Poucas pessoas que conheço leram “A Colméia”, de Camilo José Cela. Janer Cristaldo, tradutor das obras “A Família de Pascual Duarte” e “Mazurca para dois Mortos”, também de Cela, citou o fato de Cela ter sido soldado de Franco, talvez daí o desinteresse. Percebo outro ponto: nem sempre é fácil enxergar o quanto a obra é magnífica. Certos livros tem essa capacidade de serem vistos por muitos e enxergados por poucos. Por desconhecimento, a obra é constantemente simplificada e daí deixada de lado.
Pense o seguinte: o que faz um livro qualquer ser considerado bom? Para muitos, os personagens devem ser marcantes, para outros a história deve chamar a atenção, enquanto outros preferem ver um texto escrito num estilo diferente e criativo. Agora veja como é o livro: são vários personagens, a trama não tem uma história, mas sim vários pedaços de pequenas histórias, formando um mosaico para nos mostrar Madri após a Guerra Civil Espanhola. Também o estilo, embora criativo - aliás é impressionante a capacidade de criação linguística de Cela - não é daqueles que chamam atenção a ponto de se sobrepor às histórias. Reúna todos esses elementos e perceba que a probabilidade de se ter um livro ruim é muito grande. Mas mesmo com tudo contra, Cela conseguiu escrever uma obra-prima. Algumas pessoas param, lêem contracapas, folheiam algumas páginas, não sentem grande atração pela propaganda do livro e acabam levando outro.
Cela, para quem não conhece, tem uma prosa excepcional. A obra retrata uma época em que a Espanha vivia praticamente à margem dos acontecimentos mundiais, por causa dos seus próprios problemas. O pós guerra e as dificuldades causadas pela pobreza transformam os seres humanos, que lutam para sobreviver apesar da vida difícil. Mas lendo as contracapas, parece que o livro é só uma coletânea de histórias simples, sem qualquer sentido, onde o dia transcorre de forma comum, sem princípio ou fim. Aquele que não procura outras fontes para se informar, acaba perdendo a oportunidade de conhecer o belo livro.
Já postei aqui a dica sobre o Pulsão Negativa do Nemo Nox, com o objetivo de comentar o livro “Bartleby e Companhia” de Enrique Vila-Matas. Não conheço ainda o autor e já estava procurando lê-lo e o blog do Nemo Nox me deu um incentivo ainda maior. Só tem um problema: a obra de Enrique Vila-Matas é no esquema venda casada. Você até pode tirar algum proveito do livro, mas seria muito mais interessante se você lesse antes “Bartleby, O Escriturário” de Herman Melville. Como eu ainda não li o Bartleby de Melville, o trabalho dobra e já que a agenda está apertada, cria-se uma desculpa para deixar a leitura para mais tarde.
Em outra ocasião ocorreu algo semelhante. Estava com “A Morte de Virgilio” de Hermann Broch para ler, mas não havia lido a “Eneida” de Virgilio. Sabia que perderia muitas das referências, mas por diversas razões não queria ler a “Eneida”. Resolvi fazer a leitura do livro de Hermann Broch e de vez em quando folheava a “Eneida” para compensar a minha falta de conhecimento. No fim da primeira parte do livro de Broch resolvi parar, pois senti que boa parte da obra envolvia um conhecimento prévio do personagem principal e sua obra-prima. Poderia continuar e ir até o fim, mas aí o livro era outro. Infelizmente até hoje não li a “Eneida” e, portanto, até hoje o livro continua me esperando.
Notem que o caso não era de que existem elementos imprescindíveis numa obra que me impedem de compreender a outra. A linguagem poética utilizada em “A Morte de Virgilio” é impressionante para qualquer leitor, mesmo para os que não conhecem a “Eneida”. No entanto, grande parte da ‘graça’ ao ler a obra está em relacionar ficção e realidade. A história de ficção dos últimos dias do poeta Virgilio e sua visão sobre sua obra-prima a “Eneida”, misturando trechos da obra com a história. Se você não sabe que esses elementos estão misturados, você vê apenas um lado, apenas parte do que a obra quer mostrar.
O assunto do livro “Bartleby e Companhia” parece muito interessante. O autor Enrique Vila-Matas, segundo comentários que ouvi, parece ser talentoso. Mas, lê-lo sem antes ler o livro do Melville é concordar em perder parte do sentido da obra.
Depois da leitura de “A Tapas e Pontapés”, de Diogo Mainardi é que você descobre qual é o problema: Mainardi está na mídia errada. Seus textos deveriam ser escritos num blog com caixa de comentários. Hoje a redação da “Veja” fica entupida de cartas contra o cara, mas um assunto não vai além do que está escrito na coluna. Aí, quando os leitores metem o pau nele, é como bater em bêbado. Uma idéia que não concordamos não faz necessariamente o cara ser ruim ou bom, depende da forma como o autor a expõe e como ele a defende depois. Daí, mesmo não concordando, identificamos se o cara é inteligente ou estúpido. Enquanto o Mainardi não for um blogueiro e enquanto ele não abrir uma caixa de comentários para esgotar os assuntos da sua coluna, ele será sempre uma promessa de inteligência ou estupidez.
O que eu ando ouvindo por aí:
“Aquela mulher que escreveu Vidas Secas, sabe?”
De uma menina com camisa de colégio, numa discussão com seus colegas num ônibus.
“Roberto DaMatta não é aquele cara que ganhou a São Silvestre?”
De um vendedor de uma rede de livrarias a um cliente que procurava o título “Carnavais, Malandros e Heróis”.
“De que autor?”
Também um vendedor a um cliente que procurava por “Dom Casmurro”.
“Os Bom da Boca”
Expressão digitada no computador, por outro vendedor, quando perguntei se eles tinham algum exemplar de “Os Buddenbrooks”, de Thomas Mann.
“Móbi Dique? Soletra pra mim…”
Também um vendedor a um cliente.
E a melhor de todas:
“Ih, agora você me apertou!”
Do mesmo cliente em resposta ao pedido acima.
Os alfarrábios, carinhosamente apelidados no Brasil de “sebos”, são os lugares mais frequentados pelo leitor voraz. O efeito de uma visita a um sebo é semelhante ao efeito causado por uma visita de sua esposa a um shopping qualquer. Psicologicamente o leitor é aliviado de suas tensões do dia a dia. Economicamente, ele é afligido por uma conta corrente cada vez mais pobre e uma fatura de cartão de crédito cada vez mais alta. Mas ele sempre justifica seus atos de aparente loucura com descrições mirabolantes de aquisições raras. “Este aqui eu procurei durante anos” ou “Por este preço eu não conseguiria encontrar em lugar nenhum” são as respostas prontas já formuladas pelo seu cérebro para justificar os constantes problemas econômicos.
Numa simplificação rasteira, o frequentador de sebos é um comprador compulsivo. Analisando de uma forma mais detalhada, porém, podemos dizer que ele é o cruzamento de um caça-talentos com um arqueólogo. Um headhunter literário. Afinal, é necessário saber não só que obras são importantes e que obras são lixo, mas também que valor pagar por cada uma para sair no lucro. Além disso, é preciso muita disposição e peregrinação para desenterrar uma obra valiosa de uma pilha de livros, ácaros e pó. Quando o sebo monta uma “banquinha” de ofertas a procura beira à baixaria. O vigilante profissional chafurda tudo e é capaz de lutar 12 rounds atrás de um Balzac escondido entre as traças.
Os mais profissionais já têm um mapa mental de sebos a percorrer. Ao tentar encontrar alguma obra, sabe exatamente em qual deles procurar e já supõem que preço irá pagar. Por suas freqüentes visitas, o vigilante muitas vezes se torna amigo do dono do sebo. Assim como o bêbado afoga suas mágoas num bar e conta suas angústias ao garçom, o vigilante, nos seus momentos de desespero, confidencia suas decepções ao atendente. Conta pela enésima vez sobre aquela primeira edição de “Corpo de Baile” que ele teve em suas mãos por uma ninharia e que nunca mais encontrou.
Quando a grana está curta, o vigilante de sebo não se entrega: visita-os assim mesmo. O duro é encontrar justamente aquilo que ele procura a anos e não ter dinheiro para levá-lo. Nestes casos, o vigilante abandona toda a ética e valores e aplica um dos mais sórdidos golpes-de-sebo: troca o livro de lugar, a fim de escondê-lo. Tal tática gera a paranóia-do-sebo: o vigilante vasculha até a última prateleira de ufologia para ter certeza de que o que procura não será achado naquele sebo.
Ver um vigilante com seu rosto transformado, falando sozinho, com um livro na mão, para muitos, é algo incompreensível. Os não-vigilantes não conseguem imaginar o que há de tão especial naquele livro caindo aos pedaços e fedorento. Não compreendem porque muitos trocam um livro novinho duma livraria por um livro velho, mas garimpado dum sebo. Vocês vigilantes que estão me lendo agora, sabem como esta sensação é maravilhosa.
A notícia li no Smart Shade e o artigo é da revista Cult: “As Mil e Uma Noites” traduzido direto do árabe. Ponto para a editora Globo.
Na década de 70, a antiga revista Manchete publicou ensaios de nomes como Otto Maria Carpeaux, Paulo Mendes Campos, Antônio Houaiss, Ruy Castro entre outros, focalizando obras-primas da literatura. Os ensaios são geniais e agora foram lançados em forma de livro (para a nossa alegria), cujo título é “As Obras-Primas que Poucos Leram”, em dois volumes organizados por Heloisa Seixas. Foram publicados entre 1972 e 1977 mais de 200 ensaios e os dois volumes contêm 70 destes. Ao ler esses ensaios descobrimos como a crítica literária atual no Brasil está tão precária. Com exceção do caderno “Prosa e Verso” do jornal “O Globo” e da revista “Bravo!” (que desde que passou para o grupo Abril vem piorando mais e mais) pouco resta. Pode-se destacar dois ensaios fabulosos: no volume 1, o ensaio de Antônio Houaiss sobre “Ulisses”, obra que ele traduziu, e o ensaio de Otto Maria Carpeaux sobre “Ficções” de Jorge Luis Borges, que está no volume 2. Leiam esses ensaios na livraria mesmo e vejam vocês mesmos se a dica é boa.
O Nemo Nox - o melhor blogueiro do mundo - abriu um blog sobre o livro “Bartleby e Companhia”, de Enrique Vila-Matas. Ainda não li o livro mas fiquei super curioso e devo tentar lê-lo em breve (a agenda está cheia e a fila de leituras futuras continua a crescer). Acesse o Pulsão Negativa e veja como dá vontade de ler o livro!!!
Ainda sobre Virginia Woolf, preciso admitir que não tenho grande afinidade com seus livros. Reconheço sua importância e reconheço seu talento, mas preciso estar “afinado” para ler suas obras. “Stream-of-consciousness” se não for lido na hora certa, vira literatura de etcétera. Você começa um parágrafo, lê três ou quatro palavras, esquece que está lendo um livro e o resto do parágrafo vira um longo etcétera. Isso se dá especialmente pelo uso de vários adjetivos em cada parágrafo, pelo grande número de interrupções de frases por vírgulas e pelo modo sempre comparativo de descrever algo. A palavra “como” é a campeã no romance “Mrs. Dalloway”. Um exemplo desse modo de narrar o pensamento dos personagens é esse trecho abaixo:
How fresh, how calm, stiller than this of course, the air was in the early morning; like the flap of a wave; the kiss of a wave; chill and sharp and yet (for a girl of eighteen as she then was) solemn, feeling as she did, standing there at the open window, that something awful was about to happen; looking at the flowers, at the trees with the smoke winding off them and the rooks rising, falling;
Normalmente ao ler Virginia Woolf, preciso de duas coisas: concentração e tempo. Concentração porque num ambiente cheio de distrações, cada vírgula ou cada novo adjetivo para descrever algo é um trampolim para se desviar a atenção do livro e fixar a mente em alguma coisa que se vê ou ouve. Tempo porque sou uma pessoa muito distraída. Com isso, não sou de reparar em detalhes. Como o livro destaca bem detalhes do pensamento de cada personagem, é preciso mais atenção e consequentemente a leitura fica mais lenta.
Portanto, apesar de livros como “Mrs. Dalloway” terem poucas páginas (menos de 200) sua leitura não flui com a tranquilidade de outros romances do mesmo tamanho. Acredito que isso acontece comigo por minha dificuldade em valorizar detalhes, já que normalmente sou mais generalista e assim não os percebo. Mas já vi outros leitores dizerem o mesmo e não sei se o problema era esse. O fato é que para se tirar proveito de “Mrs. Dalloway” e do estilo de Virginia Woolf, é preciso que o leitor se informe e saiba de antemão o que quer extrair do romance. Feito isso, a probabilidade de se decepcionar com seu conteúdo é bem menor.
Algo que realmente me fascina numa boa propaganda é a habilidade que o publicitário tem ao transmitir uma idéia através de outra completamente diferente. Eventualmente assistimos a algum bom comercial e durante os poucos segundos em que a propaganda é mostrada, ficamos com aquela incômoda pergunta: afinal, que produto eles estão anunciando? Ao final, ao juntarmos as idéias mostradas com o anúncio do produto tudo se encaixa perfeitamente. O produto vira um personagem implícito do comercial. Na literatura isso também acontece. Eventualmente somos levados por uma boa história e percebemos “personagens” implícitos que fazem encaixar idéias ou temas que o escritor propõe. Por exemplo, o tempo freqüentemente vira um personagem do romance.
No livro “To The Lighthouse” (no Brasil o título é traduzido por “Ao Farol”, “Rumo ao Farol” ou “Passeio ao Farol”) de Virgínia Woolf, em meio à história e aos personagens, perecebemos de forma nítida como a escritora faz questão de mostrar o tempo como um grande agente destruidor. São duas partes principais: na primeira programa-se um passeio a um farol próximo, que não ocorre, e na terceira (após a Primeira Guerra Mundial) o passeio se concretiza. A segunda parte conta de forma rápida o que ocorreu entre uma parte e outra. O estilo “stream-of-consciousness” que Virginia Woolf utiliza, valoriza muito essa idéia de o tempo degradar tudo. Na primeira parte há um clima de empolgação, especialmente ao se descrever os pensamentos do jovem James Ramsay, enquanto na terceira a sensação é que as coisas foram abandonadas, que tudo perdeu seu brilho.
Na leitura que fiz recentemente do romance “O Bosque das Ilusões Perdidas”, de Alain Fournier, senti sensações similares de contraste entre a felicidade e a empolgação do passado com a tristeza e angústia do presente, que existe no livro de Virginia Woolf. O tempo novamente aparece como um personagem que transforma tudo para pior. A descrição do reencontro de Meaulnes e Yvonne é o clímax desse contraste. A medida que lemos as páginas do capítulos parece que sentimos o mesmo que Meaulnes: nada é como foi. O tempo passa, causa seu estrago e nunca as coisas serão como eram, sobra apenas nostalgia.
Nos dois romances, ocorre o mesmo: lemos as páginas, conhecemos os personagens, vemos os fatos se passarem, mas é o só quando percebemos que o tempo vira um personagem da obra que tudo se encaixa. Apesar da sensação ruim que essa percepção nos causa, somos influenciados a dar valor a este personagem. Vemos que todo o mal que o tempo causa não faz apagar tudo o que ocorre no presente. A vida segue. Bem ou mal, a vida segue. Em “To The Lighthouse”, James Ramsay por um breve momento se vê mais próximo a seu pai. Em “O Bosque das Ilusões Perdidas”, Meulnes retorna para encontrar sua filha. Em resumo, por mais degradante que possa parecer o presente em comparação ao passado, tudo sempre nos faz olhar para frente e seguir.