Sincretismo Cultural e a Questão da Nacionalidade em Machado de Assis

Categoria: Pontos de Vista

Minha contribuição para o Clube de Leituras do Biscoito Fino.

As discussões e opiniões sobre cultura revelam em suas fissuras elementos interessantes para um diálogo entre o que permeia o senso comum e como grandes autores num esforço consciente contribuíram para revelar os equívocos que esse pensamento apressado pode representar. Em particular, duas ideias foram de algum modo se sedimentando à gênese do pensamento sobre cultura no país: primeiro, a definição de cultura a partir do continente europeu, sendo o Brasil, portanto, um lugar onde a ‘alta cultura’ – a cultura relevante – seria importada com certo atraso, em muitos casos como uma cópia mal feita e, segundo, que movimentos emergentes de uma cultura classificada como popular representariam de modo depreciativo aspectos culturais da nação, sendo somente possível uma apresentação correta por meio da chamada cultura erudita. Assim, os definidores de uma cultural verdadeiramente nacional deveriam tomar como modelo aquilo que fosse eleito como indispensável pela estética erudita européia.

A análise dos contos “O Machete” e “Um Homem Célebre” de Machado de Assis revela aspectos da preocupação do escritor com a dependência cultural da literatura brasileira e seu ponto de vista sobre a busca de uma estética que poderia ser chamada nacional. É notável observar como os aspectos destacados pelo autor ainda são relevantes na discussão sobre cultura na contemporaneidade e como Machado de Assis consegue através de uma estética propriamente nacional revelar os equívocos nos pontos de vista apresentados anteriormente. No entanto, mesmo antes da publicação do conto, o autor revela sua preocupação com tais aspectos. No ensaio “Instinto de Nacionalidade”, de 1873, Machado de Assis reconheceu a necessidade de buscar a independência literária, não nas histórias e costumes indianos, mas nas condições e motivos históricos de uma nacionalidade literária. Machado diz:

“O que se deve exigir do escritor antes de tudo, é certo sentimento íntimo, que o torne homem do seu tempo e do seu país, ainda quando trate de assuntos remotos no tempo e no espaço.”

A questão, portanto, seria entender como um “homem do seu tempo e do seu país” se colocaria perante as idéias vigentes de dependência cultural e o conto dá mostras de que Machado lia nas entrelinhas e sabia onde estavam as dissonâncias do pensamento vigente. Sua preocupação é esboçada em “O Machete”, pela composição do personagem Inácio Ramos, que está dividido entre a rabeca, um instrumento tocado para ganhar dinheiro e o violoncelo, símbolo da erudição musical européia. O personagem tem muito em comum com o protagonista do conto “Um Homem Célebre”. Pestana também é um personagem dividido – se por um lado seu sucesso como compositor de polcas o torna orgulhoso, por outro, há uma angústia ressentida por não ter a capacidade de produzir uma peça clássica nos moldes dos grandes compositores europeus. Pestana não tem a liberdade de levar a sério suas fantasias e encarar com indiferença o cânone que por tantos séculos ditou os temas e as técnicas musicais:

“Os demais retratos eram de compositores clássicos, Cimarosa, Mozart, Beethoven, Gluck, Bach, Schumann, e ainda uns três, alguns gravados, outros litografados, todos mal encaixilhados e de diferente tamanho, mas postos ali como santos de uma igreja. O piano era o altar; o evangelho da noite lá estava aberto: era uma sonata de Beethoven.”

Ser Pestana um compositor de um gênero popular da época também é revelador. Conforme bem ressaltado por José Miguel Wisnik, “a ‘polca’ é um índice de modos de modernização à brasileira” . O sincretismo que culminará no maxixe representa a apropriação do gênero europeu e sua reformulação, pinçando-o com elementos da cultura brasileira. A ideia de que a Europa serviria de modelo hegemônico a ser contemplado e copiado não resiste ao sucesso do gênero dançante que cada vez mais passará a ser ouvido e sofrerá transformações, ao ponto de ter o samba – numa linha cronológica do desenvolvimento dos gêneros musicais – um expoente da cultura nacional que é apresentada internacionalmente como genuinamente brasileira.

Observando pontos de vista posteriores sobre o debate, fica claro que Machado de Assis expôs de maneira sublime a questão. Citando Silviano Santiago, por exemplo, o que se destaca é a concepção de cultura latina como algo que destrói sistematicamente os “conceitos de unidade e de pureza”. Segundo Santiago, “o escritor latino-americano brinca com os signos de um outro escritor, de uma outra obra. As palavras do outro têm a particularidade de se apresentarem como objetos que fascinam seus olhos”. Nesse sentido, fica evidente que Machado de Assis é um escritor que se insere no entre-lugar da cultura, “entre o sacrifício e o jogo, entre a prisão e a transgressão, entre a submissão ao código e a agressão, entre a obediência e a rebelião,…num lugar aparentemente vazio” realizando “o ritual antropofágico da literatura latino-americana.”

 

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