O caderno de literatura do jornal O Globo de sábado trouxe como tema principal a discussão sobre a crítica literária hoje em nosso país. Somente o fato de um grande jornal estampar na capa de seu caderno de literatura o assunto já chama atenção. Afinal, o que está acontecendo com a crítica literária? Há realmente uma crise? E se há, por quê? À parte do que já foi publicado no jornal nos ótimos textos – cito especialmente os textos da Cláudia Nina e do meu amigo Antonio Marcos Pereira, que achei os mais pertinentes – pondero ainda um pouco mais, especialmente sobre a crítica publicada em revistas e jornais.
É sintomática a sensação de que tudo que lemos é positivo ou neutro em relação às obras que são apresentadas pelos veículos mais populares de divulgação da literatura. Parece haver um zeitgeist, de tom conciliador, entre os próprios escritores, que estão cada vez mais conversando entre seus pares, reafirmando qualidades e imprimindo lampejos sobre aquilo que já está suficientemente iluminado. Uma atitude que parece ter contaminado o que é publicado nos jornais e revistas, por resenhistas e críticos. Quer dizer, pra que comprar três ou quatro jornais e ler em suas páginas elogios a obras que, antes de serem publicadas, já foram suficientemente elogiadas? Como exemplo recente, cito o caso da nova obra de Milton Hatoum, a novela Órfãos do Eldorado, livro que antes de seu lançamento, já era elogiado pelo crítico Daniel Piza e que depois foi unanimidade em todos os cadernos de literatura dos principais jornais. Embora tenha gostado da obra, algo me incomodou. Será que há apenas qualidades na obra de Hatoum? Ou será isso um problema, uma busca por uma posição confortável, um lugar onde sua face fique devidamente protegida? É isso uma característica exclusiva de nosso tempo?
A crítica literária sempre foi uma atividade vinculada a certos obstáculos, que parecem se acentuar hoje em dia, num tempo caracterizado pelo excesso de informação e exíguo espaço para a literatura que rivaliza com novas mídias, da TV aos games e a internet. O primeiro problema – e talvez também o mais citado – é o tal distanciamento necessário a uma avaliação. É especialmente atual um trecho de O Caminho de Guermantes, em que o narrador fala que, as obras extraordinárias – “verdadeiramente belas” nas palavras do personagem – são as que nos devem decepcionar à primeira vista, “porque na coleção de nossas idéias não há nenhuma que corresponda a uma impressão individual”, trocando em miúdos, obras que seguem o fluxo temporal de rejeição-aceitação-admiração. O próprio Proust provou de suas palavras ao ter o primeiro volume de sua obra-prima rejeitada para publicação.
Embora a crítica sempre tenha se deparado com essa limitação para compreensão de certas obras, tornou-se quase unânime a opinião de que devemos falar somente daquilo que encontre correspondência em nosso próprio tempo ou ponto de vista, correspondência essa que seria um sinal de qualidade literária. Uma base fraca que sustenta o pensamento cristalizado de que a avaliação correta surge naturalmente com o passar dos anos. Num terreno assim, é fácil emborcar qualquer esforço intelectual para tentar compreender aquilo que não nos parece imediatamente relevante, afinal, se somente a leitura de obras que julgamos importantes, num tempo em que a publicação do imperdível é diária, exige todo o nosso tempo, que dizer se tentássemos direcionar nosso olhar também àquilo que não nos diz nada num primeiro instante?
Para desfazer toda lógica desse raciocínio, basta lembrar de textos hoje clássicos do crítico literário Edmund Wilson, sobre obras dificílimas para uma avaliação no momento de seu lançamento, como o próprio Em Busca do Tempo Perdido, de Proust ou Ulisses, de James Joyce. O exemplo serve para desconstruir essa imagem de crítica vinculada ao tempo (lembre-se de incluir nessa imagem a desculpa básica de que aquilo que é relevante de um modo ou de outro perdurará através dos tempos), mas o que na verdade deve ser combatido é essa imagem de crítica igual à avaliação acertada sobre alguma obra. O bom texto crítico é muito mais do que uma simples avaliação. Serve para ampliar a visão do leitor, por mostrar caminhos que talvez não estejam facilmente acessíveis e não sejam imediatamente discerníveis. Levam, portanto, a uma elevação de expectativas (evito aqui a expressão “aprimoramento do leitor”, por ser um conceito discutível, mas é exatamente nisso que acredito). Crítica é mais que uma avaliação, crítica é a defesa de um ponto de vista por meio de argumentos claros. Se a avaliação será a mesma daqui a dez, vinte ou cem anos, pouco importa. O texto de Sílvio Romero se referindo a Machado de Assis como “o mais pernicioso enganador” que o diga.
O que nos leva ao segundo e o terceiro problemas: poucos escritores admitiriam que há críticos hoje com perspicácia semelhante a de Edmund Wilson e muitos críticos não se sentem confortáveis em errar em suas avaliações. Talvez por isso as reações agressivas aos que tentam romper o consenso. O escritor muitas vezes se sente ofendido quando alguém diz que todo o tempo que ele perdeu, todos os cabelos que arrancou para construir sua obra, são irrelevantes para a literatura. E, algo não menos comum, críticos que evitam o diálogo com autores, com se toda defesa da obra ou questionamento de critérios utilizados fosse um contra-ataque. Daí, o objetivo de se buscar a compreensão artística daquilo que é produzido em nosso tempo dilui-se.
Pensando exclusivamente nos textos críticos que negam o valor de certas obras, existem outros problemas. E se um livro não nos agrada ao ponto de abandoná-lo, é correto criticá-lo? E se não nos agradou, mas ainda não conseguimos discernir bem o que falha ali, é possível dizer isso sem cair no achismo do ‘apenas ruim’? A crítica eficiente funciona apenas ao utilizar um tom combativo? Ao mesmo tempo, como tentar esclarecer a recepção negativa a uma obra sem utilizar o tom conciliador, do ‘apesar de’ ou o ‘existe algo bom’ na ruindade? Um texto crítico elaborado propositalmente para conter lacunas que seriam preenchidos por outros – leitores ou críticos – é visto como ruim. Para muitos, o papel do crítico é dizer exatamente tudo, mesmo que um texto incompleto pudesse trazer questionamentos adequados que servissem como pontes para idéias de novos textos.
Aos envolvidos em produzir a literatura, criticá-la ou divulgá-la, cabe a responsabilidade de fixação deste momento artístico através do que é publicado e das análises realizadas daquilo que chamamos de literatura contemporânea.





















O exemplo de Proust não poderia ser melhor escolhido. Hoje mesmo comecei Sodoma e Gomorra, depois de meses atolado em compromissos. Tenho um gosto enorme em ler esses períodos longos. Mas de repente me lembrei de quando comecei o Caminho de Swann, muitos anos atrás, e achava aquilo tudo insuportável (talvez seja porque li o primeiro volume traduzido, o que nunca é inteiramente bom).
Penso que a crítica, hoje, sofra (entre outros) do mesmo problema que a leitura em geral. Ninguém quer mais aceitar o desafio de fisgar o livro como um peixe. É necessário apaixonar-se desde as primeiras páginas, ficar com os olhos grudados, escrever logo e publicar de uma vez por todas os comentários sobre a trama, os personagens e assim por diante.
Sinceramente, tenho esperança de que a vida sem fôlego que levamos não seja irreversível. Passada a pós-modernidade, chegaremos a um ponto em que vamos repensar o que construímos, o que ganhamos e o que perdemos. Honestamente, acho até que esse processo já começou.
Pingback
[...] sentido, afirma Leandro Oliveira em seu site: Parece haver um zeitgeist, de tom conciliador, entre os próprios escritores, que estão cada vez [...]