Conversei com o escritor mineiro Luiz Ruffato, que está lançando “Estive em Lisboa e Lembrei de Você”, terceiro título do projeto Amores Expressos. Ruffato é autor, dentre outros livros, de “Eles Eram Muitos Cavalos”, vencedor do Prêmio APCA de melhor romance de 2001 e Prêmio Machado de Assis de Narrativa, além de ter sido eleito pelo jornal Estado de Minas um dos 15 livros brasileiros mais importantes, publicados entre 1990 e 2005. Abaixo, cinco perguntas sobre o novo livro, sua obra e seu ponto de vista sobre a contemporaneidade:
1 – Sobre “Estive em Lisboa e Lembrei de Você”, o título que está sendo lançado pelo Amores Expressos, você fala relativamente pouco em seu blog, montado para o projeto. Então, gostaria primeiramente saber como é o livro. O que há além da matemática “história de amor” + “Lisboa”?
Na verdade, nunca tive blog. Na época do projeto, abriram um espaço virtual para cada escritor relatar suas experiências durante a viagem, mas, como não tinha nada de interessante para dizer, simplesmente não postei nada. Sou um escritor sem blog, sem facebook, sem orkut, sem twitter, sem celular, sem carro e sem relógio… “Estive em Lisboa e Lembrei de Você” é a história de um imigrante ilegal brasileiro que vai trabalhar em Lisboa e lá convive com suas limitações e frustrações. Como o foco do livro é o desenraizamento, a idéia do amor se desdobra em várias perspectivas, solidariedade entre os imigrantes, evocação da terra natal, amizade, etc.
2 – Muitos dos escritores que participaram do Amores Expressos comentaram sobre alguns desafios que esse tipo de projeto exige. Você, ao contrário, parece lidar bem com o desafio de escrever dentro de um projeto – o Inferno Provisório é um projeto que, acredito, possui desafios similares de prazo, tempo de dedicação, etc. Como você consegue lidar com a pressão de um projeto? Não sente vontade de escrever um romance com um pouco mais de liberdade, sem data para terminar?
Eu tenho toda a liberdade para escrever. Sou um escritor profissional, ou seja, há seis anos e meio vivo de literatura. E por isso sei lidar bastante bem com prazos. Eu escrevo todos os dias das sete ao meio-dia e meia. O projeto Inferno provisório, composto por cinco volumes, começou a ser gestado em 1997. Em 2002 assinei contrato com a editora Record e comecei a publicar os volumes em 2005. Até agora, foram lançados quatro livros – falta um pra completar o ciclo, que deverá ser lançado no segundo semestre do ano que vem. Ou seja, entre o contrato e o último volume, oito anos. E a única pressão que tenho são as contas para pagar no fim do mês. Dois outros livros nasceram de encomendas: “De Mim Já Nem se Lembra”, em 2007, pela Moderna, e agora este, pela Companhia das Letras. Todos eles são livros dos quais me orgulho muito. Claro, eu escolho os temas com que quero trabalhar. Nunca aceitaria encomendas cujo tema estivesse fora do meu horizonte de preocupações.
3 – Ainda sobre a relação entre seu projeto pessoal Inferno Provisório e o projeto Amores Expressos, o espaço parece ser algo de fundamental importância nos dois. No Inferno Provisório a Zona da Mata é determinante e no Amores Expressos Lisboa foi imposta pela própria estrutura do projeto. É possível encontrar alguma aproximação entre cenários tão distintos?
Eu sou um escritor monotemático. Meu tema é imigração, desterritorialização, perda de identidade em função do deslocamento espacial. Todos os meus livros tratam disso. O Serginho, personagem de “Estive em Lisboa e Lembrei de Você” viveu a vida inteira em Cataguases e provavelmente manteve contato, mesmo que de passagem, com os personagens do Inferno Provisório. É possível que a história de Serginho seja conhecida e comentada pelos personagens do Inferno Provisório… Portanto, o meu universo ficcional foi totalmente preservado.
4 – Brasil e Portugal estão próximos historicamente e também em suas tradições literárias. Em relação ao amor creio que mais ainda, já que a literatura portuguesa tem como um de seus principais temas o amor paixão e o Brasil reflete muito essa tradição. Existe alguma preocupação em seu romance de trabalhar o tema do amor costurando algo dessas duas tradições?
Não. “Estive em Lisboa e Lembrei de Você” não é um romance de amor. É uma história de imigração. O amor que aparece não é o amor convencional entre duas pessoas, mas amor pelo próximo, pelo outro, pelo diferente.
5 – Por último, os dois primeiros romances do projeto me parece que tiveram boa acolhida pela crítica. Como você avalia o cenário literário contemporâneo? É possível dizer que a literatura brasileira contemporânea vive um bom momento?
Não tenho dúvida de que estamos vivendo um dos melhores momentos da história da literatura brasileira, com uma enorme produção descentrada do eixo Rio-São Paulo, com autores das mais diferentes idades, concepções estéticas, temáticas e filosóficas, com a aposta das grandes editoras em nomes desconhecidos, com uma circulação imensa de informação. O que vai ficar de tudo isso? Não tenho a menor idéia. Mas com certeza ficará muita coisa. Esse é um momento de construção e de maravilhamento.




















