Escreve-se Demais Hoje em Dia?

Categoria: Notícias & Links

“Chegam caixotes de livros pelo correio, chegam revistas literárias estrangeiras e eu pasmado: parece que não há quem não escreva neste mundo, romances sobre romances sobre romances, poesia, ensaio, biografia, contos, memória, o raio que o parta. E depois estudam-se uns aos outros, têm ideias, opinam, dissertam acerca de influências, presenças, ausências, ritmos, estruturas, aproximam nomes, afastam-nos, cagam postas, falam, compreendem, etiquetam, classificam, arrumam e tudo isto me dá um enjoo só comparável ao enjoo que me dão os jornais, não há quem não reflicta, não ache, não julgue, não decida, azedos, simpáticos, pretensiosos, analíticos, cultos, afirmativos, jocosos, o que tem esta tralha a ver com a vida, o que tem esta tralha a ver comigo, não me interessa, passem muito bem, adeuzinho e lá ficam eles a resmungar, a gesticular, a sussurrar, a medir. Não era assim que eu imaginava quando comecei, não me interessa, não quero. Interessam-me os meus amigos”

António Lobo Antunes, em sua crônica na Revista Visão.


Sincretismo Cultural e a Questão da Nacionalidade em Machado de Assis

Categoria: Pontos de Vista

Minha contribuição para o Clube de Leituras do Biscoito Fino.

As discussões e opiniões sobre cultura revelam em suas fissuras elementos interessantes para um diálogo entre o que permeia o senso comum e como grandes autores num esforço consciente contribuíram para revelar os equívocos que esse pensamento apressado pode representar. Em particular, duas ideias foram de algum modo se sedimentando à gênese do pensamento sobre cultura no país: primeiro, a definição de cultura a partir do continente europeu, sendo o Brasil, portanto, um lugar onde a ‘alta cultura’ – a cultura relevante – seria importada com certo atraso, em muitos casos como uma cópia mal feita e, segundo, que movimentos emergentes de uma cultura classificada como popular representariam de modo depreciativo aspectos culturais da nação, sendo somente possível uma apresentação correta por meio da chamada cultura erudita. Assim, os definidores de uma cultural verdadeiramente nacional deveriam tomar como modelo aquilo que fosse eleito como indispensável pela estética erudita européia.

A análise dos contos “O Machete” e “Um Homem Célebre” de Machado de Assis revela aspectos da preocupação do escritor com a dependência cultural da literatura brasileira e seu ponto de vista sobre a busca de uma estética que poderia ser chamada nacional. É notável observar como os aspectos destacados pelo autor ainda são relevantes na discussão sobre cultura na contemporaneidade e como Machado de Assis consegue através de uma estética propriamente nacional revelar os equívocos nos pontos de vista apresentados anteriormente. No entanto, mesmo antes da publicação do conto, o autor revela sua preocupação com tais aspectos. No ensaio “Instinto de Nacionalidade”, de 1873, Machado de Assis reconheceu a necessidade de buscar a independência literária, não nas histórias e costumes indianos, mas nas condições e motivos históricos de uma nacionalidade literária. Machado diz:

“O que se deve exigir do escritor antes de tudo, é certo sentimento íntimo, que o torne homem do seu tempo e do seu país, ainda quando trate de assuntos remotos no tempo e no espaço.”

A questão, portanto, seria entender como um “homem do seu tempo e do seu país” se colocaria perante as idéias vigentes de dependência cultural e o conto dá mostras de que Machado lia nas entrelinhas e sabia onde estavam as dissonâncias do pensamento vigente. Sua preocupação é esboçada em “O Machete”, pela composição do personagem Inácio Ramos, que está dividido entre a rabeca, um instrumento tocado para ganhar dinheiro e o violoncelo, símbolo da erudição musical européia. O personagem tem muito em comum com o protagonista do conto “Um Homem Célebre”. Pestana também é um personagem dividido – se por um lado seu sucesso como compositor de polcas o torna orgulhoso, por outro, há uma angústia ressentida por não ter a capacidade de produzir uma peça clássica nos moldes dos grandes compositores europeus. Pestana não tem a liberdade de levar a sério suas fantasias e encarar com indiferença o cânone que por tantos séculos ditou os temas e as técnicas musicais:

“Os demais retratos eram de compositores clássicos, Cimarosa, Mozart, Beethoven, Gluck, Bach, Schumann, e ainda uns três, alguns gravados, outros litografados, todos mal encaixilhados e de diferente tamanho, mas postos ali como santos de uma igreja. O piano era o altar; o evangelho da noite lá estava aberto: era uma sonata de Beethoven.”

Ser Pestana um compositor de um gênero popular da época também é revelador. Conforme bem ressaltado por José Miguel Wisnik, “a ‘polca’ é um índice de modos de modernização à brasileira” . O sincretismo que culminará no maxixe representa a apropriação do gênero europeu e sua reformulação, pinçando-o com elementos da cultura brasileira. A ideia de que a Europa serviria de modelo hegemônico a ser contemplado e copiado não resiste ao sucesso do gênero dançante que cada vez mais passará a ser ouvido e sofrerá transformações, ao ponto de ter o samba – numa linha cronológica do desenvolvimento dos gêneros musicais – um expoente da cultura nacional que é apresentada internacionalmente como genuinamente brasileira.

Observando pontos de vista posteriores sobre o debate, fica claro que Machado de Assis expôs de maneira sublime a questão. Citando Silviano Santiago, por exemplo, o que se destaca é a concepção de cultura latina como algo que destrói sistematicamente os “conceitos de unidade e de pureza”. Segundo Santiago, “o escritor latino-americano brinca com os signos de um outro escritor, de uma outra obra. As palavras do outro têm a particularidade de se apresentarem como objetos que fascinam seus olhos”. Nesse sentido, fica evidente que Machado de Assis é um escritor que se insere no entre-lugar da cultura, “entre o sacrifício e o jogo, entre a prisão e a transgressão, entre a submissão ao código e a agressão, entre a obediência e a rebelião,…num lugar aparentemente vazio” realizando “o ritual antropofágico da literatura latino-americana.”


Mais Fotos da Flip 2009

Categoria: Fotos

As edições especias para a Flip de piauí e Serrote

Beatriz Resende, Atiq Rahimi e Bernardo Carvalho

Com Gay Talese

Chico Buarque lendo um trecho de Leite Derramado

Milton Hatoum lendo um trecho de Órfãos do Eldorado

Mesa de autógrafos com Chico Buarque e Milton Hatoum

Francis e Olívia Hime

Arthur Dapieve e Alex Ross

Conti e Talese

Humberto Werneck e António Lobo Antunes

Lobo Antunes autografa Meu Nome é Legião


Daniel Piza e a Depreciação do Contemporâneo

Categoria: Pontos de Vista

Por causa do post anterior, cheguei a este texto recente de Daniel Piza e confesso que fiquei desanimado. O trecho que mais me chamou atenção foi esse:

“Como se vê também em antologias de autores contemporâneos, a exemplo do Dicionário Amoroso da Língua Portuguesa ou do número 4 da revista Granta, para não falar de alguns romances que tenho lido, a ficção nacional sempre soa como uma espécie de memória disfarçada, uma crônica rarefeita e emotiva, parasitária de alguma influência mal digerida. Os personagens nunca deixam de ser autobiográficos; o estilo sempre está a reboque de outro. Não se explora a língua nem em seu potencial de pensamento nem de percepção.”

O espírito presente aqui é exatamente aquele que critico, o de louvor ao cânone e o de desalento em relação ao que está sendo escrito no presente. Textos como esse prestam um desserviço pelo poder de alcance que a opinião de Piza tem sobre aqueles que o lêem. Representam mais uma peça no museu das grandes novidades do que se fala da literatura pelos jornais brasileiros. Respondo, perguntando: afinal de contas, que valor tem um crítico que elogia o cânone? Para que repetir a mesma ladainha de que o que se produz hoje não se compara a Machado de Assis e Guimarães Rosa? Se “o problema mais básico da crítica brasileira” para Daniel Piza é “o medo de desagradar à patota”, então a situação é mais feia do que eu pensava. Platão expulsou o poeta da sua República e Piza não se dá ao trabalho nem ao menos de reparar nele. É só um ‘viva o cânone’ e a unanimidade do já-dito.


A Depreciação do Contemporâneo ou De Como Sobrevive o Senso Comum

Categoria: Pontos de Vista

Recebi um e-mail recentemente onde uma leitora do blog, dentre outras coisas, diz o seguinte:

“O que mais me impressiona é a falta de senso crítico dos literatos brasileiros. A literatura atualmente produzida é de péssima qualidade.”

Não perguntei o quê especificamente ela havia lido, mas quero supor que uma opinião assim tão contundente foi expressa por alguém que tenha conhecimento do que se produz atualmente pela literatura brasileira. Com isso em mente, respondo que o juízo “péssima qualidade” é resultado de incompreensão. Digam o que quiserem, mas com a variedade de autores e a variedade de recursos técnicos utilizados por esses, creio ser impossível colocar tudo num mesmo balaio e apor um rótulo assim tão incisivo. Embutido ao rótulo, parece vir um conselho: não leiam os contemporâneos! (assim mesmo, com ponto de exclamação no final e tudo)

O que chama minha atenção também é que, ligado a essa depreciação da produção literária contemporânea está um sintoma de maior gravidade, o conservadorismo como é encarada a literatura. Porque está também embutida nessa afirmação a idéia de que a literatura brasileira que se fez no passado é a que deve ser lida e analisada. “O senso crítico dos literatos brasileiros” tem de ser pautado somente por isso. E o passado pintado pelas cores do presente é quase sempre reconfortante. Valores foram postos em xeque por obras literárias e depois assimilados à medida que o tempo passou, dum modo que podemos olhar todas as inovações técnicas dos escritores como algo deslumbrante e por vezes até natural. Elogiar o elogiável é uma posição muito confortável, afinal, que perigo há em se juntar a multidão para dizer que relevante mesmo é Machado de Assis, Graciliano Ramos ou Guimarães Rosa?

Escapa, porém, a essa leitura um detalhe: existem mudanças que estão ocorrendo nesse exato momento e são essas mudanças que influenciam ou influenciarão nosso modo de ver a literatura. É papel do crítico, então, tentar mapear esse tumultuado cenário, avaliar a relevância disso tudo e imaginar o impacto que poderão ter sobre a cultura. Mais importante que os erros ou acertos que virão, está o descortinamento de nosso tempo, de pontos de vista que estão abaixo da superfície, que somente se realizam através do debate, da tentativa de compreensão. É por isso que gosto tanto de projetos como a Copa de Literatura ou outras formas de falar de obras contemporâneas. Falta de senso crítico seria fugir ao debate.


A Flip 2009 em Fotos

Categoria: Fotos
De Homenagem a Manuel Bandeira

De Abertura da Flip

De Com Milton Hatoum

De Davi Arrigucci Jr.


De Liz Calder


De Adriana Calcanhoto lendo Bandeira


De Flipinha


De Entre livros


De Em frente a Pousada da Marquesa (será o João Gilberto Noll ao fundo?)