“A Academia Brasileira de Letras (ABL) comemora nesta quarta-feira 108 anos de fundação. Durante a solenidade vários escritores serão homenageados, entre eles, o poeta e crítico Ferreira Gullar, que receberá o prêmio Machado de Assis pelo conjunto de toda a sua obra.”
Via Folha.
“Seguindo a sugestão do crítico literário Antonio Candido, feita num artigo sobre o amigo Décio de Almeida Prado, Piza exercita a memória e traça no livro a história de sua experiência afetiva com as obras que marcaram momentos de sua vida. Constrói, enfim, uma “história íntima” de sua estante, reunindo no livro quatro autores: o norte-americano Edgar Allan Poe, o brasileiro Machado de Assis, o polonês naturalizado britânico Joseph Conrad e o tcheco Franz Kafka.”
Mais um livro sobre a paixão aos livros. Notícia do Estadão.
Agora está confirmado. De 11 a 21 de agosto de 2005, na Serraria Souza Pinto, em Belo Horizonte, acontecerá o 6º Salão do Livro de Minas Gerais & Encontro de Literatura. Neste ano haverá homenagens ao escritor Fernando Sabino com uma série de bate-papos literários (num pavilhão chamado Encontro Marcado). Também haverá uma programação especial na tenda “Salãozinho do Livro”, onde ocorrerão sessões de narração de histórias para crianças, com destaque especial para as histórias do escritor Hans Christian Andersen. Mas a grande atração, sem dúvida, será a mesa sobre blogs, que acontecerá no dia 12 de agosto, às 19:30 hs, com a participação de Idelber Avelar, Alexandre Inagaki e a Fal, com direito a podcasting e conexão à internet. Futuramente o site trará a programação completa. Anote o endereço aí: http://www.salaodolivro.com.br
Assim como o Inagaki, acredito que a escritora Nélida Piñon é a candidata brasileira mais qualificada para ganhar o prêmio. Apesar de o seu trabalho ser praticamente desconhecido para a maioria dos leitores, ouso afirmar que ela é a maior escritora brasileira viva. Não lhe faltam méritos para tal afirmação. Nélida é dona de uma bibliografia invejável, cujo trabalho valoriza a linguagem e renova a forma do romance brasileiro. Certos trechos de seus livros merecem serem lidos em voz alta, pois possuem um ritmo e um vocabulário que se assemelham à poesia. Também, a escritora possui um currículo de dar inveja a qualquer bom autor: Nélida foi eleita para ocupar a cadeira número 30 da Academia Brasileira de Letras em 1990, sendo a primeira mulher a presidir a instituição a partir de 1996. Seus livros conquistaram prêmios importantes como o Juan Rulfo de Literatura Latino-Americana, a Lazo de Dama de Isabel la Católica, outorgada pelo rei Juan Carlos da Espanha e neste ano o Príncipe Astúrias de Letras, desbancando nomes importantes como Paul Auster, Philip Roth e Amos Oz. Dentre os livros da escritora, destaco especialmente “Fundador“, um dos melhores romances brasileiros.
“Fundador” é destes livros que quando se inicia a leitura, não há como parar. Todos os elementos da boa literatura estão contidos na obra e são trabalhados de uma forma surpreendente. O livro fala dos sonhos dos homens, colocando como pano de fundo a conquista da América pelos europeus. Para falar de sonhos e conquistas, Nélida Piñon utiliza elementos fantásticos de linguagem, transformando fatos em narrativas heróicas, contos de fadas adultos. Esta ‘transformação’ é que faz com que trechos em prosa, se tornem quase poesia, tornando a leitura em voz alta quase uma obrigatoriedade. Veja, lendo o trecho abaixo, se isto não é verdade:
“O que Fundador lhes propunha, apreciariam se ficassem. Uma construção! Reino no céu, ou sua imitação, na própria terra. E não queria cidade apenas para dominar. Exclamava, na solidão do seu quarto: raros homens destinam-se a uma cidade, sem que consultem para isso outras criaturas: a fundação de uma cidade é anterior à religião, depende de fé que religião não assume, e ainda de homens, animais, e a libertação da mata.”
Além da linguagem, a forma como a história é contada representa outro ponto fundamental da obra. Várias narrativas são mescladas, diversas períodos são misturados e um grande número de personagens se alternam durante o romance. O tempo anda em círculos e ora estamos no passado visitando personagens que lutam pela conquista de uma terra prometida por mapas e sonhos, ora estamos no presente encarando a revolta de personagens frente às desigualdades sociais existentes, que sonham por um mundo mais justo. Com o avançar das páginas, vamos desvendando que caminhos ligam os personagens do passado com os do presente, tal qual o mapa que indica a rota até a terra sonhada.
Por último, os personagens são marcantes, cheios de vida, com uma força espantosa. Fundador, o personagem sem nome que quer realizar seu sonho de construir uma cidade, sob certos aspectos se parece com a personagem Ana Terra, de Erico Verissimo. Teodorico de Antioquia, é um personagem misterioso e dono da incrível capacidade de desenhar mapas de terras muitas vezes inexploradas, e a comparação que faço é com o personagem Melquíades, da obra “Cem Anos de Solidão” de Gabriel Garcia Márquez. Mas, a bela amizade de Ptolomeu e Joe é uma das mais diferentes e comoventes da literatura. De um lado um velho paciente, de outro um jovem impetuoso e hostil a qualquer demonstração visível de carinho. As páginas 120 até 122, intercalam um diálogo duro entre os dois, mas com pensamentos ternos, ligando-os. Impossível não distinguir a beleza literária que Nélida consegue extrair de personalidades tão distintas e ao mesmo tempo tão próximas.
“Fundador” é apenas uma das grandes obras da escritora, que possui em seu currículo ainda outras obras que chamam atenção de críticos e leitores, como “Guia Mapa de Gabriel Arcanjo” e “A Casa da Paixão“. Por tudo isso, votaria em Nélida Piñon como a brasileira mais próxima de ganhar o Nobel de Literatura, aparentemente a última grande homenagem a esta escritora de enorme talento. Não premiá-la com o Nobel de Literatura será uma surpresa (para não usar a palavra ‘injustiça’). Quem ainda não conhece seu trabalho, recomendo começar a conhecê-lo o quanto antes. Possivelmente não se arrependerá e ainda passará por aqui para me agradecer pela dica.
O MyBlogLog dedou, não adianta. Quase ninguém clicou no link para meu texto no Burburinho. Como eu sou um chato insistente, posto ele aqui também. Erico Verissimo, o escritor que venceu o tempo, merece. Eis o texto abaixo:
Erico Verissimo
Desde há muito tempo, a humanidade anseia a longevidade. De antigos imperadores chineses, buscando a fórmula mágica da imortalidade através de elixires, até os atuais tratamentos estéticos avançados, o que se percebe é uma tentativa constante de controlar o tempo, prolongando-o. Com o domínio da palavra, o ser humano conseguiu uma arma poderosa para fugir dessa prisão. Apesar disso, podemos dizer que nem todos os que a utilizaram foram bem sucedidos e suas palavras desapareceram pelo efeito do tempo. No entanto, alguns grandes escritores conseguiram usar belamente suas palavras, extraindo mais vida do dia a dia, como se o tempo fosse apenas uma massa de modelar. Com certeza, entre estes poucos privilegiados podemos incluir o escritor Erico Verissimo. Suas obras estão disponíveis para provar isso.
Antes de citar sua obra-prima que trata justamente do tempo, é necessário analisar sua estratégia de subjugar o tempo em suas memórias - Solo de Clarineta, volumes 1 e 2. Embora a memória nem sempre seja fidedigna - afinal, ela maximiza nossas alegrias ao passo que dilui muitas de nossas decepções - ela exige reflexão e cuidado para ser apresentada, tornando o escritor um verdadeiro artesão do tempo. Se alguns poucos minutos são importantes, como o relato onde Sebastião Veríssimo se despede do futuro escritor na estação ferroviária de Porto Alegre, estes são então prolongados e descritos em minúcias, ampliados, tornando-se assim mais significativos. Ao ler o relato em suas memórias quase que podemos ver o rosto desiludido do tempo percebendo sua derrota, observando que palavras tão bem escritas simplesmente continuarão ecoando na memória de muitos e se estenderão, tornando-se momentos significativos e não apenas meros minutos.
Daí, ao examinar a obra O Tempo e o Vento, podemos afirmar que a vitória foi arrasadora. Erico Verissimo já não mais tenta dominar um tempo próprio, que ele mesmo viveu, mas passa a dominar o tempo de outras gerações. Estas gerações, embora afastadas do próprio escritor pelo tempo, também fazem parte de sua história, pois foram pessoas destas gerações que construíram o sul do país e conseqüentemente Cruz Alta, cidade onde nasceu. Erico criou personagens que deram voz a estas pessoas, causando o efeito inverso do tempo, ou seja, aproximando-as de nós. Ana Terra, Capitão Rodrigo, Licurgo Cambará, Bibiana, Luzia, José Lírio, Fandango, Dr. Rodrigo, Flora, Sílvia, Floriano, personagens que embora façam parte da ficção, parecem ser reais em nossa imaginação, como se estivessem presentes nos fatos históricos do Rio Grande. Através da leitura, portanto, dos três volumes da obra, somos conduzidos pelo escritor a uma viagem no tempo, que começa nas missões jesuítas, em 1745, e nunca se encerra, já que no final do último tomo Floriano começa a escrever a história de sua família, exatamente a mesma primeira linha que foi escrita no primeiro tomo da obra. Mas Erico Verissimo fez ainda mais: satirizou este eterno inimigo ao escrever Incidente em Antares, considerado por alguns como o quarto volume da obra. Lá, ele escreve sobre mortos que se recusam a ocupar seu lugar no esquecimento e de modo bem engraçado, infernizam a vida dos vivos.
Erico Verissimo nasceu em 1905 e, embora falecido em 1975, sua vida ainda continua presente através de seus maravilhosos livros. Traduzido para vários idiomas, é considerado um dos maiores escritores da língua portuguesa do século XX. Seu filho, Luis Fernando Verissimo, classificou-o apropriadamente como um “escritor de vanguarda”, que apesar de seu vasto conhecimento da literatura, preferiu ser simplesmente um contador de histórias - segundo sua própria definição -, acessível à grande maioria dos leitores. Por ocasião de seu centenário, temos a oportunidade de legitimar a ampla vitória deste escritor sobre o inimigo implacável que é o tempo, ao apanhar um de seus livros na estante e nos deleitar com suas palavras. Um deleite, aliás, inigualável.
“Enquanto Orwell projetava um mundo no qual os regimes totalitários controlavam absolutamente tudo, seus passos eram seguidos de perto pela polícia metropolitana de Londres, informa nesta segunda-feira o jornal “The Guardian”.”
A arte imita a vida ou a vida imita a arte? Via Folha.
Se pudesse escolher algum brasileiro para receber o Prêmio Nobel de Literatura, quem escolheria?
Antes de responder, lembre-se que o prêmio só pode ser dado para escritores de literatura, que já tenham uma carreira bem estabelecida (portanto exclui-se escritores novos) e que estejam vivos.
“O livro de Capote foi um dos fundadores de um novo jornalismo, o jornalismo literário, que se aproxima do seu personagem para transmitir ao leitor o que sente e pensa. No caso de A Sangue Frio, Capote obteve uma aproximação que parecia até uma amizade com os assassinos e não teve dúvidas em manipulá-los, sobretudo a um deles, Perry Smith, ou seja, não titubeou em contar mentiras para obter a verdade.”
Leia notícia completa do Estadão clicando aqui.
“Creio que escrevi Bartleby e companhia com uma certa inconsciência, pois na própria entrevista coletiva de lançamento do livro, organizada por minha editora espanhola, me dei conta de que tinha caído em minha própria armadilha e que talvez nunca mais voltasse a escrever. Foi quando uma jornalista me fez uma pergunta de última hora, uma pergunta de resto tão habitual: “O que está escrevendo no momento? Qual será o seu próximo livro?”. Senti-me de imediato um Bartleby, pois aquilo me fez perceber que não estava trabalhando em nenhum livro novo. Cheguei a enrubescer. Nos dias seguintes busquei uma solução para aquele beco sem saída e fui dar no outro extremo dos “bartlebys” (escritores que deixam de escrever). Comecei a planejar um romance no qual o narrador sofresse dessa doença da literatura e, entre outras coisas, quisesse (e necessitasse) escrever o tempo todo. Para minha grande surpresa apareceu-me Montano. Você sabe que, para alguns, aparece a Virgem. No meu caso apareceu-me esse louco do Montano. É o livro mais livre de todos os que escrevi até agora. É uma fonte de ódio absoluto para meus inimigos, e de prazer para os meus admiradores.”
Entrevista de Enrique Vila-Matas para o Jornal do Brasil. Leia a entrevista completa aqui.
Pouca gente se deu conta do que realmente aconteceu por ocasião do lançamento mundial do romance “Shalimar, o Equilibrista”, de Salman Rushdie na FLIP em Parati. Os jornais, pelo menos as notícias que li, simplesmente se referiram ao lançamento como ocorrendo antes do lançamento nos Estados Unidos. Mas o fato do livro ter sido lançado mundialmente aqui revela uma mudança muito grande no comportamento das editoras brasileiras e aponta para uma evolução e um amadurecimento deste mercado.
Se voltarmos no tempo, em 1988, quando o escritor ficou famoso por causa da obra “Versos Satânicos”, que levou-o à condenação à pena de morte pelo aiatolá Khomeini, encontraremos outro cenário: o mundo inteiro queria traduzir e vender a obra que tanto furor causou ao aiatolá. A divulgação da obra pelo mundo inteiro ocorreu rapidamente, o livro se tornou um best-seller, mas no Brasil… bem, o Brasil foi um caso à parte. Os leitores brasileiros somente conseguiram ler a tradução da obra dez anos depois, cujo lançamento foi feito pela editora Companhia das Letras. A situação é semelhante a dona de casa que encontra-se com suas amigas de manhã e não consegue dar nenhuma opinião sobre o capítulo da novela, que ela não viu na noite passada. Tanto foi assim, que quando foi lançado aqui no Brasil, a obra não causou nenhum impacto. Chegou aqui com cheiro de jornal de ontem, cujas notícias não interessam.
De um tempo para cá, porém, alguns sinais inequívocos de vitalidade tem sido apresentados pelo mercado editorial. O exemplo mais recente foi o lançamento de “Memória de Minhas Putas Tristes”, de Gabriel Garcia Marquez. A obra entrou para a lista dos livros mais vendidos, antes de ser traduzida. Os leitores simplesmente passaram por cima das regras de mercado e não quiseram esperar: compraram e leram o livro. O lançamento mundial de “Shalimar, o Equilibrista”, portanto, longe de ser somente uma notícia de jornal, parece mostrar que as grandes editoras encaram o futuro do seu negócio com otimismo. Querem investir e esperam um bom retorno deste investimento, óbvio. A diferença agora é que, apesar do choro comum de que o ‘mercado está em crise’, as editoras começam a dar sinais de que investir em livros no Brasil pode dar um bom lucro.
Se o mercado não é o que esperamos - devido a problemas que às vezes nada tem haver com as editoras ou os distribuidores - este evento aponta para uma perspectiva no mínimo otimista. Se as mudanças continuarem, certamente todos vão ganhar com isso: as editoras que poderão ampliar seu mercado e os leitores que encontrarão boas surpresas nas prateleiras das livrarias. É esperar e torcer, Mr. Jones.