
“O antinarciso”, de Mário Sabino (Record)

“Cachorros do céu”, de Wilson Bueno (Planeta)

“Cinzas do Norte”, de Miltom Hatoum (Companhia das Letras)

“Duas praças”, de Ricardo Lísias (Editora Globo)

“A história dos ossos”, de Alberto Martins (Editora 34)

“Margem de manobra”, de Cláudia Roquette Pinto (Aeroplano)

“O mundo inimigo”, de Luiz Ruffato (Record)

“Parte alguma”, de Nelson Ascher (Companhia das Letras)

“Quase uma arte”, de Paula Glenadel (Cosac Naify)
“A vida agarrada”, de Claudia Ahimsa (edição da autora)
A escolha dos três vencedores está marcada para o próximo dia 20 de novembro. Notícia da Folha.
“O escritor egípcio e Prêmio Nobel de Literatura Naguib Mahfuz morreu hoje num hospital do Egito, aos 95 anos de idade, informou a agência “Mena”.”
Notícia do Uol.
A Bíblia é um grande livro, que todos deveriam ler por uma série de motivos. Se você for religioso, deve saber que grande parte dos religiosos de nosso país se dizem cristãos e, se afirmam isso, pressupõe-se que tenham a Bíblia como guia principal de suas crenças religiosas. Se você se interessa pela história de nossa civilização, deve saber que a Bíblia é o livro que mais influenciou o Ocidente e que seu domínio e influência servem para justificar uma série de costumes atuais, não necessariamente religiosos. Se você simplesmente gosta de boas histórias e boa literatura, existe ali uma série delas, que satisfazem aos mais variados leitores.
A Bíblia, no entanto, é lida mais freqüentemente apenas através de traduções, já que a maioria dos brasileiros desconhece idiomas tais como o hebraico, o aramaico e o grego. Com uma boa tradução isso não necessariamente pode representar um grande problema – embora claro, como toda tradução, o acesso ao texto se torne apenas uma aproximação e alguns detalhes podem ser perdidos. Mas, tratando-se de um texto base para um número tão grande de religiosos, fica a dúvida se os dogmas e pensamentos destes – que são exteriores ao texto original – influenciam as decisões do tradutor. Infelizmente, o que se nota na maioria das vezes, é um esforço do tradutor em fazer com que idéias que se desenvolveram em períodos posteriores ao da escrita original, sejam sugeridas na tradução. Pior, em alguns casos, usam notas explicativas para assinalar uma idéia que não está no texto. Um recurso que confunde o leitor que não compartilha da mesma idéia.
Uma das traduções em português mais elogiadas, a “Bíblia de Jerusalém”, foi realizada, segundo consta na apresentação da nova edição, revista e ampliada de 2002, “por uma equipe de exegetas católicos e protestantes”, ou seja, um grupo de tradutores com pensamentos e conceitos religiosos que poderiam direcionar a tradução para algum aspecto que não se encontra no texto original. Também, a contracapa da tradução nos informa que a edição tem “aprovação eclesiástica” e cita uma carta protocolar da CNBB. É difícil imaginar que o texto possa ser tão bem recepcionado pelos religiosos sem nenhuma influência.
Pode-se citar, como exemplo claro disso, o conceito da imortalidade da alma, que é ensinado pela maioria dos religiosos que se afirmam cristãos. A palavra traduzida em português como alma, é ‘nefesh’ em hebraico e ‘psyché’ (ou ‘psyké’) em grego. Segundo o dogma religioso, todo ser humano possui uma alma separada do corpo, imaterial e imortal. Essa idéia não está contida no texto original da Bíblia, mas sim, conforme a própria “Bíblia de Jerusalém” informa na nota sobre o texto da segunda carta aos Coríntios capítulo 5 versículo 8, “essa expectativa de felicidade da alma separada do corpo deve-se a uma influência do pensamento grego”. De fato, a idéia é bastante explorada por Platão, no “Fédon”. Um conceito, portanto, posterior ao texto bíblico. Mas apesar de reconhecer isso, o que os tradutores fazem em todo o texto é omitir a palavra ‘alma’ quando há a idéia de mortalidade, substituindo-a por uma série de termos incorretos, e deixando-a sempre onde a idéia de imortalidade pode ser sugerida.
A começar pelo Gênesis, por exemplo, a tradução do texto do capítulo 2, versículo 7, diz:
“Então Iahweh Deus modelou o homem com a argila do solo, insuflou em suas narinas um hálito de vida e o homem se tornou um ser vivente.”
Apesar da nota ao pé da página reconhecer a palavra ‘nefesh’ no texto hebraico original, o termo é traduzido como ’ser vivente’ e não como ‘alma vivente’. Por quê? Provavelmente porque o uso da palavra ‘alma’ acarretaria reconhecer que o texto afirma que Deus não fez uma criatura que possuía uma alma imaterial, mas diz que a própria criatura era uma alma.
Outro exemplo onde ocorre a palavra hebraica é no livro de Ezequiel, capítulo 18, versículo 4, que é traduzido:
“Todas as vidas (nefashohth) me pertencem, tanto a vida do pai, como a do filho. Pois bem, aquele (nefesh) que pecar, esse morrerá.”
Embora neste texto o termo apareça duas vezes e, sem dúvida, está ligado à idéia de mortalidade, a tradução é feita dum modo que o leitor não conseguisse chegar a essa mesma idéia. Neste caso a tradução não usa sequer uma nota para esclarecer ao leitor que a palavra hebraica foi traduzida dum modo diferente.
A incongruência da tradução do termo fica evidente quando há no texto grego citações do texto hebraico. Veja a tradução do livro de Atos, capítulo 2, versículo 27:
“porque não abandonarás minha alma no Hades…”
Este texto é uma citação do Salmo 16, versículo 10, que na mesma tradução diz:
“pois não abandonarás minha vida no Xeol…”
Por que os textos não são traduzidos da mesma forma? Provavelmente porque no livro de Atos a idéia de imortalidade pode ser sugerida, mas não no texto do Salmo. Daí, como forma de corroborar a tradução influenciada, o leitor encontra na nota do texto da primeira carta aos Coríntios, capítulo 15, versículo 44, a informação de que o termo grego psyché “pode designar… até mesmo o ser espiritual e imortal” e cita como ‘comprovação’ disso justamente o texto de Atos transcrito acima.
Evidentemente, toda religião tem o direito de ditar e divulgar seus dogmas e o fiel pode acreditar ou não nestes. A crítica aqui não é feita à religião ou ao dogma, mas sim às opções utilizadas pelos tradutores em adequar o texto original às suas próprias crenças. Não é papel do tradutor interpretar qualquer texto e sim torná-lo o mais fiel possível ao original. No caso citado, qualquer tradutor com algum conhecimento do texto original bíblico concordará que em nenhum trecho deste existe a expressão “alma imortal”, embora a palavra “alma” apareça centenas de vezes.
Para que o leitor tenha uma idéia mais clara do texto, a recomendação é que procurem ter acesso ao maior número de traduções possível. Compare-as, assinalando as diferenças existentes e procurando esclarecer o porquê de tais diferenças. Traduções clássicas, como a “King James” em inglês, também ajudam. Quanto às notas religiosas, é preciso sempre um cuidado especial. A dúvida sempre serve como método de esclarecimento.
O que mais me chamou atenção no Salão do Livro foi realmente perceber que a literatura argentina ainda é bastante desconhecida por aqui (ainda falarei mais sobre o assunto neste blog). Conforme disse no post anterior, a primeira palestra do Martín Kohan estava vazia, apesar do escritor ser ótimo e de provar isso lá. Pois bem, voltei no dia seguinte onde Kohan estaria na mesa-redonda junto com Paloma Vidal. Antes, porém, fui ouvir João Gilberto Noll falar de sua obra, um escritor que não gosto muito, mas que é bastante elogiado pela crítica.
Pois bem, Noll falava sobre sua literatura, que possui algo chamado de “movimento bipolar forte”, onde a “ausência é tão importante quanto o que se apresenta” e, a certa altura, o entrevistador perguntou sobre como ele lidava com as críticas positivas, se estas serviriam para aplainar sua radicalidade. Bem, pensei, por que não falar das críticas negativas, que é algo muito mais interessante? Não resisti e depois da palestra perguntei ao autor. Apesar de dizer que realmente não liga, lembrei-lhe dum caso sobre uma crítica bastante negativa do livro “Lorde”. A explicação dada é que ele voltava de Londres, passava um momento difícil e por isso reagiu realmente de modo muito forte, mas que não se devia a crítica em si, mas ao momento. Ok. Noll falou ainda sobre seu novo livro de contos, que se chamará segundo ele “A Máquina de Ser”. Falou do seu propósito de escrever uma tetralogia (que segundo ele tem como primeira obra o já lançado “Berkeley em Belaggio“).
De lá até a mesa, foi uma história que merece um livro. Imaginando que haveria apenas algumas pessoas, qual não foi minha surpresa ao observar um número absurdo de pessoas tentando um lugar no evento. O tema da mesa era “A criação literária no período da repressão política”. Paloma Vidal começou lendo um texto, onde falava sobre o Colectivo de Acciones De Arte (CADA), um grupo artístico que procurou levar a arte aos espaços públicos, e a escritora Diamela Eltit. Depois Martin Kohan falou de suas experiências com a ditadura na Argentina. Falou de três períodos: o primeiro da ditadura em si (1976 a 1983), o segundo, o período imediatamente posterior, onde os textos literários explicitamente procuravam confrontar a ditadura, e o último, o período mais recente, quando a ficção quer apenas sugerir o período da ditadura, realçando assim o clima misto de paranóia e torpeza existente então.
Conforme disse no início, pude perceber que a literatura argentina é praticamente desconhecida por aqui. No fim da mesa, a maioria das perguntas foi dirigida ao escritor argentino, mas tratando apenas dos aspectos da repressão da ditadura, não da literatura em si. Uma pena, pois ambas as apresentações poderiam ter gerado discussões excelentes sobre literatura. Após a mesa, pude conversar brevemente com a Paloma sobre a literatura chilena contemporânea, o movimento McOndo que procura desfazer o estereótipo de que América do Sul é sinônimo de realismo fantástico.
A revista “Bravo!” publicou em seu site a lista que a revista considera como “100 livros essenciais” da literatura brasileira. São as obras abaixo:
1. MEMÓRIAS PÓSTUMAS DE BRÁS CUBAS, Machado de Assis
2. DOM CASMURRO, Machado de Assis
3. VIDAS SECAS, Graciliano Ramos
4. OS SERTÕES, Euclides da Cunha
5. GRANDE SERTÃO: VEREDAS, Guimarães Rosa
6. A ROSA DO POVO, Carlos Drummond de Andrade
7. LIBERTINAGEM, Manuel Bandeira
8. LAVOURA ARCAICA, Raduan Nassar
9. A PAIXÃO SEGUNDO G.H., Clarice Lispector
10. MACUNAÍMA — O HERÓI SEM NENHUM CARÁTER, Mário de Andrade
11. LIRA DOS VINTE ANOS, Álvares de Azevedo
12. O TEMPO E O VENTO, Erico Verissimo
13. MORTE E VIDA SEVERINA, João Cabral de Melo Neto
14. VESTIDO DE NOIVA, Nelson Rodrigues
15. SERAFIM PONTE GRANDE, Oswald de Andrade
16. CRÔNICA DA CASA ASSASSINADA, Lúcio Cardoso
17. OS ESCRAVOS, Castro Alves
18. O GUARANI, José de Alencar
19. ROMANCEIRO DA INCONFIDÊNCIA, Cecília Meireles
20. TRISTE FIM DE POLICARPO QUARESMA, Lima Barreto
21. SÃO BERNARDO, Graciliano Ramos
22. LAÇOS DE FAMÍLIA, Clarice Lispector
23. SERMÕES, Padre Vieira
24. AS MENINAS, Lygia Fagundes Telles
25. SAGARANA, Guimarães Rosa
26. NOVA ANTOLOGIA POÉTICA, Mário Quintana
27. NAVALHA NA CARNE, Plínio Marcos
28. A OBSCENA SENHORA D, Hilda Hilst
29. NOVA ANTOLOGIA POÉTICA, Vinícius de Moraes
30. BRÁS, BEXIGA E BARRA FUNDA, Antônio de Alcântara Machado
31. PAULICÉIA DESVAIRADA, Mário de Andrade
32. I-JUCA PIRAMA, Gonçalves Dias
33. BAÚ DE OSSOS, Pedro Nava
34. A VIDA COMO ELA É, Nelson Rodrigues
35. A ALMA ENCANTADORA DAS RUAS, João do Rio
36. ESTRELA DA MANHÃ, Manuel Bandeira
37. OBRA POÉTICA, Gregório de Matos
38. GABRIELA, CRAVO E CANELA, Jorge Amado
39. MARÍLIA DE DIRCEU, Tomás Antônio Gonzaga
40. CLARO ENIGMA, Carlos Drummond de Andrade
41. MAR ABSOLUTO, Cecília Meireles
42. MALAGUETA, PERUS E BACANAÇO, João Antônio
43. O PAGADOR DE PROMESSAS, Dias Gomes
44. NOITE NA TAVERNA, Álvares de Azevedo
45. ROMANCE D’A PEDRA DO REINO E O PRÍNCIPE DO SANGUE DO VAI-E-VOLTA, Ariano Suassuna
46. BAGAGEM, Adélia Prado
47. VIVA O POVO BRASILEIRO, João Ubaldo Ribeiro
48. MEMÓRIAS DE UM SARGENTO DE MILÍCIAS, Manuel Antônio de Almeida
49. CARTAS CHILENAS, Tomás Antônio Gonzaga
50. CANAÃ, Graça Aranha
51. MEMÓRIAS SENTIMENTAIS DE JOÃO MIRAMAR, Oswald de Andrade
52. A COLEIRA DO CÃO, Rubem Fonseca
53. ESPUMAS FLUTUANTES, Castro Alves
54. UM COPO DE CÓLERA, Raduan Nassar
55. A ESTRELA SOBE, Marques Rebelo
56. POEMA SUJO, Ferreira Gullar
57. LUCÍOLA, José de Alencar
58. O ATENEU, Raul Pompéia
59. FOGO MORTO, José Lins do Rego
60. O QUINZE, Rachel de Queiroz
61. SEMINÁRIO DOS RATOS, Lygia Fagundes Telles
62. INVENÇÃO DE ORFEU, Jorge de Lima
63. TERRAS DO SEM FIM, Jorge Amado
64. BROQUÉIS, Cruz e Souza
65. O ENCONTRO MARCADO, Fernando Sabino
66. A MORENINHA, Joaquim Manuel de Macedo
67. MORANGOS MOFADOS, Caio Fernando Abreu
68. O EX-MÁGICO, Murilo Rubião
69. O PICAPAU AMARELO, Monteiro Lobato
70. AS METAMORFOSES, Murilo Mendes
71. HARMADA, João Gilberto Noll
72. ÓPERA DOS MORTOS, Autran Dourado
73. O CORTIÇO, Aluísio Azevedo
74. A ESCRAVA ISAURA, Bernardo Guimarães
75. 200 CRÔNICAS ESCOLHIDAS, Rubem Braga
76. O VAMPIRO DE CURITIBA, Dalton Trevisan
77. O CORONEL E O LOBISOMEM, José Cândido de Carvalho
78. OS RATOS, Dyonélio Machado
79. O ANALISTA DE BAGÉ, Luis Fernando Verissimo
80. FEBEAPÁ, Stanislaw Ponte Preta
81. O HOMEM E SUA HORA, Mário Faustino
82. CATATAU, Paulo Leminski
83. OS CAVALINHOS DE PLATIPLANTO, José J. Veiga
84. AVALOVARA, Osman Lins
85. EU, Augusto dos Anjos
86. O QUE É ISSO, COMPANHEIRO?, Fernando Gabeira
87. O BRAÇO DIREITO, Otto Lara Resende
88. QUARUP, Antonio Callado
89. A SENHORITA SIMPSON, Sérgio Sant’Anna
90. TREMOR DE TERRA, Luiz Vilela
91. ZERO, Ignácio de Loyola Brandão
92. GALVEZ, IMPERADOR DO ACRE, Márcio Souza
93. VIVA VAIA, Augusto de Campos
94. GALÁXIAS, Haroldo de Campos
95. INOCÊNCIA, Visconde de Taunay
96. POESIAS, Olavo Bilac
97. O TRONCO, Bernardo Élis
98. O URAGUAI, Basílio da Gama
99. JUCA MULATO, Menotti del Picchia
100. CONTOS GAUCHESCOS, João Simões Lopes Neto
Você já leu algum autor da literatura argentina?
“De fato, a Primavera dos Livros nasceu justamente com a finalidade de apresentar ao público editoras cujos catálogos se distanciam de certas facilidades mercadológicas. Neste ano, por exemplo, 90 expositores representando as chamadas médias e grandes vão apresentar seu catálogo diferenciado e com descontos que variam entre 20% e 40%. “São opções nem sempre encontráveis nas grandes livrarias”, diz Mary Lou. “Não promovemos lançamentos, pois nossos títulos sempre estão à disposição.””
O “Estadão” fala sobre a Primavera dos Livros, um evento que é uma boa opção para você comprar seus livros se estiver em São Paulo. Mais informações podem ser encontradas no site do evento.
Autobiografia de Günter Grass sai antecipadamente
“Grass admitiu pela primeira vez, na última sexta-feira, em entrevista publicada pelo jornal “Frankfurter Allgemeine Zeitung”, ter feito parte da Waffen-SS, o corpo de elite militar do regime nazista, pouco antes do final da 2.ª Guerra Mundial.”
Notícia do “Estadão”. Quem lê este blog a algum tempo sabe que eu nunca fui fã do Grass. Essa revelação parece só ter como objetivo fazer estourar as vendas de sua autobiografia. Mais um na sociedade do espetáculo.

Como já anunciado aqui, quinta-feira, dia 10, começou o 7º Salão do Livro de Belo Horizonte. Estive na Serraria Souza Pinto e fiquei surpreendido pelo número pequeno de visitantes em comparação ao ano passado. A programação, em compensação, é uma das melhores que já montaram. Ontem (em pleno domingo), foi possível ouvir o simpático Martin Kohan sem confusão ou brigas para pegar uma senha para o evento, que são distribuídas uma hora antes de cada palestra. Pelo contrário, assustei-me quando o acesso ao pavilhão Mário Palmério foi liberado e somente alguns poucos entraram. O serviço de tradução simultânea também tentou achar um meio adequado para não interromper a cada frase o escritor, mas por fim acabou por deixá-lo falar em espanhol, sem traduzir nada. Não chegou a ser um problema já que o autor fala dum modo pausado, tornando fácil a assimilação das idéias.
A palestra começou com a entrevistadora Graciela Ravetti de Gomes perguntando sobre a obra “Duas Vezes Junho” e sua famosa frase inicial. Para quem não conhece a frase é “A partir de qué edad se puede empesar a torturar a un niño?” – na tradução a frase é “A partir de que idade se pode comesar a torturar uma criança?”. O conteúdo, que deveria causar grande impacto, é completamente ignorado pelo recruta que a encontra, que se preocupa apenas com o erro ortográfico na frase.
Kohan falou sobre suas experiências durante a ditadura argentina, que começou quando o autor tinha apenas nove anos e que por isso, cresceu sem ter muita idéia da atmosfera de horror e medo que pairava sobre a nação. Falou também sobre o futebol e seu papel na propagação de idéias nacionalistas, idéias que serviam a ditadura. Por exemplo, citou que influenciado pela propaganda, muitos argentinos juram que viram a Copa de 78 em cores, embora esta não foi transmitida em cores para o país. Na obra, fala-se de duas derrotas argentinas: na Copa de 78 e 82. Segundo o autor, escrever sobre as derrotas e não sobre a vitória, era uma maneira de levantar a memória.
Por último, quando perguntado se haveria algum problema em se escrever textos de crítica literária e ficção, o escritor respondeu com muita naturalidade, dizendo que não há uma divisão de antes e depois, mas sim um funcionamento mais dinâmico.
Após a palestra conversei com o escritor sobre as similaridades entre os dois países e perguntei a ele sobre como ele vê os problemas de distribuição e disseminação da literatura argentina em nosso país. Na opinião dele o problema não se restringe apenas ao eixo Brasil-Argentina, mas a toda América do Sul, com as exceções de sempre. Também, na opinião do escritor, um grande problema é a falta de boas revistas populares de literatura, algo que no Brasil não chega a ser tão grave como em outros países e citou a revista Cult, que ele disse conhecer e gostar.
Kohan fala novamente hoje, junto com Paloma Vidal, na mesa-redonda cujo tema é “A criação literária no período da repressão política”. Quem quiser procurar mais informações sobre literatura latino-americana poderá encontrar, por exemplo, um texto que considero básico da Paloma chamado “Diálogos entre Brasil e Chile – Em torno às novas gerações”, publicado no livro “A Literatura Latino-Americana do Século XXI” que fala inclusive sobre Alberto Fuguet, outro escritor que participará do Salão do Livro neste ano. Logo mais, às 18 horas, João Gilberto Noll será o entrevistado. Se você estiver em Belo Horizonte, não pode perder. Estarei lá e amanhã direi como foi. Se quiser saber mais sobre a programação entre no site do Salão do Livro clicando aqui.
“Em sua opinião, há uma intersecção entre a linguagem jornalística e a narrativa ficcional?
Sim, de alguma maneira, mas não gostaria de receber notícias de um literato nem ler uma novela produzida por um jornalista. Se for cruzar uma ponte com meu carro, quero ter certeza de que ela foi construída por um engenheiro.”
Jonathan Safran Foer, em entrevista para o “Estadão”. Leia a entrevista completa aqui.