O que é qualidade literária? – Parte X

Categoria: Especiais

Previsão de Eventos e Comportamentos em Obras Futuristas

O livro Adorável Mundo Novo de Aldous Huxley é uma distopia que retrata a tecnologia sendo utilizada como um meio de restritivo para garantir certo estado de felicidade artificial entre todos. Escrito em 1932, para muitos, o valor da obra está vinculado às acertadas previsões tecnológicas, como o desenvolvimento e popularização da engenharia genética ou o uso de drogas para tornar as pessoas felizes apesar dos problemas. Embora tais previsões impressionem, concentrando-se apenas nesse aspecto, é possível verificar que a obra de Huxley falha em diversos aspectos. No futuro de Admirável Mundo Novo estudantes escrevem em blocos de papel, elevadores possuem ascensoristas, telefones são fixos; previsões de um futuro que hoje parecem ridículas.

A análise da obra de Huxley exemplifica bem a capacidade parcial que temos de previsão de eventos ou comportamentos por estarmos vinculados a uma época. É intrínseco à atividade de escrever sobre o futuro cometer erros crassos por mais imaginativo que seja o autor. Declarar agora – passados tantos anos – que a obra de Huxley é revolucionária por causa das previsões tecnológicas acertadas que ela contém é não levar em conta seu valor. O futuro que Huxley desenha não é o nosso futuro, mas um futuro da ficção, criado especificamente para servir de cenário às questões que ele levanta. O objetivo de Huxley não é ser um futurólogo, mas discutir na sua época, em que o maior número dos intelectuais cantava loas à ciência e tecnologia, o lado ruim e perigoso desse pensamento. Huxley mostrou como poderia resultar num pesadelo um mundo que adotasse irrestritamente as invenções da ciência e tecnologia e consegue dizer através de sua ficção os limites éticos que deveriam ser impostos. Essas questões, no entanto, de modo algum eram revolucionárias, mas faziam parte do contexto social e histórico. Muito antes de Huxley, vários autores já chamavam atenção para os limites da ciência e tecnologia (por exemplo, mesmo no Brasil, o próprio Machado de Assis usa o tema em O Alienista). Sua visão perspicaz apenas detalhou o pensamento da época colocando-o em primeiro plano.

Talvez isso fique mais claro se considerarmos 1984, obra de George Orwell que também procura refletir questões através da ficção distópica. Em 1984, as previsões tecnológicas aparecem de modo menos impressionante, somente em função do tema central, as restrições de liberdade impostas por um governo totalitário. Através da tecnologia, no mundo de Orwell, as pessoas são manipuladas e aquelas que se recusam a acreditar no pensamento do governo nacional são vigiadas e punidas. Num cenário mundial de guerra fria, a ficção de Orwell organizou pensamentos sobre possíveis conseqüências de se abdicar de certas liberdades básicas em nome de um bem comum. As câmeras espalhadas por todo lugar servem de inspiração para reality shows contemporâneos, mas em nenhum momento da obra as previsões tecnológicas suprimem a questão da liberdade individual do ser humano, elas apenas estão introduzidas ali para realçá-la.

As duas obras, portanto, embora hoje sejam lidas e muitos as recomendam pelo modo como fazem previsões de eventos, confirmam o que já foi dito. Se fossem apenas obras que falam de eventos futuros, provavelmente já teriam desaparecido e, como tantas outras, poderiam ser lidas apenas por uns poucos curiosos. Mas o seu valor vai além disso. Há um questionamento que produz reflexões no leitor, esclarecendo idéias de uma época, mas que avançam em atingir leitores de épocas posteriores. Em suma, há nelas um questionamento artístico, o que nos leva à próxima parte: o que dizer de obras que contém previsões de elementos literários?

 

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