Segundo o Twitter da Flip 2009, o livro “Leite derramado”, de Chico Buarque, vendeu 70 mil cópias na 1ª impressão, 20 mil na 2ª impressão e a Companhia das Letras já prepara a 3ª impressão com mais 20 mil. Para o mercado brasileiro, isso quer dizer que o Chico Buarque é uma mina de ouro.
Não é incomum pessoas que costumam conversar sobre suas leituras se surpreenderem ao escutar uma opinião contrária à sua em relação a um romance que tenha gostado muito e, como acontece em muitos casos, começarem a desfilar seus pontos de vista com o objetivo de convencerem o pobre sujeito de que, sendo inegavelmente excelente a tal obra, aquela opinião somente pode ser resultado de um equívoco em razão de uma falta de percepção das evidentes qualidades literárias existentes ali. Fui vítima muitas vezes desse tipo de situação e sei quão constrangedor pode ser ouvir todo um discurso em favor daquilo que para você é algo apenas dispensável, por isso gostaria de deixar claro que o objetivo dessa longa exposição das qualidades que vejo na obra de W. G. Sebald não se trata disso e sim exatamente o contrário, uma tentativa de compreensão do ponto de vista oposto ao meu e uma demonstração (paradoxal, eu diria) de que a apreciação das características do seu texto pode surgir justamente pelos motivos evidentes de sua rejeição por parte de alguns leitores. Quer dizer, uma vez que se percebe e compreende os recursos literários do escritor em conduzir o leitor por sua obra, recursos que muitas vezes causam um estranhamento, pode surgir um prazer inigualável de leitura.
Imagens e texto
O mais freqüente recurso citado por quem leu algum livro de W. G. Sebald é a coordenação entre imagens e o texto. Muitos, apesar de perceberem que se trata de um recurso literário, não conseguem medir o tamanho do impacto que tal utilização causa no leitor e esse é também o primeiro motivo evidente de alguns não gostarem de seus livros. O ponto é que inevitavelmente Sebald quer interromper o leitor. Note que normalmente a técnica literária num romance conduz o leitor para uma aceleração no ritmo e fluxo do texto ou para uma desaceleração, através de uma série de meios, como frases curtas ou longas descrições, aceleração do tempo cronológico na narrativa, enumerações ou a inversão da ordem do sujeito numa frase. O recurso mais próximo disso seria a interrupção da leitura por meio da ordenação do texto em capítulos ou seções. No entanto, percebam que mesmo este é bem distante de intercalar imagens às frases. Isso porque num capítulo ou numa seção o escritor determinou previamente tudo aquilo que está contido em seu interior, o que quer dizer que, a menos que haja uma interrupção arbitrária do leitor por motivos que escapam à análise da composição literária, o leitor irá ler aquela unidade de texto, emoldurada num título, numa ordem numérica ou qualquer outro meio escolhido pelo autor e terá aquela unidade de texto pré-fixada como referência em relação ao próximo capítulo. Sabendo previamente onde ocorrerá a interrupção e o início de cada leitura, o autor pode mais facilmente produzir uma sensação no leitor, como ao revelar uma informação que causa uma reviravolta no enredo da narrativa ou adiar a solução de um mistério. Todo o trabalho do escritor está, portanto, determinado pela marcação do texto. No caso das obras de Sebald não há isso. Ao apresentar uma imagem em meio a um texto, o escritor nunca sabe ao certo onde o leitor interromperá a sua leitura para prestar atenção a imagem que está colocada. As margens de marcação são móveis e sua indeterminação faz com que o escritor, ao invés de produzir apenas uma sensação – surpresa no caso de uma reviravolta ou expectativa ao adiar um mistério – multiplique as possibilidades de sensações. O leitor poderá interromper imediatamente a leitura, em meio a uma frase, e se concentrar na imagem, podendo voltar um pouco o trecho lido, já que a interrupção causou também uma interrupção interpretativa da frase. Ou pode ser que ele adie a interrupção, escolhendo ler até certo trecho, causando assim uma expectativa em relação ao que será apresentado pela imagem. Talvez o leitor se irrite com a interrupção, sinta que há certa intromissão em seu prazer quando lhe é oferecida uma imagem para análise e interpretação narrativa ou mesmo se perca ao tentar retornar ao texto depois de visualizar a imagem e resolva ir em frente, saltando uma ou duas frases. Mas num bloco de texto não definido de modo algum a sensação é previamente induzida e sim sugerida, possibilitada. Como exemplo desse tipo de utilização, vejamos apenas algumas imagens que estão em duas de suas obras, Os Emigrantes e Austerlitz.
Em Os Emigrantes, já em seu final, Sebald utiliza uma foto de um modo curioso. Primeiramente ele causa certa expectativa ao escrever:
“Recordo agora, disse Aurach, que o tio Leo, que até ser despedido de seu cargo de professor de colégio ensinara latim e grego num ginásio de Würzburg, naquele tempo mostrou ao pai um recorte de jornal do ano de 33 no qual se via uma foto da queima de livros na praça do Paço em Würzburg. O tio disse que essa foto era uma falsificação.” (pág. 183)
Possivelmente, mesmo um leitor que nunca tenha lido alguma obra de Sebald, ao se deparar com o trecho acima imediatamente prevê que lhe será mostrada posteriormente uma foto e por causa da última frase – se estiver atento ao texto – interromperá sua leitura para tentar perceber em que base é possível afirmar que se trata de uma falsificação. Daí, ao virar a página e encontrar a fotografia, é como se houvesse um título “Jogo dos Erros”, daqueles que comumente vemos nas revistas de passatempos, fazendo o leitor deixar de lado o texto e deter-se na análise da imagem. Para muitos essa pausa maior na leitura incomoda, desestimulando sua continuidade. Como o autor usa esse recurso de antecipação de algum detalhe para induzir o leitor a análise diversas vezes é fácil concluir que, nesse caso, o leitor poderá se cansar.
Num outro trecho pouco antes na mesma obra (pág. 171), temos uma foto de uma criança com um lápis na mão e não é dada antecipadamente nenhuma informação ao leitor sobre sua interpretação em relação ao texto. O narrador descreve na página o personagem inclinado, sentindo uma dor insuportável causada por uma hérnia de disco e na página seguinte há a explicação:
“Além disso, recordo que, varando a dor, aquela posição torta me fez lembrar uma fotografia que meu pai tirara de mim quando estava no segundo ano da escola, em que apareço todo inclinado sobre o caderno ao escrever.”
Em meio à isso, surgem duas possibilidades: o leitor se interrogará acerca da inserção da imagem durante a leitura da página, criando assim uma expectativa de revelação de seu sentido, ou ele ignorará a imagem e, posteriormente quando o texto lhe der a informação relativa ao seu significado, ele terá uma surpresa, com o mistério sendo desvendado e podendo inclusive retornar para examinar melhor a imagem.
Nos casos acima, embora haja uma pequena variação de possibilidades de interrupção da leitura, as margens estão mais ou menos delimitadas. No entanto, no caso das reproduções de páginas de um diário (págs. 62 e 63) isso não ocorre; a mera exposição de que se trata de um diário não garante a interrupção imediata do leitor. Parece que ali há uma margem frouxa, com o autor colocando as imagens sem, no entanto, instigar tanto assim o leitor a análise de seu conteúdo.
Por último, ainda se detendo na compreensão desse aspecto das margens móveis do texto, temos uma certa evolução na utilização do recurso em Austerlitz. É significativo que logo no início da obra surjam quatro imagens, dispostas duas em cada página, onde no lado esquerdo aparecem dois pares de olhos de animais e do lado direito mais dois pares de seres humanos. As imagens aparentemente banais estão relacionadas ao texto de um modo também aparentemente banal:
“De resto, dos animais mantidos no Nocturama só me ficou na lembrança que alguns deles tinham olhos admiravelmente grandes e aquele olhar fixo e inquisitivo encontrado em certos pintores e filósofos que, por meio da pura intuição e do pensamento puro, tentam penetrar a escuridão que nos cerca.”
No entanto, ao levarmos em conta alguns aspectos – tamanho, disposição das imagens, a inclusão logo no início, onde o leitor ainda está entrando no ‘clima’ do texto -, é possível sugerir que a interrupção da leitura se dará de um modo quase imperceptível. O que temos, portanto, é uma margem apagada, um engodo que tenta fazer o leitor avançar distraído, sem notar efetivamente que foi interrompido. Muitas são as imagens no romance colocadas sem detalhes específicos a serem observados – uma mochila (pág. 44), uma imagem captada pelo telescópio Hubble (pág. 117) ou um teto (pág. 145) – e o leitor, num bom número de vezes, passa por tais imagens apressado, sem se deter muito em sua análise, despercebendo a manipulação do ritmo de leitura.
“Quando despertaram do sonho das hipotecas e daquele poderio econômico que criam ser eterno, quando despertaram em pleno centro do turbilhão que arrasava tudo, o livro permanecia ali. Era assombroso, nada nem ninguém havia conseguido alterá-lo. Ninguém o havia movido do lugar de sempre. Olharam incrédulos, parecia mentira. Ali estava, totalmente impertubável. Anos de barbárie não tinham podido com ele, e agora, no início daquele século que havia começado com uma grande tempestade, o livro estava ali para recordar-lhes ou simplesmente informar-lhes, se não soubessem, que a literatura fala uma linguagem distinta, não opressora, muito diferente do resto das linguagens perversas que nos escravizam com suas tiranias cotidianas: a linguagem econômica, política, religiosa, familiar, televisiva.”
Enrique Vila-Matas, numa linda homenagem no Dia do Livro. Leia o texto “El talento del lector” clicando aqui.
Saiu o trailer de Disgrace, a adaptação da obra-prima de J. M. Coetzee para o cinema (no Brasil, o título é Desonra). John Malkovich foi o escolhido para o papel do professor David Lurie.
O trailer:
Um fato curioso recentemente me fez pensar sobre meus critérios de avaliação de um livro. Numa conversa informal, quis elogiar um romance da literatura brasileira contemporânea e disse que o autor “contava bem uma boa história”. Para minha surpresa, aquilo que achava ser um elogio foi imediatamente rechaçado. Leitores que classifico como experientes, viam a literatura dum modo bem diferente, onde o enredo em si não teria nenhum valor intrínseco, estaria completamente subordinada aos recursos que os escritores utilizam num texto. O argumento parece revelar uma fissura existente entre dois tipos de leitores brasileiros. Parece que leitores mais experientes, movidos por certo horror ao tipo de leitor que acompanha o que está na moda e lê o que aparece nas listas de mais vendidos, resolveram eleger os desafios da linguagem como ponto fundamental do fazer literário.
Desconfio desse ponto de vista. Isso porque o exame da literatura do século XX aponta para algo que ocorreu com relativa freqüência e que contraria essa lógica. A verdade é que muitas vezes aqueles que procuraram incessantemente aderir às inovações técnicas da literatura mostraram-se com o tempo os mais conservadores, enquanto ao seu lado, os que se apresentavam como ultrapassados e empenhados em perpetuar a tradição, tornaram-se os mais inovadores – por exemplo, Gide, que criticou o original de Proust, vendo nele apenas histórias de duquesas. O culto à técnica pode deslumbrar um leitor, mas no fim revelar ser apenas uma maneira extravagante de dizer algo simples.
Acredito, portanto, ser possível a reinvenção da literatura com o desenvolvimento de técnicas e, simultaneamente, um retorno a preocupações que se enquadrariam em um enredo clássico – aquilo que chamo de “contar bem uma boa história”. Tradição e inovação sendo costuradas num bom texto. Não creio que as inovações em um enredo sejam mais fáceis de construir do que as inovações da linguagem. Pela rica herança que o primeiro possui, possivelmente, pode ser até mais difícil atingir novos alvos por esse meio. Afinal, depois de um século onde o romance prevaleceu, onde estariam eles? Nos recursos de montagem? No desenvolvimento do tempo da narrativa? Na recriação da idéia de narrador? Numa nova psicologia dos personagens?
Por tudo isso, não acredito que é uma coincidência escritores brasileiros contemporâneos, que apresentam uma preocupação com essas duas faces da literatura e desenvolvem-nas bem em algumas obras, me interessem mais que outros. O talento equilibrado, que permite inovações metaficcionais num bom enredo, é que torna a leitura de obras como “Nove Noites” e “Relato de um Certo Oriente” – para citar apenas dois autores contemporâneos – experiências tão interessantes.
Obviamente, a inclusão do enredo na matemática não representa a exclusão de todos aqueles que se concentraram em buscar inovações da linguagem. Pensar isso seria desconsiderar um legado considerável de grandes escritores como Joyce, Woolf, Pynchon, etc. Trata-se de certo horizonte de expectativa: a leitura nesses autores se dá de outro modo e a atenção do leitor está vinculada ao sentido que os recursos de linguagem produzem. Não há nenhuma contradição em valorizar o enredo como elemento literário e autores cuja preocupação passa pela linguagem. Somente não vejo como conciliar as conquistas de tais autores com a idéia de que elas significariam a desvalorização do enredo.