80 Anos, Márquez versus Llosa

Categoria: Equívocos

Gabo depois da brigaO aniversário de 80 anos de Gabriel García Márquez foi marcado por um evento inusitado: o duelo literário entre o escritor e seu principal rival, Mario Vargas Llosa. Ninguém sabe ao certo o motivo do duelo; especula-se que Llosa tenha reivindicado a paternidade do Realismo Mágico, outros dizem que Llosa na verdade acusou García Márquez de trair o movimento, ainda outros dizem que a briga foi motivada por uma mulher - uma personagem na verdade (ciúmes literários). Como nos duelos entre cavalheiros, os escritores empunharam suas penas - não, nada dessa parafernália tecnológica de máquinas de datilografar ou (heresia das heresias!) laptops - e partiram para o ataque. O primeiro golpe veio de Márquez, que publicou Memórias de Minhas Putas Tristes, livro que retrata um idoso e sua incapacidade sexual. A insinuação causou a ira de Llosa, que perdeu o controle, infringindo as regras do duelo e partiu para o ataque físico. A foto tirada pelo fotógrafo Rodrigo Moya dois dias depois mostra que García Márquez continua em forma. Em 2006, porém, Llosa deu o troco e publicou Travessuras da Menina Má. Os leitores aguardam o contra-ataque de García Márquez, mas ainda não há previsão sobre o que será a história nem quando será lançada.


Os Espelhos de H. Bustos Domecq

Categoria: Equívocos

Durante muito tempo Jorge Luís Borges foi considerado um dos principais escritores argentinos. Era conhecido por sua enorme erudição e sua amizade com outro famoso escritor Adolfo Bioy Casares. Os dois sempre foram cotados para receber o prêmio Nobel de Literatura até que em 1967 o embuste foi revelado pelos jornais: os dois escritores, na verdade, eram pseudônimos do escritor H. Bustos Domecq. A revelação, além de anular quaisquer chances de qualquer um deles receber o prêmio, fez com que a editora solicitasse aos leitores que se sentiram enganados que devolvessem os exemplares dos dois autores para serem ressarcidos, o que ninguém fez. Aproveitando a exposição midiática produzida pela notícia, a editora lançou Crónicas de Bustos Domecq, que não fez tanto sucesso quanto os pseudônimos. O resultado foi que o autor resolveu continuar produzindo textos assinando na capa os nomes de Jorge Luis Borges e Adolfo Bioy Casares. Pouco antes de morrer, o escritor H. Bustos Domecq concedeu uma entrevista em que se dizia surpreendido pelo fato de terem demorado tanto para divulgar a verdadeira identidade por trás de seus pseudônimos, já que em 1940 ele havia revelado isso no conto Tlön, Uqbar, Orbis Tertius. Segundo ele, somente quem acreditasse na existência física de Tlön, poderia acreditar que personagens tão fantásticos como Borges - um homem que leu bibliotecas inteiras até ficar cego - e Bioy Casares pudesse existir fora do mundo da ficção.


Copa de Literatura 2008

Categoria: Divulgação

Já está no ar a lista com os participantes da Copa de Literatura 2008. Novamente, 16 livros disputam partidas no estilo mata-mata para ver quem será o grande campeão do ano. A novidade é que neste ano teremos repescagem. Tudo para tornar mais emocionante a disputa. Clique aqui para conferir.


Blogs e Literatura no Babelia

Categoria: Notícias & Links

O caderno Babelia desse fim de semana fala sobre blogs e literatura. Um trecho, que traduzo:

“Os escritores vão se adaptando a convivência com estas mídias: os romancistas incorporaram a sua escrita procedimentos narrativos derivados do cinema; os poetas experimentaram com a tipografia da máquina de escrever; hoje, graças a internet e as facilidades tecnológicas do computador, apareceu o blog como um novo gênero literário; uma nova geração de autores o utiliza como parte fundamental de seu projeto narrativo, ao passo que busca incorporar em seu texto procedimentos aprendidos pela convivência diária com as mídias e tecnologias emergentes.”

Blog como gênero literário? Cheguei a gargalhar com o otimismo de Edmundo Paz Soldán. Alguém aí, por favor, pode me dizer quem é a nova geração que utiliza o blog como “parte fundamental de seu projeto narrativo”? Não falo do Brasil, falo do mundo inteiro. Alguém, alguém?


Thomas Mann e a Jornada do Herói

Categoria: Spoilers!?

“Aí encontrou aberta a porta brônzea do santuário, e os joelhos do pobre jovem quase que cederam diante do espetáculo que se lhe oferecia aos olhos estarrecidos. Duas mulheres grisalhas, seminuas, de cabelos desgrenhados, com seios pendentes de bruxa e mamelões do comprimento de um dedo, entregavam-se lá dentro, no meio de chamejantes braseiros, a manipulações horrorosas. Por cima de uma bacia esquartejavam uma criancinha. Dilaceravam-na com as mãos, num furioso silêncio - Hans Castorp divisou os finos cabelos louros poluídos de sangue -, e devoravam os pedaços. Os frágeis ossinhos estalavam entre as suas presas, e o sangue pingava dos lábios selvagens. Um pavor gélido paralisou Hans Castorp. Fez menção de tapar os olhos com as mãos e não conseguiu. Quis fugir e não pôde. E elas acabavam de descobri-lo, no meio da sua atividade abominável. Agitaram os punhos ensangüentados, ralhando sem voz, mas com extrema vulgaridade, em termos obscenos, na gíria da terra de Hans Castorp. Este se sentiu mal, pior do que nunca. Desesperadamente esforçou-se por sair do lugar - e na mesma posição em que, durante essa tentativa, caíra de lado junto a uma coluna, encontrou-se na neve, ao pé do galpão, deitado sobre um braço, com a cabeça encostada e as pernas providas de esquis estendidas à sua frente.”

“A Montanha Mágica” de Thomas Mann, páginas 674-5 (Nova Fronteira, 986 páginas, tradução de Herbert Caro) .

“Neve” é sem dúvida um dos capítulos mais bem escritos de toda a literatura. Não somente pela clássica e aterrorizante visão de Castorp descrita em parte acima – que remete à visão do santuário bíblico do Ezequiel –, mas pelo que se transforma o romance a partir dali. Castorp é o típico herói clássico em sua jornada. Ao sair para esquiar e ser apanhado por uma tempestade de neve, Castorp chega ao topo da Montanha Mágica e, conseqüentemente, ao ápice de seu aprendizado. Dali em diante, o olhar será de um personagem maduro que não é mais dominado pelas opiniões extremas de Settembrini e Naphta. Tanto que o foco não será mais sobre os dois e sim sobre Mynheer Peeperkorn, uma personalidade vazia, que produz um inexplicável fascínio entre as pessoas. O prenúncio de que o mundo ao redor de Castorp já não é mais o mesmo.


Hatoum lança Órfãos do Eldorado

Categoria: Lançamentos

Para quem está em São Paulo, a dica de hoje é o lançamento do novo livro do Hatoum.


Machado de Assis e a ironia do destino

Categoria: Equívocos

Negro, pobre e epilético, Machado de Assis lutou para conseguir se estabelecer no mercado literário. Desdenhado por Lima Barreto, exatamente seu oposto (Barreto, apesar de negro e alcoólatra era um escritor marginal louvado pela crítica e por seus pares), Machado de Assis reuniu outros intelectuais e fundou a Academia Brasileira de Letras - na época, apenas um grupo de quase famosos que se reuniam no quintal da casa de Sílvio Romero, o único crítico da época a reconhecer o talento do autor. A publicação póstuma de Memórias Póstumas de Brás Cubas, no entanto, elevou Machado de Assis definitivamente à condição de um dos mais importantes escritores brasileiros. Uma história curiosa: na época do lançamento da obra, especulava-se que seu editor, pouco antes, pagou a um médium para fazer retornar o Bruxo do Cosme Velho, como ficou conhecido após a publicação do romance. Memórias Póstumas teria sido, portanto, escrito postumamente através da psicografia e Brás Cubas seria o alter-ego de Machado.


O que é qualidade literária? - Parte X

Categoria: Especiais

Previsão de Eventos e Comportamentos em Obras Futuristas

O livro Adorável Mundo Novo de Aldous Huxley é uma distopia que retrata a tecnologia sendo utilizada como um meio de restritivo para garantir certo estado de felicidade artificial entre todos. Escrito em 1932, para muitos, o valor da obra está vinculado às acertadas previsões tecnológicas, como o desenvolvimento e popularização da engenharia genética ou o uso de drogas para tornar as pessoas felizes apesar dos problemas. Embora tais previsões impressionem, concentrando-se apenas nesse aspecto, é possível verificar que a obra de Huxley falha em diversos aspectos. No futuro de Admirável Mundo Novo estudantes escrevem em blocos de papel, elevadores possuem ascensoristas, telefones são fixos; previsões de um futuro que hoje parecem ridículas.

A análise da obra de Huxley exemplifica bem a capacidade parcial que temos de previsão de eventos ou comportamentos por estarmos vinculados a uma época. É intrínseco à atividade de escrever sobre o futuro cometer erros crassos por mais imaginativo que seja o autor. Declarar agora – passados tantos anos – que a obra de Huxley é revolucionária por causa das previsões tecnológicas acertadas que ela contém é não levar em conta seu valor. O futuro que Huxley desenha não é o nosso futuro, mas um futuro da ficção, criado especificamente para servir de cenário às questões que ele levanta. O objetivo de Huxley não é ser um futurólogo, mas discutir na sua época, em que o maior número dos intelectuais cantava loas à ciência e tecnologia, o lado ruim e perigoso desse pensamento. Huxley mostrou como poderia resultar num pesadelo um mundo que adotasse irrestritamente as invenções da ciência e tecnologia e consegue dizer através de sua ficção os limites éticos que deveriam ser impostos. Essas questões, no entanto, de modo algum eram revolucionárias, mas faziam parte do contexto social e histórico. Muito antes de Huxley, vários autores já chamavam atenção para os limites da ciência e tecnologia (por exemplo, mesmo no Brasil, o próprio Machado de Assis usa o tema em O Alienista). Sua visão perspicaz apenas detalhou o pensamento da época colocando-o em primeiro plano.

Talvez isso fique mais claro se considerarmos 1984, obra de George Orwell que também procura refletir questões através da ficção distópica. Em 1984, as previsões tecnológicas aparecem de modo menos impressionante, somente em função do tema central, as restrições de liberdade impostas por um governo totalitário. Através da tecnologia, no mundo de Orwell, as pessoas são manipuladas e aquelas que se recusam a acreditar no pensamento do governo nacional são vigiadas e punidas. Num cenário mundial de guerra fria, a ficção de Orwell organizou pensamentos sobre possíveis conseqüências de se abdicar de certas liberdades básicas em nome de um bem comum. As câmeras espalhadas por todo lugar servem de inspiração para reality shows contemporâneos, mas em nenhum momento da obra as previsões tecnológicas suprimem a questão da liberdade individual do ser humano, elas apenas estão introduzidas ali para realçá-la.

As duas obras, portanto, embora hoje sejam lidas e muitos as recomendam pelo modo como fazem previsões de eventos, confirmam o que já foi dito. Se fossem apenas obras que falam de eventos futuros, provavelmente já teriam desaparecido e, como tantas outras, poderiam ser lidas apenas por uns poucos curiosos. Mas o seu valor vai além disso. Há um questionamento que produz reflexões no leitor, esclarecendo idéias de uma época, mas que avançam em atingir leitores de épocas posteriores. Em suma, há nelas um questionamento artístico, o que nos leva à próxima parte: o que dizer de obras que contém previsões de elementos literários?


Literatura Africana

Categoria: Provocações

Todo esse oba-oba em torno da literatura africana não seria herança dos Estudos Culturais*?

* Área acadêmica que reúne um bom número de professores de literatura que não gostam de Literatura.


Bartleby e sua Renúncia

Categoria: Spoilers!?

Tinha de escolher entre a garota e Salinger. Visto que ele e ela não se falavam e, portanto, não pareciam conhecer-se, percebi que não tinha muito tempo para escolher entre um e outro. Devia agir com rapidez. Decidi que o amor tem de estar sempre à frente da literatura, e então planejei aproximar-me da garota, inclinar-me diante dela e dizer-lhe com toda a sinceridade:

- Desculpe, gosto muito de você e acho que sua boca é a coisa mais maravilhosa que vi em minha vida.

“Bartleby e Companhia” de Enrique Vila-Matas, páginas 86-7 (Cosac Naify, 188 páginas, tradução de Maria Carolina de Araújo e Josely Vianna Baptista) .

O tema de “Bartleby & Companhia” é a renúncia literária, a pulsão negativa que leva um escritor a deixar de escrever. Toda essa renúncia é brilhantemente sintetizada no trecho acima, em que o Bartleby narrador vê-se frente a frente com o recluso Salinger e, ao invés de abordá-lo como seria natural para qualquer grande fã da literatura, escolhe seguir uma bela garota que não sabe quem é. A ironia de um Bartleby que cataloga outros escritores da renúncia, pessoas que como ele, propositalmente escolhem não fazer. Somente um trecho de um livro que é quase uma declaração de amor à linda garota chamada Literatura.


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