Em outubro de 1985, quando a Academia Sueca concedeu o Prêmio Nobel de Literatura a Claude Simon, boa parte das pessoas ao redor do mundo se perguntava: “Mas, afinal, quem é Claude Simon?”. É possível que hoje, duas décadas depois do anúncio, ainda um grande número de leitores se faça a mesma pergunta. Grande parte da responsabilidade é do próprio autor e a outra grande parcela fica por conta das editoras brasileiras. Embora editado por aqui em 1986 pela editora “Nova Fronteira”, já faz algum tempo que sua obra-prima, o romance “A Estrada de Flandres” se encontra esgotado. Uma prova de que o prêmio, que muitos afirmam servir para distinção no mundo literário, não ajuda tanto assim a chamar atenção às obras de um escritor. Sua morte recente passou praticamente despercebida, anunciada nos principais jornais do Brasil apenas numa notinha entre tantas que passam pelos nossos olhos sem nos determos.
Claude Simon, um mestre dentre os ficcionistas franceses surgidos a partir de 1955, soube tirar proveito de algo que geralmente afasta os leitores: o tédio. Por isso, pode-se dizer que é também sua a responsabilidade pelo desconhecimento de suas obras. Um leitor curioso que porventura apanhasse um livro de Simon da prateleira de uma livraria poderia se assustar com parágrafos de quinze páginas ou mais. O leitor mais atento já percebeu que muitas vezes, onde existem páginas inteiras cobertas de letras, existe também um tédio descritivo muito grande. Daí, ao invés de se arriscar, procura outro livro. O que a maior parte desses leitores ainda não descobriu é que isso pode sim ser algo bom.
Simon, como poucos, fez da experimentação uma massa de modelar, que ia tornando do formato que desejava. O livro “A Estrada de Flandres” conta a respeito de um oficial francês derrotado numa batalha em 1940, que vai conduzindo sua tropa pela estrada de Flandres até ser morto por um atirador alemão. Simon, na obra, faz questão de jogar fora uma das principais peças de um grande romance, o tempo, e procura nos contar a história como uma sucessão de eventos sobrepostos, desfazendo assim as noções de passado, presente e futuro. Se você imagina que o romance é complexo, acertou. Mas, boa parte dos livros que apreciamos, nos conquistaram exatamente por serem construídos por uma teia complexa de inventividade, não é?
Quanto ao tédio dos parágrafos longos, bom, imagine o seguinte: a história de um oficial derrotado, que viu grandes atrocidades ao seu redor, abandonado em um lugar qualquer, de forma indiferente por seus superiores, poderia gerar que tipo de sensações? Simon usa sua fórmula de romance para se concentrar em transmitir aquele clima que vive o personagem, mais do que os fatos lineares de sua história. O escritor usa a literatura para explorar toda dor e todo sofrimento por trás da guerra e faz isso perfeitamente, consolidando sua imagem de grande ficcionista. Então, antes de se afastar das torres de letras escritas por Simon, lembre-se de que, como na guerra, grandes torres foram feitas para serem conquistadas.





















Não conhecia o autor nem o livro. Tua descrição saborosa acendeu o desejo de lê-lo. O tema do homem diante da guerra é algo que me encanta.
Bela pedida. E, não canso de dizer: magnífico post.
Cara e o Nobel de literatura que saiu hoje?
Vai se enquadrar nessa história aí?
Esquisitíssimo.
Oi, Leandro, passei por aqui para ver se havia algo sobre o Harold Pinter….
Fiquei imaginando se você ia gostar da escolha. Pela primeira vez em muitos anos o prêmio foi a dado a um autor que realmente me entusiasma. Grande abraço de Santiago do Chile,
Pelas análises que andei lendo o Harold Pinter é um grande dramaturgo e marcou suas últimas aparições com forte conteúdo político.
Segundo o texto da Folha
Pinter andou chamando Tony Blair de “poodle perigoso” e clamou por seu impeachment em 2004, definiu os EUA como “império criminoso do mal” … e não se pode deixar de pensar que o recrudescimento político de Pinter tenha influenciado na escolha para o Nobel, como avaliaram diversos especialistas. O prêmio, aliás, nos últimos anos tem mostrado mais suas preferências, talvez definíveis, nesse campo do pensamento, como “anti-americanas”.
Não me espanto do Idelber conhecê-lo. Mas todas as vezes que um dramaturgo foi premiado passou-me um certo ar de anti-clímax.
Abç.
Amigos do Odisséia: há uma excelente entrevista com Pinter aqui. Sua obra mais marcante é The Dumb Waiter, de 1957.
Obrigado pelo link Idelber, vou lá conferir