Thomas Mann e a Jornada do Herói

Categoria: Spoilers!?

“Aí encontrou aberta a porta brônzea do santuário, e os joelhos do pobre jovem quase que cederam diante do espetáculo que se lhe oferecia aos olhos estarrecidos. Duas mulheres grisalhas, seminuas, de cabelos desgrenhados, com seios pendentes de bruxa e mamelões do comprimento de um dedo, entregavam-se lá dentro, no meio de chamejantes braseiros, a manipulações horrorosas. Por cima de uma bacia esquartejavam uma criancinha. Dilaceravam-na com as mãos, num furioso silêncio – Hans Castorp divisou os finos cabelos louros poluídos de sangue -, e devoravam os pedaços. Os frágeis ossinhos estalavam entre as suas presas, e o sangue pingava dos lábios selvagens. Um pavor gélido paralisou Hans Castorp. Fez menção de tapar os olhos com as mãos e não conseguiu. Quis fugir e não pôde. E elas acabavam de descobri-lo, no meio da sua atividade abominável. Agitaram os punhos ensangüentados, ralhando sem voz, mas com extrema vulgaridade, em termos obscenos, na gíria da terra de Hans Castorp. Este se sentiu mal, pior do que nunca. Desesperadamente esforçou-se por sair do lugar – e na mesma posição em que, durante essa tentativa, caíra de lado junto a uma coluna, encontrou-se na neve, ao pé do galpão, deitado sobre um braço, com a cabeça encostada e as pernas providas de esquis estendidas à sua frente.”

“A Montanha Mágica” de Thomas Mann, páginas 674-5 (Nova Fronteira, 986 páginas, tradução de Herbert Caro) .

“Neve” é sem dúvida um dos capítulos mais bem escritos de toda a literatura. Não somente pela clássica e aterrorizante visão de Castorp descrita em parte acima – que remete à visão do santuário bíblico do Ezequiel –, mas pelo que se transforma o romance a partir dali. Castorp é o típico herói clássico em sua jornada. Ao sair para esquiar e ser apanhado por uma tempestade de neve, Castorp chega ao topo da Montanha Mágica e, conseqüentemente, ao ápice de seu aprendizado. Dali em diante, o olhar será de um personagem maduro que não é mais dominado pelas opiniões extremas de Settembrini e Naphta. Tanto que o foco não será mais sobre os dois e sim sobre Mynheer Peeperkorn, uma personalidade vazia, que produz um inexplicável fascínio entre as pessoas. O prenúncio de que o mundo ao redor de Castorp já não é mais o mesmo.

 

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