Os estudantes geralmente possuem uma regra básica para aqueles professores ridículos que passam trabalhos com um número mínimo de páginas: aumentar para conquistar. Quando eles espremem o cérebro e não consegue extrair mais nada de lá para preencher pelo menos o número mínimo de páginas, eles descaradamente mudam o tamanho da fonte para maior. Com uma capa bem trabalhada e uma encadernação profissional, o trabalho que antes era insatisfatório, corre o risco de ser apresentado aos demais alunos como exemplo de empenho e dedicação. Aumenta o volume, sem aumentar a qualidade do texto, mas mesmo assim o resultado é um considerável aumento da nota. Um recurso engraçado, porém infantil.
Toda vez que eu apanho um livro numa livraria que possui uma fonte enorme, eu fico me perguntando se a editora também não quer me enganar. Existe obviamente uma relação direta entre o número de páginas de uma obra e seu preço, então é de se supor que se quisessem cobrar um preço elevado por algum livro cujo texto é pequeno, a fórmula ‘aumentar para conquistar’ seria uma ótima opção. Pode ser que exista de fato um público-alvo para obras com uma fonte maior, talvez pessoas de mais idade que possuem dificuldade de leitura de letras pequenas. Mas é muita coincidência que a editora esteja tentando atender a este público imprimindo assim justamente textos pequenos. E maior coincidência ainda é ver que o preço acompanha (e bem!) o aumento de páginas. Para exemplificar este fenômeno, apanhem numa livraria qualquer o livro “33 Contos Escolhidos” de Dalton Trevisan. São cerca de 270 páginas que sem muito esforço caberiam na metade. Agora apanhem um exemplar de “Primeiras Estórias” de Guimarães Rosa. São 240 páginas diagramadas de modo elegante e satisfatório. Comparem o preço. Parece que estamos levando a metade de um texto pelo preço de outro. E não estou comparando dois livros sem nenhuma relação. Ambos são livros de contos e ambos os autores são brasileiros. Porém, são de editoras diferentes. Aliás, as obras de Graciliano Ramos sofrem do mesmo mal: textos ampliados a cada nova edição. Novamente o preço acompanha o aumento de páginas.
Imagino que se uma editora quer colocar ‘fermento’ num texto que pelo menos disfarcem de uma forma melhor e que represente vantagem para o leitor. Que tal se ao invés de aumentar a fonte, introduza a edição com um ensaio de qualidade? Talvez poderiam contratar um bom ilustrador que fizesse um trabalho para diferenciar a edição atual de sua antecessora. Enfim, aumentar as páginas com o que realmente importa: qualidade. Quando a editora simplesmente aumenta o número de páginas sem uma qualidade evidente em relação à edição anterior, a única idéia que ela passa é que, como os estudantes, espremeu-se o cérebro e não se encontrou nenhuma outra alternativa.
Gostei das indicações de livros para o vestibular da UFMG 2006. Diferente do que estávamos acostumados, as indicações do ano passado foram uma total surpresa. Parece-me que houve uma mudança nos parâmetros utilizados e que o processo vem amadurecendo ainda, mas acredito que as escolhas deste ano foram melhores do que as do ano passado. Para quem não sabe, o vestibular da UFMG indica cinco obras por ano que deverão ser lidas pelos candidatos. A lista geralmente é composta por dois romances, dois livros de poesia e um ‘coringa’ (crônicas, contos ou algum outro gênero). O que vinha acontecendo é que os livros geralmente eram escolhidos entre os já consagrados ‘clássicos’. Muitos, apesar de serem bons, eram bem distantes dos jovens estudantes. Por exemplo, no vestibular de 2003, “Broquéis” de Cruz e Souza, foi um dos livros escolhidos, um livro exigente para os jovens que em sua maioria não estão acostumados com a leitura regular de obras. O resultado quase sempre era uma infinidade de vestibulandos que nunca liam estas obras, recorrendo a um cursinho pré-vestibular para interpretá-las ou a algum desses manuais péssimos vendidos nas bancas. No ano passado, o que me pareceu, foi que a UFMG se deu conta desse problema e fez escolhas bem mais próximas ao leitor jovem. Duas grandes surpresas foram as escolhas de “A Eterna Privação do Zagueiro Absoluta” de Luís Fernando Veríssimo e “Nove Noites” de Bernardo Carvalho. A primeira, porque além de ser um livro de crônicas em sua grande maioria sobre futebol, ainda possui uma linguagem bastante acessível, o que geralmente faz a obra ser descartada em indicações para vestibulares. Já a segunda, por ser um livro recente de um autor contemporâneo, com um trabalho ainda em andamento. As duas, para mim, foram ótimas escolhas, indicando que o vestibular além de ser extremamente bem preparado quer apresentar-se moderno. Já com respeito à obra “Roda do Mundo” de Edimilson de Almeida Pereira e Ricardo Aleixo, acho que a UFMG errou feio. O objetivo claro da inserção da obra foi a valorização da cultura negra, através de uma obra que apresenta diversos elementos ligados à ela. Não consegui ver mais nada que justificasse a escolha da obra, já que tanto a obra como seus autores são uma incógnita para a maior parte do público. O acesso ao texto foi difícil, pois a obra estava esgotada, e somente muito tempo depois que o anúncio das obras escolhidas foi feito é que o livro voltou a ser vendido. Com isso, o efeito foi o mesmo: muitos vestibulandos não leram o livro. Os que arriscaram se deram bem, já que sua leitura foi dispensável, pois a UFMG quase nem colocou questões a seu respeito. Outro ponto desfavorável foi o volume de leitura pequeno. Li todas as cinco obras em duas semanas. Acredito que o aluno que não estava acostumado com uma leitura regular pode ter gasto no máximo um mês para ler todas. A única obra que exigia um pouco mais foi a de Joquim Nabuco, e que mesmo assim não havia nada de mais. Não acho bom que as universidades coloquem um número absurdo de livros em seus vestibulares, mas também vejo que o vestibular é uma boa oportunidade para que novos jovens descubram o prazer da leitura. Quando ela é mínima, pode ser que a oportunidade não seja plenamente aproveitada.
Bom, por tudo isso, acredito que as obras deste ano são melhores. Parece que ao contrário do ano passado, neste ano existe um parâmetro claro para escolha das obras, que é abranger textos das diversas regiões do país. Temos um texto clássico (”Carta” de Pero Vaz de Caminha), um da região norte (Inglês de Souza), um do nordeste (Patativa do Assaré), um da região sudeste e de Minas Gerais (Guimarães Rosa) e um do sul (Erico Verissimo). Desses li três: “Carta”, “Grande Sertão Veredas” e “Um Certo Capitão Rodrigo”. Patativa do Assaré parece ser o texto menos acessível de todos, mas mesmo assim não creio que será tão difícil encontrá-lo em livrarias. A surpresa foram os “Contos amazônicos” de Inglês de Souza. Imaginei que por ser um texto clássico e antigo, estivesse amplamente disponível em formato eletrônico pela internet. Infelizmente ainda não o encontrei gratuitamente, somente nas livrarias. Com respeito à qualidade, vejo que todos os textos merecem uma leitura. Patativa do Assaré, que ainda não li, representa uma das escolhas mais acertadas. Não há como não discutir literatura do nordeste sem discutir literatura de cordel. De qualquer forma, a tentativa de aproximar o vestibulando à obras interessantes e estimulá-lo ao hábito de leitura será muito melhor sucedida neste ano do que no ano passado. O problema do volume de leitura também parece que foi sanado: o volume deste ano será um pouco maior do que o ano passado, mas não creio que será excessivo.
Obras raras roubadas são devolvidas à UFMG
O pior é saber que algumas estavam sendo vendidas em sebos.
Continuando a discussão à respeito do valor da crítica literária gostaria de tecer alguns comentários sobre a entrevista de Eduardo Portella, citada neste post da Dani. Em primeiro lugar, discordo do ponto de vista expresso de que o crítico é ‘alguém destinado a ditar o gosto’. O bom crítico literária trabalha com o objetivo de analisar obras e não impor nada. Ele ‘aponta orientações’ sim, mas isso não significa imposição. Também ele diz de ‘um período de literatura plena e de grandes certezas’. Ora, este período nunca existiu! Antônio Cândido aponta muito bem que antes de Sílvio Romero haviam grupos de críticos que apresentam manuais e estudos literários, mas estes não possuíam um trabalho contínuo de reflexão teórica sobre literatura brasileira. Sílvio Romero, portanto, teve um papel muito importante nisso, pois suas críticas começaram a apresentar sustentação teórica e seu projeto pessoal envolvia transformar a crítica então existente (que era bastante limitada) em ciência. Seu modelo, embora bastante importante para a formação da crítica atual, posto em execução mostrou algumas deficiências que foram e ainda são apontadas e discutidas. Mesmo na época de publicação da sua principal obra, a “História da Literatura Brasileira”, Sílvio Romero foi criticado por outros, que apontavam inclusive contradições na sua obra. Daí, surgiram outras obras que fizeram com que o trabalho do crítico literário evoluísse, expandindo-se e tornando-se mais valioso e instrumentado. Portanto, não existe um período de certezas, conforme ele diz, mas sim trabalhos de críticos que foram importantes, mas não isentos de discordâncias. Aliás, isso é natural em qualquer área do conhecimento humano. Além do mais, temos que admitir que o cenário onde a crítica atua sofre constantes mudanças (no nosso tempo isso ocorre de forma cada vez mais veloz), o que faz com que alguns pontos de vista antes defendidos sejam abandonados, pois os instrumentos utilizados para obter conclusões foram modificados e atualizados. É isso que faz com que alguns escritores antes valorizados sejam esquecidos e outros sejam redescobertos. Mas isso não invalida o papel da crítica, afinal o que se busca através dela não são certezas e sim (conforme já disse) orientações. Por fim, concordo com o comentário dele de que “o crítico hoje é um leitor a mais, um pouco mais instrumentalizado do que os outros, mas apenas um leitor”. O bom crítico é um leitor experiente, que tem conhecimento teórico da literatura e este conhecimento lhe permite ressaltar alguns pontos, fazendo com que ele chegue a uma conclusão positiva ou negativa. Naturalmente em ambos os casos, deve haver uma base teórica que reflita o porquê de tal opinião.
Com respeito a seu comentário Dani, também tenho algumas observações. Eu não afirmaria que o leitor é ‘incompetente’ como você diz e sim que possui limitações naturais. A primeira é naturalmente geográfica. Um leitor de Minas Gerais consegue tirar muito mais proveito de “Grande Sertões: Veredas” do que um leitor da Indonésia, que nunca visitou o Brasil e nem sabe nada sobre o país. A segunda, o idioma. Ler “Ulisses” é bem diferente de ler “Ulysses”. Alguns enigmas do livro estão escondidos em estruturas da língua e são impossíveis de serem traduzidos. A terceira são as próprias referências do leitor. Se existem alusões à Bíblia, mas o leitor nunca a leu, provavelmente ele não irá percebê-las. O bom crítico ajuda o leitor a amenizar um pouco estas limitações, dando mais informações sobre o texto. Claro que para alguns leitores, isso será desnecessário, por exemplo, se nenhuma das três limitações apontadas acima for empecilho para ele, mas na média, isso faz com que os leitores tirem maior proveito, afinal a maioria possui pelo menos uma dessas limitações. Daí, afirmo que mesmo um leitor com pós-doutorado em literatura pode tirar proveito da leitura do trabalho de um bom crítico sobre uma obra. Com respeito a sua afirmação de que ‘quem aponta características geográficas, sociais ou culturais em um livro é a editora ou o tradutor desse livro’ é certa apenas parcialmente. Alguns pequenos pontos podem ser esclarecidos por uma nota ou um apêndice, mas análises mais cuidadosas não são o caso. No caso de Joyce, por exemplo, os trabalhos magníficos de Harry Blamires em “The New Bloomsday Book: A Guide Through Ulysses” e de Don Gifford em “Ulysses Annotated” são prova clara disso. São notas extensas e informativas que refletem um trabalho gigantesco e cuidadoso de pesquisa que ambos tiveram. Um leitor que queira fazer algo semelhante talvez não teria tempo nem disposição para procurar tantas fontes diferentes e reuni-las, como ambos fizeram. Daí o seu valor.
Em suma, o que quero dizer é que a boa crítica literária serve a um papel positivo, embora é comum ser vista de forma negativa. Ela não é restritiva, nem é uma ditadura que impõe o que deve ou não ser lido, este papel cabe ao leitor. Pelo contrário, ela amplia a capacidade de escolha do leitor comum, procurando justamente eliminar os ‘achismos’ e colocar uma obra sob uma luz diferente, com toda uma base teórica por trás, com o objetivo de se chegar a um ponto de vista mais consistente do que apenas o gosto pessoal de cada um. Quando o leitor delega sua capacidade de escolher o que deve ser lido ao crítico literário, o problema é dele e não do crítico. Quando o leitor se informa, através da boa crítica literária, sobre uma determinada obra ou autor, ele está apenas reunindo mais uma informação para tomar sua decisão e assim tirar maior proveito qualquer leitura.
Lendo este post da Dani e a argumentação do dia 25/04 da Olivia sobre o post, além dos comentários postados, pude perceber duas coisas:
1 – A crítica literária (ou crítica de um modo geral) geralmente não é vista com bons olhos por aqui;
2 – Há quase sempre uma associação entre produção literária (arte) com crítica literária (trabalho de pesquisa e esclarecimento);
O primeiro ponto acredito que faz bastante sentido em muitos casos. A crítica literária tem como objetivo, entre outras coisas, observar pontos que um leitor mediano não conseguiria observar sozinho e chamar a atenção a eles, de modo que à partir da análise realizada, o leitor possa compreender melhor a obra através de uma base mais forte. Ninguém é obrigado a conhecer a Irlanda para ler “Ulisses”, mas ajuda quando estamos informados sobre alguns hábitos e locais existentes ali. Ou seja, Joyce colocou enigmas suficientes para nos preocuparmos, não precisamos de mais alguns criados por nossa ignorância, e daí crítica deve ser vista com bons olhos, pois explicita alguns pontos pertinentes para que possamos nos concentrar em interpretar aquilo que realmente importa. Quando há alguma interpretação também, ela pode ser o primeiro degrau para seguirmos nossa própria linha de raciocínio e tirarmos nossas próprias conclusões. Mas, contrariando a lógica, existem textos de críticos que são simplesmente ilegíveis. Daí, conforme disse bem o Alexandre Soares Silva, vemos críticos procurando chifre em cabeça de cavalo. Num trecho simples, onde inadvertidamente o autor se distraiu e deixou uma pequena brecha, o crítico mistura tudo, até filosofia, para falar do “aspecto transcendental” da vírgula utilizada. Isso deprecia o trabalho de críticos que realmente cumprem o seu papel. Pessoalmente tenho pouco tempo para ler. Portanto quando procuro uma crítica literária qualquer, quero ler algo que possa ser relevante para ampliar minha capacidade de interpretação. Se o crítico parece querer sempre se sobressair, jogando na minha cara que ele é o “especialista” e eu sou um reles “leitor”, ao invés de se resignar a informar pontos por ele pesquisados, eu me afasto. Uso o seguinte critério: passo os olhos rapidamente pelo texto. Se encontro várias e várias expressões em latim, nem perco meu tempo lendo a crítica. Quando falam do “leitmotiv” então… Posso até perder boas análises assim, mas que posso fazer? Meu tempo é curto, sendo assim tenho que de alguma forma separar o joio do trigo.
Com respeito ao segundo ponto, a culpa em grande parte dessa associação acredito que se deve a falta de acesso que boa parte dos leitores têm às críticas que deixem claro que por trás do texto, houve muito trabalho de pesquisa. Podemos encontrar facilmente, em revistas ou jornais, textos de celebridades dando seus palpites sobre este ou aquele livro que está lendo. Os bons textos de críticos geralmente são encontrados em livros. Essa falta de acesso faz com que as pessoas achem que um crítico é simplesmente um “palpiteiro” (no sentido mais pejorativo possível), quando na verdade se trata de uma pessoa que trabalha bastante para construir um texto realmente elucidativo. Se o que encontramos na maior parte dos meios de comunicação são os “palpiteiros” que não tem nem talento nem base de pesquisa para escrever sobre alguém ou alguma obra, a tendência natural é generalizar e colocar todos no mesmo barco. Com isso, a afirmação de que um crítico nada mais é do que um escritor incapaz de produzir algo bom se torna comum e parece fazer todo o sentido. Mas é preciso deixar claro que crítica literária não é arte.
Apesar destes pontos de vista comuns, acredito ser de grande importância debater sobre obras e procurar ampliar nosso conhecimento seus conteúdos. Um leitor sozinho nunca conseguiria esclarecer todos os pontos de uma obra. No caso de algumas, nem todos os leitores do mundo juntos conseguem esta façanha. Quando encontramos uma opinião de qualidade, que nos faz pensar um texto de uma nova forma, devemos valorizá-la. Afinal inteligência é algo cada vez mais escasso.
Evidentemente todos que me acompanham sabem que este um é blog monotemático, o que faz com que ele tenha uma cara de clubinho particular mesmo sem eu ter essa intenção, afinal nem todos têm interesse em falar de literatura. Mas muitos na internet também falam de literatura (e falam bem!) e eu procuro acompanhar. Sendo assim, vou montando um `álbum de figurinhas virtual`, onde vez por outra apontarei aqueles blogs que também têm algo de interessante a dizer sobre este grande universo que é a literatura. A primeira `figurinha` que cito aqui é o Fêmea de Cupim, que entre outros temas, apresenta-nos bons posts à respeito de (é claro!) livros & literatura. Num post recente, para Booklovers, algumas perguntas que reproduzo aqui e que dou minhas próprias respostas:
1 - Quantos livros você lê por ano?
Não sei exatamente. Em algumas épocas leio com mais rapidez em outras leio mais devagar. Também tenho um grande problema que é a falta de tempo e por isso leio menos do que gostaria. Tenho uma rotina parecida com a rotina de muitos: trabalho 8 horas por dia, à noite estou na faculdade e nos fins de semana dou bastante atenção à minha família. Mas em média procuro ler um livro por semana, ou uns 50 livros por ano.
2 - Qual foi o último livro que você comprou?
Não foi um, foram alguns: “Machenka” e “A Pessoa em Questão” de Vladimir Nabokov, além de “O Leilão do Lote 49″ de Thomas Pynchon, “Luz em Agosto” de William Faulkner (que já estava procurando a um bom tempo e que consegui numa daquelas olhadas descompromissadas após o almoço) e “Prosa Reunida” de Adélia Prado.
3 - Qual foi o último livro que você leu?
“Machenka” de Vladimir Nabokov, contrariando a tradição de seguir a regra do FIFO (first in, first out).
4 - Liste cinco livros que tenham um significado especial para você ou que você tenha gostado muito.
O primeiro é a “Bíblia”, um livro antigo mais bem atual. Descreve com um primor incomparável a natureza do ser humano. Um livro de sabedoria indispensável. Coloco na lista também “Ulisses” de James Joyce, que ampliou as noções que eu possua de romance. Depois que li o livro, percebi que poderia ler qualquer texto. “A Montanha Mágica” resultou numa profunda análise pessoal, que serviu inclusive para que eu aprendesse a valorizar minha capacidade de não apenas ler, mas também interpretar melhor textos e símbolos. Por último citaria qualquer um de Franz Kafka (deixo para vocês decidirem) e a maravilhosa obra “O Tempo e o Vento” de Erico Veríssimo.
5 - Para quem você vai passar este questionário (3 blogs) e por quê?
A todos que quiserem também apontar suas respostas, afinal o papo aqui é literatura, não é verdade?
“Derivative writers seem versatile because they imitate many others, past and present. Artistic originality has only its own self to copy.”
Vladimir Nabokov, respondendo a afirmação de que suas obras eram extremamente repetitivas.
Ganin, personagem principal de “Machenka”, primeiro romance do escritor Vladimir Nabokov, é um dos raros exemplos na literatura de personagem que toma consciência de que o tempo é um agente modificador e destruidor, sem que para isso precise bruscamente sair das suas lembranças e entrar na realidade existente. O que acontece na maioria das vezes é que o personagem não tem essa noção o que faz com que ele caia na armadilha de imaginar a felicidade do passado como felicidade ideal, perdendo assim a capacidade de olhar o presente e perceber as qualidades ou deficiências deste tempo. Numa comparação, Ganin é um José Maria - personagem do conto “Viagem aos Seios de Duília”, de Aníbal Machado – às avessas. O que José Maria não tem, Ganin adquire. Em ambos os casos, os personagens se chocam com seu passado feliz repentinamente e partem numa jornada, com a esperança de recuperá-lo, imaginando que assim repartirão o tempo em fatias e conseguirão separar aquelas partes que não trouxeram felicidade, deixando somente as partes que interessam. Imaginam que poderão recomeçar a viver com felicidade plena, como se existissem dois filmes, um de momentos felizes e o outro com as infelicidades, e que o primeiro foi bruscamente interrompido para se iniciar o outro, mas que agora, este se reiniciará como se nada tivesse acontecido.
Mas a semelhança vai só até aí e podemos afirmar que Ganin é um personagem melhor, mais consciente, pois depois de viajar por este passado consegue perceber os sinais a sua volta e consegue ver que na verdade isso é uma grande ilusão proporcionada pela capacidade do ser humano de construir uma memória seletiva, que côa tudo aquilo que deve ser esquecido e deixa apenas os momentos fabulosos da vida. José Maria, apesar de todos os sinais a sua volta, que vão se tornando mais nítidos à medida que sua jornada chega ao fim, prefere viver ainda no passado e quando reencontra Duília, quase um cadáver, sofre o choque brutal e toma consciência de que não há nada que o faça recuperar o tempo passado. Ganin, depois de nadar o romance inteiro entre suas felizes memórias, vê conscientemente o futuro e percebe que tudo aquilo que sonha, no melhor dos casos é apenas um bom tempo que já não existe. A alegria de viver junto com Machenka deve ser preservada com ela é de fato: um grande álbum de memórias de uma época da vida que passou. Assim, apesar do vislumbre de um reencontro perfeito, ele dá meia-volta e segue seu caminho rumo a um futuro desconhecido, mas aguardado.
Muitos afirmam que este é o pior romance de Nabokov. Numa escala de grandeza bem diferente do que vemos na maioria dos casos, pode-se afirmar que mesmo o pior romance de Nabokov consegue ser muito melhor do que muitos livros que lemos poraí. Nabokov, no rápido romance, consegue nos distrair com o passado de Ganin o tempo inteiro, até que ao final ele nos joga na cara quão ingênuos nós fomos, por acreditar que este passado ainda estava vivo. No fim, nem Ganin acredita nisso. Apesar de ser aparentemente decepcionante, o desfecho é dos mais realistas e esperançosos: ao final não existe mais certezas, somente incertezas de um futuro a ser construído e querem algo melhor do que viver construindo seu futuro? Ganin se transforma e assim vence suas memórias, conseguindo retomar novamente seus pensamentos rumo ao futuro. Um futuro agora inesperado e por isso mesmo melhor.
Adrian, do Apeirophobia, escreveu um post sensacional descrevendo um dos maiores prazeres de um verdadeiro leitor: comprar livros usados. Leiam lá, é impossível não se identificar de alguma forma.
A não ser que você tenha feito um curso de biblioteconomia, ou seja um bibliotecário daqueles que sabem de cor qualquer ISBN, organizar sua biblioteca causa sempre alguns inconvenientes. As sutilezas deste ato aparentemente comum para qualquer ser humano nem sempre são percebidas. O primeiro inconveniente (e mais óbvio) é a falta de espaço. Uma biblioteca é a prova clara de que dois corpos não ocupam simultaneamente o mesmo espaço. Sendo assim, sobrar livros sem prateleiras é quase um pré-requisito de qualquer biblioteca pessoal. E não se engane tentando colocar seu “Ulisses” à força numa prateleira lotada que não adianta, se não houver um espaço adequado ele ganhará vida e se transformará num gato que evita a bacia d’água. Portanto, o primeiro passo é a escolha roleta-russa: separar quais livros ganharão seu lugar na estante e quais serão confinados ao limbo de caixas ou armários. E não adianta, por mais que você saiba que já leu aquele “Trabalhadores do Mar” e que não pretende lê-lo novamente tão cedo, ele sempre vai te olhar com aquela cara de piedade pedindo para não ser ignorado. Uma tarefa, portanto, que exige um grande desapego e sangue frio.
Findada a primeira etapa, é preciso enquadrar os livros restantes em alguma ordem lógica (’lógica’ = que faça algum sentido pelo menos para você, esqueça as definições da palavra que são dadas pelos dicionários). Se a biblioteca for compartilhada o problema aumenta exponencialmente. Seu pai quer os livros organizados em ordem cronológica a partir da data de aquisição, sua mãe quer que os livros estejam organizados por cor para ‘ficar mais bonitinho’, seu irmão quer todos os livros de ficção científica juntos num lugar de destaque (afinal TODO mundo gosta de Isaac Asimov, não é?) e sua esposa, bem, sua esposa tem uma ordem própria que até hoje ninguém entende mas que deixa o ambiente mais ‘clean’. Daí não existe outra forma senão disputar cada milímetro da estante no palitinho.
Mas, a fim de reduzir a complexidade do problema, trataremos do caso simples: sua estante é realmente só sua e você é quem manda nela. Sendo assim, qual é o melhor critério? O mais comum é ordenar seus livros por sobrenome do autor. O problema poderia ser solucionado assim se não fosse o inconveniente de você duas semanas depois encasquetar de querer logo um livro de Edwin A. Abbott. Todos os seus livros da estante terão que andar para aparecer um lugar, o que aumenta (e muito!) a probabilidade de você deixá-lo lá no balcão da loja, só de pensar no trabalho que isso acarretará. Pois bem, você imagina então que a solução será separar primeiro por literatura dos países e depois ordenar por autor. Daí, literatura húngara, por exemplo, que você lê menos, poderia estar no princípio da estante e as literaturas que você lê mais seriam colocadas no fim, certo? Errado. Esta solução abre espaço para os ‘enchedores de saco’ que freqüentam sua casa fiquem martelando em sua cabeça que Vladimir Nabokov deveria estar entre os americanos e não entre os russos. E os ‘enchedores de saco mor’ nem comentarão, quando você der as costas vai lá a mãozinha trocar os livros de lugar. Fora aqueles desinformados que sempre perguntarão: ‘Que diabo de ordem é essa?!?’.
Depois de tudo isso e você finalmente encontrando o método ideal para organização deste baralho de páginas, eis que vem o inevitável: é preciso mudar de apartamento! Todos os seus livros deverão ser transportados! Quando você menos espera, os responsáveis apanharão seus livros e os colocarão em qualquer caixa, sem qualquer ordem. E aí, no novo apartamento, a discussão sobre como organizar tudo nas estantes começa novamente…