O OuLiPo, no meu entender, é sinônimo de ócio. Só isso. Tudo bem um indivíduo querer produzir um texto seguindo o que pode ter o nome de “ordem” ou “limite” extremo, porém, dizer que um livro feito desse modo (num molde fixo) é fruto de um “insight de gênio” como muitos dizem, é bem discutível.
Georges Perec, escritor reconhecido como um gênio inventivo e membro do OuLiPo, conseguiu produzir um livro inteiro com o limite de escrevê-lo sem o “e”. Perec criou um jogo divertdo, contudo, só ele brincou. No livro, Perec contou o sumiço de um indivíduo. Como no livro inteiro inexiste o “e”, o vínculo entre um evento e outro é o que produz um efeito que distingue-o dum modo positivo dentre todos os outros escritores do OuLiPo. Só isso. O jogo consiste em produzir um livro com ordem e método, tendo um competidor escrevendo com um limite imposto. Ponto. Dizer que isso é bom, só porque o competidor conseguiu vencer o jogo é risível.
Com isso, proponho que os leitores reconsiderem certos pontos impostos. No meu entender, mesmo um mero blogueiro pode produzir um texto seguindo um método fixo e nem por isso o texto é bom. Escrever um belo texto independe disso. Escrever bem é um dom. Costumo dizer que compreender o que é um texto bem escrito é o primeiro requisito com o objetivo de se reconhecer um livro bem escrito.
Num desses vídeos sobre planejamento estratégico nas empresas, o autor explica que nós seres humanos quanto mais próximos estamos de algum problema, mais temos a tendência de não enxergar o óbvio. É o que se chama “paradigma”, ou seja, criamos filtros mentais que descartam certas idéias. Embora na maioria das vezes isso é algo positivo, em alguns casos, pode ser bem prejudial. Como uma mosca que bate insistentemente no vidro de uma janela e não consegue chegar ao outro lado por não se afastar dela e percebê-la aberta, nós às vezes tendemos imaginar mil e uma explicações absurdas para um fato simples. Lembrei-me disso ao ler “Pnin” de Vladimir Nabokov.
A história é bem simples: um professor universitário russo e ingênuo que não consegue entender o país em que vive, os Estados Unidos. Nabokov, além do talento, tem propriedade para tratar do assunto, já que a situação que ele próprio viveu é semelhante a de seu personagem. A história é bem simples e o sarcasmo utilizado por Nabokov é de gênio. Desde o início, Nabokov mostra um personagem perdido, sem completo domínio do idioma e da cultura do país em que vive. Através dos olhos do professor Pnin, vemos as diferenças e paradoxos da antiga Rússia comunista e o “american way of life”.
O grande mérito do livro é sua simplicidade. Nabokov nunca cai na armadilha mais comum neste tipo de tema e ao invés de transformar a história num blábláblá crítico dos costumes americanos (que hoje está bem na moda), faz suas observações de modo sagaz, mas distante. Percebe o óbvio e pronto. Quem quiser partir daí e desenvolver suas idéias, que o faça, mas Nabokov não quer nenhuma responsabilidade nisso. É como um vigia que simplesmente dá o aviso da calamidade. Nabokov não poupa nem mesmo o personagem principal: suas relações com as pessoas que o cercam é sempre de estranheza. O único que consegue alguma proximidade é seu próprio filho, que parece uma versão americana do professor Pnin.
O recurso de narração utilizado por Nabokov realça bem sua disposição em ser imparcial. A história toda é narrada por um conhecido do professor Pnin, que no começo do livro está bem escondido e que somente na parte final se aproxima por explicitar sua relação com o professor Pnin. Pode-se destacar também em sua narrativa, o formato em espiral da história: ao final, o narrador nos remete novamente ao começo, tornando o livro todo um eterno círculo, semelhante ao que faz Érico Veríssimo em “O Tempo e o Vento”. Enfim, um livro leve e que vale a pena.
Não é implicância. Conforme já disse em outro post, uma tradução tem sim suas vantagens. Mas o que eu fico em dúvida é o que dá na cabeça de uma editora em lançar uma grande obra com um título completamente diferente do original? Embora possam existir razões válidas, nunca vi um caso em que isso ocorre. Por exemplo, “Le Grand Meaulnes” em português virou “O Bosque das Ilusões Perdidas”. Quem será que teve a genial idéia de “traduzir” o título da obra para algo completamente diferente do que o autor colocou originalmente? Imagino a reunião para decidir o título: o sujeito do marketing dizendo que “O Grande Meaulnes” não ia soar tão bem a primeira vista e que o título deveria ser algo mais comercial. Um ativista aposentado de alguma corrente literária saca logo da manga algo extremamente pomposo, talvez um “A Desilusão Evanescente da Realidade” e um dá um palpite de cá, outro dá um outro palpite de lá e ao final o título vira “O Bosque das Ilusões Perdidas”. Pronto. Só o cara que confecciona as capas é que fica pê da vida porque o título ficou grande demais e ele vai ter que apresentar um novo projeto.
A provável explicação para as tão freqüentes licenças poéticas na tradução de títulos, além do fator comercial, pode ser a escassez de leitores do português que sabem qual é o título original da obra e por isso o que a editora inventar não fará diferença. Numa ocasião, encontrei uma referência à obra “Speak, Memory” de Vladimir Nabokov, num artigo escrito em inglês. Fui até o site da editora “Companhia das Letras” para conferir se ela constava no catálogo. Não encontrei. Algum tempo depois, numa livraria folheando um livro do Nabokov, que aparentemente não conhecia, descobri que se tratava justamente de “Speak, Memory”. O título se transformou em “A Pessoa em Questão”. Simples não é? É como se a editora dissesse: “Bom, como ninguém lê Nabokov nesse país e ninguém nunca ouviu falar em ‘Speak, Memory’ vamos dar um retoque para que fique mais chamativo.”
Em outros casos, a obra já foi traduzida em Portugal. Com isso, o tradutor brasileiro “pega carona” na idéia do outro tradutor e deixa o título como está. Mas com “Speak, Memory” nem isso ocorre. Em Portugal, o título é “Na Outra Margem da Memória”. Diferente, mas pelo menos temos uma dica pelo título que se trata da mesma obra. Aliás, as diferenças de tradução do português falado no Brasil e do português falado em Portugal daria assunto para mais um post (já ri muito de confusões, como “chapeuzinho” e “capuchinho” da história infantil, que fazem brasileiros e portugueses não entenderem muito sobre o quê se fala).
Felizmente, o mercado editorial ainda não é dos piores. Na indústria do cinema, os casos já ultrapassaram qualquer limite razoável. Em alguns casos, temos até a surpresa de encontrar o título de um livro sem tradução. O tradutor sabia que nada poderia substituir o impacto do título original, ou talvez comercialmente é melhor simplesmente deixar o título no idioma original. Em outros casos, a tradução é posteriormente melhorada, permitindo uma aproximação com a idéia que o autor quis trazer à tona no título. Foi assim com “Os Possessos”, de Dostoiévski, que a “Editora 34″ relançou com o título agora traduzido diretamente do russo: “Os Demônios”. Isso pode ser um indicativo que nem tudo está perdido.
Fim de viagem, retorno às atividades regulares deste blog. Com alguns problemas a serem resolvidos, mas não há de ser nada. Falo mais tarde de “Pnin” de Vladimir Nabokov, que achei muito bom. De última hora também, saiu da mala “Mrs. Dalloway” e entrou “O Bosque das Ilusões Perdidas” de Alain Fournier. Não acabei de lê-lo ainda, mas vou gostando.
Está na mala para a viagem de carnaval: “Pnin” do Vladimir Nabokov, “Mrs. Dalloway” da Virginia Woolf, “O Homem Sem Qualidades” do Robert Musil e “Laços de Família” da Clarice Lispector. Droga! vou ter que deixar para trás algumas roupas, a mala é pequena.
Bom já que o tema desse blog é a odisséia, por que não iniciar uma série de comentários sobre grandes obras justamente por ela? Postarei aqui informações sobre grandes obras que influenciaram e influenciam toda a humanidade. Ou talvez nem tanto. Enfim, pretendo colocar aqui comentários de obras que aprecio, sem qualquer ordem de importância. Pronto.
A Odisséia
O Que é?
“A Odisséia” foi escrita provavelmente entre 750 e 650 A.C. A obra é um poema épico sobre os caminhos do herói grego Odisseu ou Ulisses após a Guerra de Tróia. Sua influência na literatura é inquestionável. Basta notar que o tema primário da obra (o desejo de retornar a um lar) é abordado também em obras tais como “O Mágico de Oz” e “Ulisses”. Muitos afirmam que a obra é resultado de múltiplos autores e outros, ao contrário, dizem que ela foi escrita por um único autor, Homero. Uma outra teoria procura ligar os dois pontos de vista, ao afirmar que na verdade Homero escreveu as diversas histórias que ouvia, aglutinando tudo em um grande poema. Como os eventos se passam após a Guerra de Tróia recomenda-se a leitura e compreensão de “A Ilíada”, também de Homero. Embora o foco principal da narrativa seja Odisseu e sua volta para casa, outros personagens são marcantes como Telêmaco, filho de Odisseu, e a fiel esposa Penélope.
Por Que Ler?
Pela idade você deve ter notado que “A Odisséia” se tornou um texto atemporal. Os mitos constituem um degrau do pensamento humano para tentar explicar o mundo. Como a mitologia grega influenciou toda a cultural ocidental é de supor que os personagens da obra também influenciaram a construção de personagens da literatura moderna. Especialmente a figura do herói e sua viagem de descobrimento são constantemente observados no mundo literário. Portanto, ao ler qualquer obra de ficção na literatura tenha em mente “A Odisséia” e seus personagens.
Quando estava escrevendo o post anterior sobre o personagem Svidrigáilov de Dostoiévski, lembrei-me logo de um outro personagem também mau: Tom Buchanan, de F. S. Fitzgerald. Em “O Grande Gatsby”, Fitzgerald cria um personagem com alguns pontos em comum com o personagem de Dostoiévski. Em primeiro lugar, ambos são inconseqüentes. Svidrigáilov é um personagem totalmente apartado de qualquer sentimento nobre. Na obra de Fitzgerald, o persongem é descrito como um homem fisicamente forte e psicologicamente manipulador. Apesar de serem dois países completamente opostos e duas épocas completamente diferentes, os dois personagens se aproximam muito ao não se imaginarem respondendo por qualquer ato.
Outro ponto interessante é a forma como ambos os personagens tratam as mulheres que encontram pelo caminho. Svidrigáilov é um tremendo deflorador-picareta, com uma predileção por meninas. Para ele, as mulheres só servem para o consumo. No caso de Buchanan, seu modo manipulador de tratar as mulheres que permeiam sua vida e a falta de importância que elas têm (quem disser que Dayse tinha alguma importância para ele vai ter que provar o por quê) somente amplia ainda mais sua personalidade arrogante e narcisista.
Agora o ponto que mais me chama a atenção nos dois personagens é a aparente indiferença de ambos diante da morte. Svidrigáilov se suicida de uma forma muito racional: é uma escolha como qualquer outra. Similarmente, Tom Buchanan escolhe manipular a situação para levar à morte Jay Gatsby. Escolhe a morte também da forma mais natural possível. Depois dela, a vida segue e tudo tende a voltar ao normal. A naturalidade com que tudo é descrito no fim de “O Grande Gatsby” somente corrobora sua perversidade.
Svidrigáilov é um dos meus personagens preferidos. Em “Crime e Castigo”, Dostoiévski mostra-nos a maldade sobre vários aspectos, mas Svidrigáilov é “o” homem mau, daqueles que pegam criancinhas pra fazer mingau. Os capítulos 5 e 6 da sexta parte de “Crime e Castigo” são essenciais para se conhecer sua personalidade. Somente Raskolnikov é tratado com tanta intimidade durante o romance, mas em minha opinião nunca com a “classe” de Svidrigáilov. O capítulo 5 é um primor. Tenho uma versão de “Crime e Castigo” (da Nova Cultural, daquelas de banca) que não dá sequer a idéia do impacto que é a leitura no russo. Transcrevo o diálogo final da minha versão abaixo:
- Deixa-me! - disse Dúnia implorante. Svidrigáilov estremeceu; aquele “tu” foi pronunciado de maneira diferente do anterior.
- Então não me queres? - perguntou-lhe com medo. Dúnia moveu negativamente a cabeça.
- E… não poderás? Nunca? - balbuciou ele com desespero.
- Nunca! - murmurou Dúnia.
O problema para nós brasileiros e leitores do português é que sequer existe algum “tu” na frase, muito menos um “tu” diferente. Como gato escaldado tem medo da água fria, supus logo que havia alguma coisa de errado com a tradução ou havia algum sentido oculto no russo original, que no português não se consegue transmitir. Não há nenhuma nota, mas pelo restante do romance dá para perceber que alguma coisa realmente muito importante estava contida neste trecho.
Procurei saber e descobri o que era: no russo existem duas formas de pronome possessivo, semelhante ao português que possui “tu” e “você”. Geralmente se usa uma das formas, uma forma “comum” ou “geral” e esta foi utilizada durante todo o capítulo. No entanto, exatamente neste ponto, a forma de tratamento muda. A outra forma de tratamento é utilizada somente com familiares e amigos íntimos. Por isso, o efeito da mudança no russo causa um impacto que no português é impossível, sugerindo uma relação íntima entre os dois e criando assim uma ambigüidade incrível. Dúnia está dizendo um “não”, mas está sugerindo um “sim”. Esse frase transforma a personagem numa das mais intrigantes e misteriosas do romance. Sugere assim que ela seria uma espécie de redentora (mais uma vez a imagem religiosa aparece e Dúnia seria como Cristo) e Svidrigailov não conseguiria escapar de uma redenção.
Aí é que o verdadeiro cara mau se concretiza: entre Svidrigáilov se converter e se redimir ou ele meter uma bala na cabeça, ele escolhe a última opção. Como que num espelho, Svidrigáilov se vê capaz de desenvolver sentimentos nobres, mas ele se recusa. O que motiva os atos de Svidrigáilov não são atos nobres, ele é um anti-Midas que faz perder a inocência de tudo o que toca, assim recusa uma purificação. E não é só isso, ele sente medo de que Dúnia possa purificá-lo e daí se mata. Portanto, ele não é só um homem mau - ele é o homem mau que se recusa a pagar seus pecados. O homem mau, mau por si só, sem qualquer motivação para a redenção. Quando Dostoiévski põe uma bala na cabeça de Svidrigailov, ele transforma o personagem no “cara mais mau” que pode existir.