Manchetes dos cadernos de literatura dos principais jornais do Brasil hoje:
Estado de Minas, “O homem que quis ser o Brasil”, sobre Mário de Andrade
O Globo – “O Modernista Prudente”, sobre Mário de Andrade
Estado de São Paulo – “Mário de Andrade, escritor das vanguardas, em nova edição”
Folha de São Paulo – “Reedições propõem Mário definitivo”
O problema não é falar sobre um autor que ninguém mais lê – Mário de Andrade é um escritor muito importante – , mas o que não sai da minha cabeça é por que todos os cadernos literários dizem a mesma coisa? Apesar dos jornais de papel venderem cada vez menos, por que as redações dos principais jornais do país produzem o mesmo enlatado semana após semana? Será possível que não existem mais editores de cultura capazes de fazer um caderno de literatura realmente interessante? E aqueles que escrevem tentando fugir do óbvio, vão pra onde?





















vão para a internet.
Vim falar o mesmo que o João.
Vão para a internet e provavelmente se dedicam bem mais.
É ótimo ver que a internet é uma revolução que não tem mais volta, mas ao mesmo tempo bate uma incompreensão: por que os bons tempos da Bravo! acabaram? Por que a Entrelivros teve que parar de ser publicada? Por que tudo é tão igual?
Os próprios livros estão, hoje, na Internet.
É o caso do Project Gutenberg (www.gutenberg.org/pt), que se dedica à distribuição gratuita de livros digitais isentos de direitos autorais.
Não espanta, portanto, que as próprias revistas de literatura migrem para o ciberespaço.
Abraços
Porque não tem o retorno (não só financeiro) que ajuda a manter.
oi galera.
Acho que, apesar da queda da venda de jornal, ele só faz tentar agradar 80% dos seus leitores.E Isso independente do assunto.
infelizmente o leitor médio do jornal acredita que será mais culto lendo notas bibliográficos de cânones literários do que se aprofundar na obra.
Poxa, quem quer saber de Aníbal Machado ou José Geraldo Vieira? Eles não caem em vestibular.
Acho mesmo que é um acordo de comodismo e conveniência entre jornais e leitores.
E quem quiser mais que se vire. comento isto pq já passei por essa fase.
abs
alguns foram pra revista piaui.
outros eu não sei.
mas o destino de todos é voltar ao óbvio.
Um dia após a morte de Machado de Assis, Euclides da Cunha publicava esta crônica: “A Última Visita a Machado de Assis” no jornal Diário do Commercio, do Rio de Janeiro.
Tenho-a como uma das páginas mais comoventes que já li e a transcrevo.
Vale a pena ler – o texto é excelente.
Crônica publicada por Euclides da Cunha no jornal Diário do Commercio, do Rio de Janeiro: “A Última Visita a Machado de Assis”
“Na noite em que faleceu Machado de Assis, quem penetrasse na vivenda do poeta, em Laranjeiras, não acreditaria que estivesse tão próximo o desenlace de sua enfermidade.
Na sala de jantar, para onde dizia o quarto do querido mestre, um grupo de senhoras – ontem meninas que ele carregara no colo, hoje nobilíssimas mães de família – comentavam-lhe os lances encantadores da vida e reliam-lhe antigos versos, ainda inéditos, avaramente guardados em álbuns caprichosos. As vozes eram discretas, as mágoas apenas rebrilhavam nos olhos marejados de lágrimas, e a placidez era completa no recinto, onde a saudade glorificava uma existência, antes da morte.
No salão de visitas viam-se alguns discípulos dedicados, também aparentemente tranqüilos.
E compreendia-se desde logo a antilogia de coração tão ao parecer tranqüilos na iminência de uma catástrofe. Era o contágio da própria serenidade incomparável e emocionante em que ia a pouco e pouco extinguindo-se o extraordinário escritor.
Realmente, na fase aguda de sua moléstia, Machado de Assis, se por acaso traía com um gemido e uma contração mais viva o sofrimento, apressava-se a pedir desculpas aos que o assistiam, na ânsia e no apuro gentilíssimo de quem corrige um descuido ou involuntário deslize. Timbrava em sua primeira e última dissimulação: a dissimulação da própria agonia, para não nos magoar com o reflexo da sua dor. A sua infinita delicadeza de pensar, de sentir e de agir, que no trato vulgar dos homens se exteriorizava em timidez embaraçadora e recatado retraimento, transfigurava-se em fortaleza tranqüila e soberana.
E gentilissimamente bom durante a vida, ele se tornava gentilmente heróico na morte…
Mas aquela placidez aguda despertava na sala principal, onde se reuniam Coelho Neto, Graça Aranha, Mário de Alencar, José Veríssimo, Raimundo Correia e Rodrigo Otávio, comentários divergentes. Resumia-os um amargo desapontamento.
De um modo geral, não se compreendia que uma vida que tanto viveu outras vidas, assimilando-as através de análises sutilíssimas, para no-las transfigurar e ampliar, aformoseadas em sínteses radiosas – que uma vida de tal porte desaparecesse no meio de tamanha indiferença, num círculo limitadíssimo de corações amigos. Um escritor da estatura de Machado de Assis só devera extinguir-se dentro de uma grande e nobilitadora comoção nacional.
Era pelo menos desanimador tanto descaso – a cidade interira, sem a vibração de um abalo, derivando imperturbavelmente na normalidade sua existência complexa, quando faltavam poucos minutos para que se cerrassem quarenta anos de literatura gloriosa…
Neste momento, precisamente ao enunciar-se este juízo desalentado, ouviram-se umas tímidas pancadas na porta principal da entrada.
Abriram-na. Apareceu um desconhecido: um adolescente, de 16 a 18 anos no máximo. Perguntaram-lhe o nome. Declarou ser desnecessário dizê-lo: ninguém ali o conhecia; não conhecia, por sua vez, ninguém; não conhecia o próprio dono da casa, a não ser pela leitura de seus livros, que o encantavam. Por isto ao ler nos jornais da tarde que o escritor se achava em estado gravíssimo tivera o pensamento de visitá-lo. Relutara contra essa idéia, não tendo quem o apresentasse: mas não lograra vencê-la. Que o desculpassem, portanto.
Se não lhe era dado ver o enfermo, dessem-lhe ao menos notícias certas do seu estado.
E o anônimo juvenil – vindo da noite – foi conduzido ao quarto do doente.
Chegou. Não disse uma palavra. Ajoelhou-se. Tomou a mão do mestre; beijou-a num belo gesto de carinho filial. Aconchegou-o depois por algum tempo ao peito. Levantou-se e, sem dizer palavra, saiu.
À porta José Veríssimo perguntou-lhe o nome. Disse-lho.
Mas deve ficar anônimo. Qualquer que seja o destino dessa criança, ela nunca mais subirá tanto na vida. Naquele momento o seu coração bateu sozinho pela alma de uma nacionalidade. Naquele meio segundo – no meio segundo em que ele estreitou o peito moribundo de Machado de Assis – aquele menino foi o maior homem de sua Terra.
Ele saiu – e houve na sala há pouco invadida de desalentos uma transfiguração.
No fastígio de certos estados morais concretizaram-se às vezes as maiores idealizações. Pelos nossos olhos passara a impressão visual da Posteridade.
” Obs: a identidade do jovem foi revelada, anos depois, pela crítica Lúcia Miguel Pereira, biógrafa de Machado: era Astrojildo Pereira.
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Comentário: Astrojildo Pereira foi um grande intelectual, fundador do PCB que, por tricas e futricas dos comunistas de então, foi afastado do partido, para o qual só pôde retornar após a II Grande Guerra. Sobrevivia da venda de bananas numa banca no Centro do RJ (o Brasil é mesmo surrealista), faleceu em 1965. Era amigo de Lima Barreto, Otto Maria Carpeaux, Graciliano Ramos, Nélson Werneck Sodré, Candido Portinari e Manuel Bandeira, que lhe fez esses pequenos versos:
Verso de Manuel Bandeira para Astrojildo Pereira:
Bananeiras – Astrojildo esbofa-se-
Plantai-a às centenas, às mil:
Musa paradisíaca, a única
Que dá dinheiro neste Brasil.