“A população do Brasil lê em média 5,2 horas por semana, o que coloca o país em 27º num ranking de 30 países que é liderado pela Índia.”
Brasileiros Lêem Pouco
Cultura no Brasil
“O Brasil está boiando em pura espuma. Vivemos a futilidade, trivialização do real, é um momento inconsistente. As celebridades não têm profissão, trabalho, esforço, não têm biografia. E o pior é que os jovens acreditam nessas pessoas e deixam de fazer coisas sérias por isso.”
Nélida Piñon, em entrevista à Folha. Leia a entrevista completa aqui.
O Hábito de Ler o Que Não Está Escrito
A capacidade de ler envolve muito mais do que reconhecer os símbolos que estão impressos num papel. Envolve também ter a capacidade de reconhecer referências externas e analisá-las. Não é preciso dizer, portanto, que quanto mais se lê, melhor leitor você se tornará. Isto é tão importante que muitos leitores amam um livro que outros detestam, pelo simples fato de que conseguiram reconhecer certas referências que o escritor utiliza. Às vezes o escritor constrói toda uma história com base em referências que não estão explícitas em sua obra, o que faz com que tenhamos que buscar mais conhecimentos sobre estas referências, se ainda não o temos. O fato de alguns não terem conhecimento destas referências faz com que muitos afirmem que uma obra é ruim, apesar de ser amplamente elogiada. O pior é que às vezes a pessoa que afirma que uma obra é ruim não faz idéia sequer do porquê. Resumem seu ponto de vista, afirmando que a obra é ruim porque não dá para entender nada. Ao contrário do que estes pensam, bons escritores não são elogiados por escreverem de modo a não serem entendidos. Escrevem e provocam algum tipo de reflexão e transformação.
Para exemplificar como é importante reconhecer referências em uma obra, tome por exemplo o livro “O Grande Gatsby” de F. Scott Fitzgerald. Pode-se ler dois livros. O primeiro, sem um conhecimento prévio do que era os EUA nos anos vinte, o período do American Dream, é um livro legalzinho, com personagens bem construídos e uma historinha de amor com começo, meio e fim. O segundo livro é uma obra-prima, que traça um perfil espantoso de uma geração próxima à desintegração, num período de prosperidade material único. Para retratar este período, Fitzgerald mostra, através das ações dos personagens, um povo cínico, ganancioso e cujo principal objetivo é a busca por prazer. A Primeira Guerra Mundial pôs fim a uma série de crenças e a prosperidade americana fez com que a sociedade da época se confrontasse com um desejo de possuir bens dum modo sem precedentes. Junto com isso, podemos citar também que foi uma época de grandes oportunidades para enriquecimento, tornando possível que qualquer um, de qualquer classe econômica, se tornasse milionário do dia para a noite, produzindo assim uma série de contrastes. No livro, a divisão entre East Egg (a sociedade aristocrática estabelecida) e West Egg (os novos ricos) reflete bem estas mudanças e consequentemente o contraste que elas passaram a causar no dia a dia desta sociedade. Fitzgerald, por exemplo, descreve Gatsby, um novo rico, como alguém sem o charme, a classe e a beleza daquela aristocracia tradicional, duma forma até discriminatória. Mas numa avaliação mais profunda, vemos que apesar da beleza e do charme, esta aristocracia é moralmente corrupta, amoral e gananciosa. Os Buchanans exemplificam tudo isso de modo bem claro. Enfim, tais contrastes dão um realce para os defeitos de todos, mostrando que seria até inevitável o declínio.
Quando estudamos história, na maior parte dos casos, lemos à respeito apenas das figuras mais importantes. Ao ler a obra de Fitzgerald, parece que estamos tendo um curso de história inseridos entre as pessoas da época, pessoas de carne e osso como nós, pessoas estas que não têm nada de especial para que no futuro sejam descritas em livros de história. Mas, ao mesmo tempo, compreendemos uma época dum modo que nenhum livro de história é capaz de nos fazer compreender. Percebam que um livro de história é escrito justamente com o objetivo de nos fazer conhecer fatos, mas “O Grande Gatsby” trabalha estes fatos de um modo subjetivo. Assim, ao absorvermos as referências sobre o período, encontramos uma obra que nos faz viver durante um certo período como um membro daquela sociedade. Viajamos no tempo e ao voltar, ganhamos uma nova capacidade de analisar os mesmos fatos que lemos em livros de história. Adquirimos um novo ponto de vista, muito mais amplo e ao fim, percebemos que tivemos o privilégio de ler uma obra-prima.
Enrique Vila-Matas
A Cosac & Naify está se preparando para lançar no dia 04 de julho o livro “O Mal de Montano”, de Enrique Vila-Matas. Segue resenha do site da Livraria Cultura:
“‘O mal de Montano’ celebra a riqueza e a força da literatura. Numa cruzada irônica, Vila-Matas convoca mais uma vez seus autores-ícone, alguns já presentes em ‘Bartleby e companhia’, como Robert Walser, Franz Kafka e Fernando Pessoa. Porém se naquele romance os autores preferiam não escrever mais, o que os reúne em ‘O mal de Montano’ é a obsessão pela literatura e pelo literário, o desejo de ser a “memória da literatura” encarnada. O “mal de Montano” deixa de ser uma enfermidade para tornar-se um antídoto eficaz contra a morte da literatura, uma arma contra os inimigos do literário.”
Já desisti de colocar tudo que quero na minha wishlist. Meu poder de compras é inversamente proporcional ao número de livros que quero.
O Clima da Obra
Algo muito raro hoje em dia é encontrar um livro que, antes de mais nada, seja um livro ‘climático’. Hoje em dia a moda é misturar todos os gêneros que você puder ao escrever e produzir o máximo de sensações possíveis no leitor. Isso, é claro, embora produza um ou outro bom livro, em sua grande maioria, sai uma porcaria. Até mesmo os livros policiais que antigamente possuíam apenas aquele delicioso clima ‘noir’, se tornaram engraçados, chatos, românticos, violentos, repugnantes, etc., tudo ao mesmo tempo. Não gosto dessa obsessão por parecer moderno por misturar todo tipo de sensações numa só história, mas sei que sinto falta daquele livro que possuía um clima o tempo todo e que esse clima fica cada vez melhor a cada página.
Para exemplificar isso que digo, vejam “O Coração das Trevas” de Joseph Conrad. Embora, eu não goste muito dos livros de Conrad que já li, não posso negar que “O Coração das Trevas” é simplesmente o supra-sumo dos livros ‘climáticos’. Marlow é um personagem excelente, Kurtz surpreendente, mas o grande feito de Joseph Conrad foi conseguir construir um clima no livro que supera qualquer personagem. Aliás a importância do clima parece ser maior até que a própria história. O clima todo é sempre único, uma sensação que incomoda e que a cada página incomoda mais e mais até atingir seu clímax nas palavras de Kurtz: “O horror!”. Para quem já leu a obra, é difícil imaginar um livro tão contraditório em sua formulação: se por um lado a história é simples (Marlow é designado para encontrar um maluco no fundão da África), sua estrutura é muito complexa (o foco é sempre o ponto de vista de Marlow sobre Kurtz, dum modo que os dois vão se aproximando até que finalmente se encontram). Pela simplicidade da proposta - o livro concentra-se na maior parte das vezes em apresentar-nos os pensamentos de Marlow em sua viagem pelo rio - seria fácil criar um livro ruim e mais difícil criar um clima próprio, mas não é o caso. O que vemos é sempre um cuidado em pintar um quadro cada vez mais obscuro e exaltar o clima ‘noir’ da obra. Próximo do encontro entre os dois personagens, temos a impressão de estarmos lendo um livro com os olhos embaçados por uma fumaça. Vemos alguns traços e procuramos construir um quadro na mente, completando os espaços vazios com informações hipotéticas. Assim como Marlow, estamos ansiosos em descobrir quem realmente é Kurtz, embora ao final continuemos completando os espaços nós mesmos.
Ao ler “O Coração das Trevas” e perceber o cuidado que o escritor teve para nos fazer sentir incomodados, vejo o porquê de hoje criar um livro com um clima esteja tão fora de moda. Pode-se usar tal mistura como uma maquiagem, ou seja, a mistura de sensações cria uma bela oportunidade para que as deficiências sejam varridas para debaixo do tapete. Afinal, antes mesmo de percebermos o drama, vem logo uma piada que muda o nosso foco e nossa percepção. Assim, é mais fácil atirar para todos os lados sem muito cuidado, do que focar num só ponto e trabalhá-lo, construindo um texto esmerado. E é uma pena, pois esta vontade de criar obras sem qualquer clima faz com que os romances contemporâneos (em sua maioria) sejam tratados como romances leves, enquanto os textos trabalhados com a única finalidade de exaltar um clima, começando de modo gradual até seu clímax, é tachado de chato. Cria-se assim um efeito circular: leitores desacostumados com um texto menos ágil encontram satisfação em leituras ‘desleixadas’ e editoras publicam apenas aquilo que os leitores vão ler. Um mercado como este é um incentivo à criação de obras que seguem uma fórmula que empobrece a literatura.
Contos de Grimm Viram Patrimônio da Humanidade
“O registro “Memória do mundo” da Unesco, criado em 1997, conta com 120 documentos históricos, como os filmes dos irmãos Lumière e as obras do compositor alemão Johannes Brahms.
Ao incluir os 14 contos e dois livros de comentários sobre os mesmos publicados entre os anos de 1812 e 1857, a Unesco se compromete a garantir sua preservação e sua difusão.”
Leia matéria completa aqui.
Rápidas
Por que a pirataria de livros (no formato impresso) é algo raro? A BookStandard investiga o assunto num texto interessante. Via Pedro Doria.
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Alguém sabe o que aconteceu com o Singrando do Reginaldo?
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O Barbão postou duas questões interessantes, que merecem um post maior que agora infelizmente estou sem tempo para escrever: Primeiro, acabou o espaço para literatura experimental? Segundo, é possível escrever num estilo que se aproveitasse do excelente meio que é a internet, criando assim um novo estilo?
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Somente eu que se incomodou com o fato da nova tradução de “Ulisses” da Objetiva ser baseada na edição de Gabler?
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Para fechar, o Nelson escreveu um “Samba-enredo em homenagem ao Bloomsday”.
David Foster Wallace For Dummies
O caso é o seguinte, encontrei este texto do Adrian Leverkuhn sobre “Infinite Jest”, de David Foster Wallace e imediatamente comprei o livro. O texto é simplesmente fantástico e o livro está valendo muito a pena. Obrigado Adrian e quando eu crescer, quero escrever deste jeito. O texto já tem algum tempo, mas se você, assim como eu até bem pouco tempo atrás, ainda não sabe do que se trata leia, leia, leia.
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Oh, como eu gosto da Internet!
Sim
O grande romance moderno “Ulisses” termina com maravilhos ’sims’. De fato, o ’sim’ tem um poder espantoso. Ao propor o Bloom-Blogsday, obviamente imaginava um grande número de ’sims’ em resposta à minha sugestão. Fui positivamente surpreendido (digamos que foi um sim²) pois pipocaram links de todos os lados e o número de visitantes foi recorde. Obrigado a todos vocês leitores e blogueiros que fizeram deste Bloomsday, um Bloomsday inesquecível.
02:00
Molly está agora, meio dormindo, meio acordada, em seu monólogo. Seus pensamentos prosseguem, ela reflete sobre uma série de eventos do passado, até que finalmente se lembra da primeira vez que fez amor com Leopold Bloom. Sim. É o fim do romance.
Correspondências:
referência homérica - Penélope
Trecho da obra
Molly Bloom:
yes when I put the rose in my hair like the
Andalusian girls used or shall I wear a red yes and how he kissed me
under the Moorish wall and I thought well as well him as another and then
I asked him with my eyes to ask again yes and then he asked me would I
yes to say yes my mountain flower and first I put my arms around him yes
and drew him down to me so he could feel my breasts all perfume yes and
his heart was going like mad and yes I said yes I will Yes.






















