaxiagutenberg.com/Contenido/Libros/Libro.asp?Codigo=39242
O Poder do Absurdo
Falar dos problemas de uma época nunca é fácil. São raros os casos em que eles são colocados de forma clara, sem que o romance fique panfletário. Mesmo o melhor exemplo que tenho em mente, “A Montanha Mágica” de Thomas Mann, acaba deixando isso um pouco no ar no último capítulo, quando Hans Castorp vai a guerra. Como forma de enfocar os pontos certos, muitos autores usaram o absurdo para tentar trabalhar melhor o assunto.
Os leitores, quase invariavelmente, se lembram logo de Kafka, o rei do absurdo. Os três clássicos do autor (”O Processo”, “A Metamorfose” e “O Castelo”) colocam o absurdo como parte da vida humana. Especialmente em “O Castelo”, Kafka nos mostra como é ridícula a sensação de “poder”, que traz ao ser humano a idéia de traquilidade. Lá o poder é inacessível, a sensação de impotência é constante e a vida de todos é regida pelo absurdo. O tema não podia ser mais atual, com a onda de terrorismo que ocorre no mundo inteiro. A sensação de que conduzimos nossos passos e ditamos como vai ser o nosso futuro foi terrivelmente interrompida após o que as TVs do mundo inteiro mostraram em Nova York, Madrid e Beslan.
Albert Camus também tratou o assunto de forma bem pertinente. Por ser filósofo, o conceito de absurdo e a revolta conseqüente nos leva a uma reflexão profunda. Quando lemos “A peste” a sensação é terrível. O escritor, com grande talento, vai aproximando a morte à vida dos personagens e conseqüentemente a nós mesmos, causando grande impacto. Imaginamos um mundo onde os muitos cérebros adormecidos pela rotina são repentinamente acordados quando esta já não faz mais sentido. Num mundo onde cada vez mais o dinheiro, carreira e reconhecimento são cada vez mais enfatizados, a obra tem o papel de abrir nossos olhos a questionar esses valores impostos.
Já na ficção de Elias Canetti o absurdo é aliado ao humor. Em “Auto-de-fé”, o professor Kien se casa com sua empregada pelo cuidado dispensado por ela aos seus próprios livros, sua verdadeira paixão. Um Narciso moderno, seu espelho é sua biblioteca. O humor serve para perceber outras incongruências do mundo moderno. Com a internet, o mundo criou um desejo costante por informação. Essa avalanche de dados, que faz com que o homem contemporâneo busque obsessivamente a perfeição intelectual torna-o um Kien, onde verdade e mentira não existem mais, são conceitos que podem ser moldados a cada nova descoberta. Essa busca faz o homem contemporâneo reduzir o mundo a si mesmo e sua própria visão, ao contrário do que se espera.
Por fim, Samuel Beckett radicalizou o absurdo, mostrando a vida humana como uma inteira degradação. Apesar disso, não podemos realmente afirmar se o que vemos em sua obra é realmente um pessimismo constante. “Malone Morre” é uma grande reflexão sobre o nada. Não há uma história e mesmo o personagem narrador, com a leitura de toda a trilogia, não parece ser realmente alguém, mas apenas uma imaginação repentina. O nada é ampliado, ressaltando o vazio. Parece que o tempo todo Beckett põe o absurdo a nossa frente para mostrar-nos que realmente não sabemos onde queremos chegar.
O que há em comum em todas estas obras, além do absurdo, é a maneira como somos influenciados por elas a dedicar maior atenção a nossa individualidade. Num mundo tão acostumado a massificar, muitos se esquecem de perceber seus próprios pontos de vista e refletir sobre si mesmos, o que é o verdadeiro absurdo. Hoje, muitos prendem-se a própria rotina e se dedicam somente a fazer a roda da vida girar. Colocam sua vida no piloto-automático. Não têm projetos pessoais e nem se dão conta disso. O objetivo de suas vidas se resume a dormir e acordar entre as 24 horas do dia. O absurdo, portanto, serve de luneta para que possamos desenvolver maior perspicácia e enxergar além do óbvio.
Não é Isso Tudo Que Dizem
A “Cosac & Naify” é a mais nova badalação dos leitores. Todos elogiam suas obras. O catálogo da editora já conta com obras e autores diversos, de excelente qualidade. As capas dos livros são atraentes e chamam bastante atenção. Isso tudo além de alguns projetos mais ousados, como a edição de “Primeiro Amor” de Samuel Beckett, num formato que parece um envelope e o conteúdo uma carta.
Pois bem, tudo parecia ótimo até que eu resolvi adquirir “Auto-de-fé” do Elias Canetti. Para começar a capa não me agradou, parece até que a obra se refere a vida de algum zen budista, ou aos pensamentos de algum tibetano. Isso em si não seria problema algum, mas é que dá a impressão que a editora quer passar a perna em algum amante de Gêngis Khan ou pegar algum seguidor da moda esotérica. Enfim, faz o livro parecer outro livro, destoando seu tema.
Contra isso a editora ou a pessoa responsável pela capa pode argumentar de várias maneiras, mas uma coisa não tem explicação: o número absurdo de erros no texto. Comecei lendo, catei um ou outro e fui avançando, mas quando a coisa começou a me incomodar de verdade, apanhei meu lápis e fui marcando. Até onde eu li, a média é de um para cada vinte páginas. Podem falar o que quiserem, mas nunca um livro pode atingir essa média. Principalmente pelo preço de um “Cosac & Naify”. Pois bem, com as anotações em mãos, fui até o site da editora para informar-lhes e o e-mail não funcionou. Desisti.
Não sei ao certo o que houve. A tradução do romance já havia sido feita anteriormente por Herbert Caro e publicada pela “Nova Fronteira”. Creio, portanto, que esta é a mesma ou sofreu apenas alguma revisão. Não vejo o porquê de tantos erros. O único trabalho de editora com o texto, seria a revisão adequada, que parece ter sido feita às pressas.
A lição que ela deveria aprender disso é que nada pode ser colocado à frente do texto. A capa pode ser bem trabalhada e nós leitores estamos cada vez mais escolhendo o livro pela capa, mas sempre haverá um ou outro insatisfeito com o trabalho. Isso é normal e não afasta clientes de um novo lançamento (a não ser que todas as capas da editora sejam realmente horríveis). Agora um texto ruim afasta o leitor. Passa uma má impressão de desleixo para com a obra. Já que o produto primário de uma editora são os textos, dar essa impressão é um perigo. Faz parecer que a editora não é isso tudo que dizem.
O Desaparecimento da Inteligência
Faça o seguinte teste: vá a alguma livraria e pergunte pelas obras “O Inominável” de Samuel Beckett, “O Homem sem Qualidades” de Robert Musil ou “Absalão, Absalão!” de William Faulkner. Depois procure pelas mesmas obras em sebos da região. Depois acesse os sites das principais editoras e verifique em seus catálogos. Acredito que com muita sorte você encontrará um dos títulos para comprar. Se você é daqueles que ganha na loteria de vez em quando, encontrará dois. Agora se você encontrar os três, possivelmente você tem poderes mágicos.
Aqui no Brasil não há lógica que explique a ausência de alguns títulos. A principal trilogia de Beckett, “Molloy”, “Malone Morre” e “O Inominável”, é sumariamente ignorada pelas editoras, com exceção da Códex que reeditou recentemente “Malone Morre”, numa tradução de Paulo Leminski. “Molloy” foi editado pela “Nova Fronteira” e dificilmente é encontrado. Agora “O Inominável” acredito que só mesmo em Portugal, embora também já tenha sido editado pela mesma “Nova Fronteira”. É tão raro que numa ocasião que procurei-o num dos mais especializados sebos daqui de Belo Horizonte, a proprietária achou a maior graça na minha pergunta. Beckett foi laureado com o prêmio Nobel e, portanto, não deve ser muito difícil fazer publicidade para vender seus livros. A publicação de tais obras possivelmente deve interessar a alguém mais e possivelmente poderia vender bastante. Mas nenhuma editora dá notícia deles.
Robert Musil foi recentemente vendido em bancas numa edição promocional do jornal “O Globo” e “Folha de São Paulo”. Mas foi um livro menor, “O Jovem Törless”. A editora “Nova Fronteira” publicou uma versão, com tradução de Lya Luft e Carlos Abbenseth, de “O Homem sem Qualidades” (se não me engano em 1999 ou 2000) mas esta já se encontra esgotada. Pela dificuldade de encontrá-lo em sebos e pela rapidez com que a obra sumiu da editora, das duas uma: ou quem conseguiu comprar o livro não dispõe dele por nada desse mundo, ou o livro foi um fiasco e a editora resolveu recolher todos do mercado. Como estamos falando de Robert Musil, é difícil imaginar que o livro tenha sido um fiasco, já que quase a totalidade dos críticos o coloca como um dos melhores da literatura mundial. E antes que me perguntem, eu não vendo o meu.
Com William Faulkner a falta de lógica é ainda maior. Conseguimos encontrar vários títulos do autor que muitas vezes nem os próprios fãs se lembram. Mas as principais obras: “Luz em Agosto”, “Santuário” e “Absalão, Absalão!”, o mercado não vê faz tempo. “O Som e a Fúria”, depois de uma edição da “Nova Fronteira” numa coleção de grandes clássicos, foi reeditado pela “Cosac & Naify”. Antes disso, era praticamente impossível localizá-lo. “Enquanto Agonizo” tem uma edição recente mas também sofria do mesmo mal.
Não sei ainda qual a dificuldade. Não deve ser a tradução, pois tais obras foram escritas em francês, alemão e inglês, idiomas que são ensinados na maior parte das faculdades de Letras do país. Não acredito que seja vendagem também. Se precisar de algum estímulo de marketing, tais obras foram escritas por grandes nomes da literatura. Já que conseguem vender até mesmo autores que só sabem falar do próprio catarro, o que esses grandes marketeiros não fariam com um excelente escritor? Poderia ser uma pendência qualquer com direitos autorais, mas acho que tudo poderia ser resolvido com dinheiro. E se existem grandes editoras no país, não sei se o problema pode ser simplificado desta forma. Qualquer que seja a razão, junto com essa “amnésia” do mercado editorial, vemos desaparecer também a inteligência.
Os Grandes Finais
Já ouvi diversos comentários de que a grande obra brasileira de todos os tempos é “A Pedra do Reino” de Ariano Suassuna. Gente como Cora Rónai e Marcelo Tas já fizeram grandes elogias a obra. Mas o fato é que a obra termina muito mal. O último quarto do livro em alguns momentos chega a ser ruim, como quando Quaderna, durante o depoimento, se diz cego. Isso não é nenhum mistério, já que o próprio escritor revelou sua insatisfação e que o romance teria uma continuação, que nunca saiu. Ao falar sobre o relançamento da obra, Suassuna inclusive afirmou que esta seria revista e modificada em alguns pontos. Apesar disso, o romance é fantástico, os três primeiros quartos são um primor de literatura.
Mesmo assim fico me perguntando porque muitos livros bons têm finais ruins ou decepcionantes? Será que é mais fácil criar uma grande obra do que terminá-la? É estranho imaginar que algum escritor se propôs escrever uma grande obra sem saber ao certo aonde gostaria de chegar. Nesta questão, Kafka é o maior (e melhor) dos paradoxos. Suas principais obras nem foram acabadas e, por isso, não podemos afirmar que possuam um ‘final’. E mesmo assim possuem os melhores finais da literatura. “O Castelo” chega a cometer o insulto de acabar no meio de uma frase! Mas em momento algum se tem a sensação de que a obra foi “apressada” para que chegasse logo o final. Talvez essa tenha sido a maior das virtudes de Kafka: sua paciência. Parece que a cada linha de “O Castelo”, principalmente nas finais, vemos o escritor ao lado dizendo: “Relaxa, ainda tem muita coisa pela frente”. Mesmo na obra “O Processo”, em que aparentemente o final foi escrito, não se nota nenhuma preocupação em que o livro acabe. Aliás ler ou não o último capítulo de “O Processo” não faz a menor diferença. O círculo já se fechou, tudo está perfeito. Nos contos, onde os finais foram realmente colocados, Kafka é ainda mais perfeccionista. Criar um conceito, dominá-lo e ainda arrebatar-nos com uma conclusão grandiosa só se consegue sendo um mestre. É o que Kafka faz em “O Artista da Fome”, um dos melhores contos da literatura mundial. A pantera na jaula dá uma forte sensação de “conjunto”, ou seja, temos a certeza que ela deveria estar ali ao final. Teríamos colocado ela ali se tivéssemos o poder de criação de Kafka. Os finais de Kafka simplesmente ampliam sua obra. Ao contrário do teatro, onde as cortinas se fecham, nas obras de Kafka as cortinas se abrem e podemos ver melhor sua beleza.






















