Recebi um e-mail recentemente onde uma leitora do blog, dentre outras coisas, diz o seguinte:
“O que mais me impressiona é a falta de senso crítico dos literatos brasileiros. A literatura atualmente produzida é de péssima qualidade.”
Não perguntei o quê especificamente ela havia lido, mas quero supor que uma opinião assim tão contundente foi expressa por alguém que tenha conhecimento do que se produz atualmente pela literatura brasileira. Com isso em mente, respondo que o juízo “péssima qualidade” é resultado de incompreensão. Digam o que quiserem, mas com a variedade de autores e a variedade de recursos técnicos utilizados por esses, creio ser impossível colocar tudo num mesmo balaio e apor um rótulo assim tão incisivo. Embutido ao rótulo, parece vir um conselho: não leiam os contemporâneos! (assim mesmo, com ponto de exclamação no final e tudo)
O que chama minha atenção também é que, ligado a essa depreciação da produção literária contemporânea está um sintoma de maior gravidade, o conservadorismo como é encarada a literatura. Porque está também embutida nessa afirmação a idéia de que a literatura brasileira que se fez no passado é a que deve ser lida e analisada. “O senso crítico dos literatos brasileiros” tem de ser pautado somente por isso. E o passado pintado pelas cores do presente é quase sempre reconfortante. Valores foram postos em xeque por obras literárias e depois assimilados à medida que o tempo passou, dum modo que podemos olhar todas as inovações técnicas dos escritores como algo deslumbrante e por vezes até natural. Elogiar o elogiável é uma posição muito confortável, afinal, que perigo há em se juntar a multidão para dizer que relevante mesmo é Machado de Assis, Graciliano Ramos ou Guimarães Rosa?
Escapa, porém, a essa leitura um detalhe: existem mudanças que estão ocorrendo nesse exato momento e são essas mudanças que influenciam ou influenciarão nosso modo de ver a literatura. É papel do crítico, então, tentar mapear esse tumultuado cenário, avaliar a relevância disso tudo e imaginar o impacto que poderão ter sobre a cultura. Mais importante que os erros ou acertos que virão, está o descortinamento de nosso tempo, de pontos de vista que estão abaixo da superfície, que somente se realizam através do debate, da tentativa de compreensão. É por isso que gosto tanto de projetos como a Copa de Literatura ou outras formas de falar de obras contemporâneas. Falta de senso crítico seria fugir ao debate.





















juro que eu gostaria de uma crítica mais elaborada da sua leitora. pingos nos is. sem julgamento de valores ou sem críticas. queria apenas um texto mais elaborado.
a reclamação foi bastante vaga.
o uso da palavra “literatos” explica tudo.
Muita coisa ainda poderia ser dita sobre isso; e é aí que reside o mérito de uma opinião, proporcionar de forma instigante um amplo debate.
Lendo um post do Daniel Piza em seu blog, cujo parecer literário segue esta tendência – sendo apenas um pouco mais elaborado que o da “leitora” -, não pude deixar de anotar e expor algumas contradições que acompanham sua fala, Leandro: o conforto de celebrar o cânone; a fuga do presente literário enquanto espaço de transformações possivelmente determinantes do futuro; e por aí vai.
Quem critica a todos é porque não conhece ninguém, né.
Há o medo de se arriscar, de falar mal de quem vai ser sucesso (como se sucesso fosse sinônimo de qualidade). Há o medo do comentário anônimo, cortante, maldoso. Há uma constatação de que o espaço para o diálogo verdadeiro está cada vez mais raro. Há uma cobrança pela crítica definitiva (como se mudar de opinião fosse um crime). Tudo isso engessa e inibe a livre expressão.
Pessoalmente, adoro uma boa crítica, um texto bem argumentado, mesmo quando discordo. Outro dia, li uma história sobre o Bernard Shaw, tão engraçada. Ele estava na estréia de uma de suas peças quando, durante os aplausos finais, surgiu uma única vaia. Após o silêncio, Bernard Shaw virou-se para o autor da vaia e comentou: “Concordo com o senhor, mas quem somos nós entre tantos?”. E fez questão de ficar amigo do cara.
Voltarei aqui mais vezes.
Um abraço,
Cristina.