Enredo e Literatura Contemporânea

Categoria: Pontos de Vista

Um fato curioso recentemente me fez pensar sobre meus critérios de avaliação de um livro. Numa conversa informal, quis elogiar um romance da literatura brasileira contemporânea e disse que o autor “contava bem uma boa história”. Para minha surpresa, aquilo que achava ser um elogio foi imediatamente rechaçado. Leitores que classifico como experientes, viam a literatura dum modo bem diferente, onde o enredo em si não teria nenhum valor intrínseco, estaria completamente subordinada aos recursos que os escritores utilizam num texto. O argumento parece revelar uma fissura existente entre dois tipos de leitores brasileiros. Parece que leitores mais experientes, movidos por certo horror ao tipo de leitor que acompanha o que está na moda e lê o que aparece nas listas de mais vendidos, resolveram eleger os desafios da linguagem como ponto fundamental do fazer literário.

Desconfio desse ponto de vista. Isso porque o exame da literatura do século XX aponta para algo que ocorreu com relativa freqüência e que contraria essa lógica. A verdade é que muitas vezes aqueles que procuraram incessantemente aderir às inovações técnicas da literatura mostraram-se com o tempo os mais conservadores, enquanto ao seu lado, os que se apresentavam como ultrapassados e empenhados em perpetuar a tradição, tornaram-se os mais inovadores – por exemplo, Gide, que criticou o original de Proust, vendo nele apenas histórias de duquesas. O culto à técnica pode deslumbrar um leitor, mas no fim revelar ser apenas uma maneira extravagante de dizer algo simples.

Acredito, portanto, ser possível a reinvenção da literatura com o desenvolvimento de técnicas e, simultaneamente, um retorno a preocupações que se enquadrariam em um enredo clássico – aquilo que chamo de “contar bem uma boa história”. Tradição e inovação sendo costuradas num bom texto. Não creio que as inovações em um enredo sejam mais fáceis de construir do que as inovações da linguagem. Pela rica herança que o primeiro possui, possivelmente, pode ser até mais difícil atingir novos alvos por esse meio. Afinal, depois de um século onde o romance prevaleceu, onde estariam eles? Nos recursos de montagem? No desenvolvimento do tempo da narrativa? Na recriação da idéia de narrador? Numa nova psicologia dos personagens?

Por tudo isso, não acredito que é uma coincidência escritores brasileiros contemporâneos, que apresentam uma preocupação com essas duas faces da literatura e desenvolvem-nas bem em algumas obras, me interessem mais que outros. O talento equilibrado, que permite inovações metaficcionais num bom enredo, é que torna a leitura de obras como “Nove Noites” e “Relato de um Certo Oriente” – para citar apenas dois autores contemporâneos – experiências tão interessantes.

Obviamente, a inclusão do enredo na matemática não representa a exclusão de todos aqueles que se concentraram em buscar inovações da linguagem. Pensar isso seria desconsiderar um legado considerável de grandes escritores como Joyce, Woolf, Pynchon, etc. Trata-se de certo horizonte de expectativa: a leitura nesses autores se dá de outro modo e a atenção do leitor está vinculada ao sentido que os recursos de linguagem produzem. Não há nenhuma contradição em valorizar o enredo como elemento literário e autores cuja preocupação passa pela linguagem. Somente não vejo como conciliar as conquistas de tais autores com a idéia de que elas significariam a desvalorização do enredo.

 

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