W. G. Sebald e seus Recursos Literários – Parte 1

Categoria: Especiais

Não é incomum pessoas que costumam conversar sobre suas leituras se surpreenderem ao escutar uma opinião contrária à sua em relação a um romance que tenha gostado muito e, como acontece em muitos casos, começarem a desfilar seus pontos de vista com o objetivo de convencerem o pobre sujeito de que, sendo inegavelmente excelente a tal obra, aquela opinião somente pode ser resultado de um equívoco em razão de uma falta de percepção das evidentes qualidades literárias existentes ali. Fui vítima muitas vezes desse tipo de situação e sei quão constrangedor pode ser ouvir todo um discurso em favor daquilo que para você é algo apenas dispensável, por isso gostaria de deixar claro que o objetivo dessa longa exposição das qualidades que vejo na obra de W. G. Sebald não se trata disso e sim exatamente o contrário, uma tentativa de compreensão do ponto de vista oposto ao meu e uma demonstração (paradoxal, eu diria) de que a apreciação das características do seu texto pode surgir justamente pelos motivos evidentes de sua rejeição por parte de alguns leitores. Quer dizer, uma vez que se percebe e compreende os recursos literários do escritor em conduzir o leitor por sua obra, recursos que muitas vezes causam um estranhamento, pode surgir um prazer inigualável de leitura.

Imagens e texto

O mais freqüente recurso citado por quem leu algum livro de W. G. Sebald é a coordenação entre imagens e o texto. Muitos, apesar de perceberem que se trata de um recurso literário, não conseguem medir o tamanho do impacto que tal utilização causa no leitor e esse é também o primeiro motivo evidente de alguns não gostarem de seus livros. O ponto é que inevitavelmente Sebald quer interromper o leitor. Note que normalmente a técnica literária num romance conduz o leitor para uma aceleração no ritmo e fluxo do texto ou para uma desaceleração, através de uma série de meios, como frases curtas ou longas descrições, aceleração do tempo cronológico na narrativa, enumerações ou a inversão da ordem do sujeito numa frase. O recurso mais próximo disso seria a interrupção da leitura por meio da ordenação do texto em capítulos ou seções. No entanto, percebam que mesmo este é bem distante de intercalar imagens às frases. Isso porque num capítulo ou numa seção o escritor determinou previamente tudo aquilo que está contido em seu interior, o que quer dizer que, a menos que haja uma interrupção arbitrária do leitor por motivos que escapam à análise da composição literária, o leitor irá ler aquela unidade de texto, emoldurada num título, numa ordem numérica ou qualquer outro meio escolhido pelo autor e terá aquela unidade de texto pré-fixada como referência em relação ao próximo capítulo. Sabendo previamente onde ocorrerá a interrupção e o início de cada leitura, o autor pode mais facilmente produzir uma sensação no leitor, como ao revelar uma informação que causa uma reviravolta no enredo da narrativa ou adiar a solução de um mistério. Todo o trabalho do escritor está, portanto, determinado pela marcação do texto. No caso das obras de Sebald não há isso. Ao apresentar uma imagem em meio a um texto, o escritor nunca sabe ao certo onde o leitor interromperá a sua leitura para prestar atenção a imagem que está colocada. As margens de marcação são móveis e sua indeterminação faz com que o escritor, ao invés de produzir apenas uma sensação – surpresa no caso de uma reviravolta ou expectativa ao adiar um mistério – multiplique as possibilidades de sensações. O leitor poderá interromper imediatamente a leitura, em meio a uma frase, e se concentrar na imagem, podendo voltar um pouco o trecho lido, já que a interrupção causou também uma interrupção interpretativa da frase. Ou pode ser que ele adie a interrupção, escolhendo ler até certo trecho, causando assim uma expectativa em relação ao que será apresentado pela imagem. Talvez o leitor se irrite com a interrupção, sinta que há certa intromissão em seu prazer quando lhe é oferecida uma imagem para análise e interpretação narrativa ou mesmo se perca ao tentar retornar ao texto depois de visualizar a imagem e resolva ir em frente, saltando uma ou duas frases. Mas num bloco de texto não definido de modo algum a sensação é previamente induzida e sim sugerida, possibilitada. Como exemplo desse tipo de utilização, vejamos apenas algumas imagens que estão em duas de suas obras, Os Emigrantes e Austerlitz.

Em Os Emigrantes, já em seu final, Sebald utiliza uma foto de um modo curioso. Primeiramente ele causa certa expectativa ao escrever:

“Recordo agora, disse Aurach, que o tio Leo, que até ser despedido de seu cargo de professor de colégio ensinara latim e grego num ginásio de Würzburg, naquele tempo mostrou ao pai um recorte de jornal do ano de 33 no qual se via uma foto da queima de livros na praça do Paço em Würzburg. O tio disse que essa foto era uma falsificação.” (pág. 183)

Possivelmente, mesmo um leitor que nunca tenha lido alguma obra de Sebald, ao se deparar com o trecho acima imediatamente prevê que lhe será mostrada posteriormente uma foto e por causa da última frase – se estiver atento ao texto – interromperá sua leitura para tentar perceber em que base é possível afirmar que se trata de uma falsificação. Daí, ao virar a página e encontrar a fotografia, é como se houvesse um título “Jogo dos Erros”, daqueles que comumente vemos nas revistas de passatempos, fazendo o leitor deixar de lado o texto e deter-se na análise da imagem. Para muitos essa pausa maior na leitura incomoda, desestimulando sua continuidade. Como o autor usa esse recurso de antecipação de algum detalhe para induzir o leitor a análise diversas vezes é fácil concluir que, nesse caso, o leitor poderá se cansar.

Num outro trecho pouco antes na mesma obra (pág. 171), temos uma foto de uma criança com um lápis na mão e não é dada antecipadamente nenhuma informação ao leitor sobre sua interpretação em relação ao texto. O narrador descreve na página o personagem inclinado, sentindo uma dor insuportável causada por uma hérnia de disco e na página seguinte há a explicação:

“Além disso, recordo que, varando a dor, aquela posição torta me fez lembrar uma fotografia que meu pai tirara de mim quando estava no segundo ano da escola, em que apareço todo inclinado sobre o caderno ao escrever.”

Em meio à isso, surgem duas possibilidades: o leitor se interrogará acerca da inserção da imagem durante a leitura da página, criando assim uma expectativa de revelação de seu sentido, ou ele ignorará a imagem e, posteriormente quando o texto lhe der a informação relativa ao seu significado, ele terá uma surpresa, com o mistério sendo desvendado e podendo inclusive retornar para examinar melhor a imagem.

Nos casos acima, embora haja uma pequena variação de possibilidades de interrupção da leitura, as margens estão mais ou menos delimitadas. No entanto, no caso das reproduções de páginas de um diário (págs. 62 e 63) isso não ocorre; a mera exposição de que se trata de um diário não garante a interrupção imediata do leitor. Parece que ali há uma margem frouxa, com o autor colocando as imagens sem, no entanto, instigar tanto assim o leitor a análise de seu conteúdo.
Por último, ainda se detendo na compreensão desse aspecto das margens móveis do texto, temos uma certa evolução na utilização do recurso em Austerlitz. É significativo que logo no início da obra surjam quatro imagens, dispostas duas em cada página, onde no lado esquerdo aparecem dois pares de olhos de animais e do lado direito mais dois pares de seres humanos. As imagens aparentemente banais estão relacionadas ao texto de um modo também aparentemente banal:

“De resto, dos animais mantidos no Nocturama só me ficou na lembrança que alguns deles tinham olhos admiravelmente grandes e aquele olhar fixo e inquisitivo encontrado em certos pintores e filósofos que, por meio da pura intuição e do pensamento puro, tentam penetrar a escuridão que nos cerca.”

No entanto, ao levarmos em conta alguns aspectos – tamanho, disposição das imagens, a inclusão logo no início, onde o leitor ainda está entrando no ‘clima’ do texto -, é possível sugerir que a interrupção da leitura se dará de um modo quase imperceptível. O que temos, portanto, é uma margem apagada, um engodo que tenta fazer o leitor avançar distraído, sem notar efetivamente que foi interrompido. Muitas são as imagens no romance colocadas sem detalhes específicos a serem observados – uma mochila (pág. 44), uma imagem captada pelo telescópio Hubble (pág. 117) ou um teto (pág. 145) – e o leitor, num bom número de vezes, passa por tais imagens apressado, sem se deter muito em sua análise, despercebendo a manipulação do ritmo de leitura.

 

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