Na internet o termo spoiler se refere àquele estraga-prazeres que tece comentários que revelam fatos importantes da trama de uma história. No site, a coluna reunirá trechos de grandes obras, que merecem ser descobertas pelo leitor. Os pontos de exclamação e interrogação ao final indicam o critério de reunião desses trechos: o belo impacto e questionamento que podem produzir no leitor. Também antecipa o comentário “epa! mas isso não é um spoiler?“. Na dúvida leia.
A Nova Coluna Spoilers!?
O Gato da Livraria

Um gato preto na Shakespeare & Co. Algo meio Poe.
Tirei daqui.
Herman Melville e Franz Kafka: a Literatura do Absurdo
O sucesso do lançamento de O Processo (1851) de Franz Kafka tornou o escritor referência para todos os que buscavam criar uma literatura baseada no absurdo de um mundo que cada vez mais se industrializava. Dentre os escritores que sofreram profunda influência, o nome mais significativo é Herman Melville. Melville teve acesso e certamente leu a tradução da obra para o inglês e seu Bartleby, O escrivão (1956) é prova clara disso. O livro foi rechaçado pela crítica, que acusou Melville de ser mais um imitador do escritor austríaco. A reação negativa da crítica atingiu profundamente Melville, que durante alguns anos se manteve em completo silêncio até o lançamento de Moby Dick (1914) que surpreendeu a todos e imediatamente tornou Melville o mais importante escritor da época. Ironicamente, o livro fez o próprio Kafka receber críticas parecidas às de Melville: seu livro A construção (1919) foi acusado de ser uma imitação curta e pobre da obra-prima do escritor americano. Pouco depois, em 1922, sentindo-se incapaz por causa do declínio na carreira, Kafka pediria a seu amigo Max Brod para queimar todos os seus manuscritos, cadernos e cartas. Graças à recusa do amigo é que hoje podemos ler obras de inegável talento como A Metamorfose (1926).
Nova Coluna do Site: Equívocos
A crítica literária é um exercício de - entre outras coisas - análise histórica de dados. Ordenar cronologicamente obras, movimentos literários, eventos culturais, mudanças sociais e mais uma série de variáveis, até finalmente dizer quem é quem. Mas e se embaralhássemos tudo? Se escrevêssemos criando equívocos cronológicos propositais, somente pelo prazer de recriar o universo literário? Dessa idéia nasceu a série Equívocos, um modo divertido de contar a gênese de algumas obras-primas e eventos marcantes da literatura.
Um Universo de Nomes
Em Geografia do romance, Carlos Fuentes afirma que a prisão do realismo é que “pelas suas grades só vemos o que já conhecemos” e, em contrapartida, “a liberdade da arte consiste em ensinar-nos o que não sabemos”. O livro dos nomes, de Maria Esther Maciel, parece ter essa preocupação ao fazer com que o texto ganhe liberdade por escapar ao mero realismo, tanto em sua estrutura como no desenho de seus personagens. Poeta, ensaísta e ficcionista, este é seu segundo romance e mais uma vez sua prosa mistura-se com a poesia. Em O livro dos nomes os personagens estão ordenados alfabeticamente, desde Antônio até Zenóbia, e são constituídos por estilhaços que, embora verossímeis, apresentam detalhes e minúcias que exaltam a arte da linguagem que os criou. Não é por acaso, portanto, que o escrever seja algo tão em evidência por todo o livro – desde Beatriz, que ‘escreve com as unhas, no peito de seu amante, uma palavra que até hoje é segredo’, passando por Maria Alice, ‘coagida pela mãe adotiva a escrever cartas anônimas a inimigos que nem conhecia’, até Zenóbia, que ‘por vários anos, manteve um caderno de anotações sobre os significados dos nomes’.
Essa obsessão pela palavra escrita acentua a chave para a leitura do romance: o ato de nomear. Jorge Luis Borges lembra-nos que no mundo primitivo os nomes não eram símbolos arbitrários, mas parte vital do que definem. Essa relação entre a pessoa e seu nome torna-se uma ferramenta reveladora de características dos personagens no romance. Na introdução de cada parte, a escritora embaralha o nome, sua etimologia, sutilezas e contradições que são também parte do caráter distintivo do personagem. O ato de nomear é, portanto, um modo de definir personalidades, ao mesmo tempo em que rejeita qualquer determinismo. Esse método constitui uma bem-sucedida forma de parodiar os dicionários de nomes, seguindo a tradição literária de Flaubert em O Dicionário das Idéias Feitas ou os personagens do Dicionário Kazar de Milorad Pavitch.
A influência da tradição literária não se revela apenas na forma como o romance é constituído, mas também nos temas que aborda. A epígrafe de O Mestre de Petersburgo, de J. M. Coetzee, não é coincidência. Como o autor de Desonra e A vida dos animais, no livro os animais são recorrentes e a questão do tratamento dado a eles apresenta-se de um modo sutil. No cenário do romance, o interior de Minas Gerais, Tenório é dono de um frigorífico e “se gaba de já ter abatido quase mil vacas desde que assumiu o ofício”, Fausto “tomou aversão à carne bovina”, como modo de se redimir perante Beatriz, e Xavier é o cão que morreu de tristeza depois de presenciar o suicídio de seu dono. É perceptível, nos momentos em que o foco está sobre os animais, a tentativa de a escritora realçar uma “linguagem” comum entre homens e animais, através de ações que refletem a expressão de sentimentos, como um olhar triste de uma vaca em direção ao matadouro ou o cão que fica longe das pessoas e morre embaixo de uma cama, individualizando estes seres. Enfim, uma bela maneira de ensinar-nos o que não sabemos.






















