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Mais uma vez discute-se o fim da literatura. Parece que agora o homicida da vez atende pelo nome de livro eletrônico. Até pouco tempo atrás, dizia-se que a internet seria responsável por criar leitores preguiçosos que não teriam mais disposições de ler longos textos e com isso a literatura iria se extinguir. Pelo visto, o livro eletrônico soa como mais uma trombeta do apocalipse. Coincidentemente – ou talvez em consequência dessas previsões apocalípticas -, parece que para muitos críticos, o fim chegou primeiro aqui e a ideia de que “a grande literatura brasileira já não existe mais” tem alcançado cada vez mais adeptos. Sem querer entrar nessa discussão (a meu ver inútil), pergunto: diante de tal cenário, onde o escritor nacional contemporâneo se situaria para reafirmar a qualidade da literatura brasileira?
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O início do século XX inaugurou um novo modo de percepção do sujeito. A obra de Freud e, conseqüentemente, o desenvolvimento da psicanálise, bem como a representação da memória involuntária e fluxo de consciência em romances como os de Proust e Joyce, indicaram um caminho onde a identidade não mais estaria vinculada a um sujeito indiviso, mas cindido por elementos do inconsciente. Acostumemo-nos a isso, o leitor de hoje mudou. Sua consciência da dispersão é cada vez maior, apesar de ainda prevalecer a pedagogia da leitura de enredos e não de literatura.
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Walter Benjamin afirmou que a arte de narrar torna-se pior quando se fundamenta na ideia de transmissão de uma experiência no sentido pleno. Arriscaria dizer inclusive que todos os nomes da literatura que admitiam partir de sua própria experiência para basear suas obras, valorizados por essa tradição autobiográfica, ludibriavam seus leitores. Seria a experiência assim tão nociva para compor a base da arte de narrar? Se sim, como reconhecer um caminho válido para se narrar no século XXI? A resposta as duas questões passa pelo mesmo caminho: a técnica. O desenvolvimento de uma eficiente técnica narrativa é o que permite ao escritor afastar-se da dimensão utilitarista da narrativa para organizar todo esse amontoado de matéria narrável do mundo globalizado. Citei o termo “eficiente” para qualificar o tipo de técnica narrável desejável ao escritor contemporâneo, mas em que sentido uma narrativa pode ser classificada como eficiente?
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O escritor contemporâneo está inserido num ambiente multifocal, com um leitor que é constantemente instigado a interpretar múltiplos signos em diferentes meios; mais do que isso, um leitor que se acostumou a receber e que agora, com o desenvolvimento da internet e suas redes sociais, a interagir com uma imensa quantidade de informações. Se quisermos que a literatura não morra – como já vaticinaram muitos, de diferentes modos e por diferentes razões – será preciso descobrir novos modos de arrancar o leitor de seu estado cada vez mais centrado na capacidade de receber e articular dados que chegam numa velocidade cada vez maior.
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Se o leitor contemporâneo mudou, tornando-se mais disperso, e hoje o escritor rivaliza com uma série de outros meios que roubam a atenção dos que antes eram leitores de um número muito restrito de fontes – jornais e revistas, por exemplo – a questão é: como o escritor brasileiro encontrará caminhos para se fixar num mundo onde todos escrevem, onde uma multidão de vozes se anulam e não encontram ouvidos receptivos à mensagem literária, elemento fundamental num ambiente capitalista que atingiu sua maturidade?
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Não é mais possível uma história conter em si uma verdade, pois o mundo globalizado capitalista criou dentro de si comunidades heterogêneas onde uma verdade não faria nenhum sentido mesmo se direcionada ao mais homogêneo dos grupos, isso porque compartilhar as mesmas impressões sugeriria um esforço para buscar pessoas com uma série de pontos em comum, como experiências culturais e a capacidade de reuni-las de um mesmo modo ao interpretar um texto literário. Ao leitor cindido, ofereçamos uma literatura cindida.
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É ainda possível fazer comungar o narrador e o leitor no ambiente literário contemporâneo? O domínio técnico da narrativa torna-se imprescindível para o estabelecimento de um jogo narrativo entre escritor e leitor. Tomo emprestado de Bernardo Carvalho a expressão “literatura como jogo” pois ela reflete uma preocupação de se buscar justamente esta comunhão entre escritor e leitor.
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Ter como alvo construir uma obra aparentemente inacabada que se caracteriza por sua ramificação em múltiplos significados e que direciona comunidades heterogêneas por caminhos diferentes ao invés de uma obra plena, com sentidos e verdades determinadas, ou seja, cabe ao escritor do século XXI plantar placas que informam sobre direções que podem ser tomadas e não asfaltar veredas para o conforto do leitor. É preciso parar de indicar caminhos seguros e sim fazer o leitor se perder – como se perde num mundo populado por signos que devem ser interpretados a todo o momento – na profusão de caminhos que estão abertos, enfim, problematizar nossas experiências, essa talvez seja a direção a ser tomada para o desenvolvimento da arte de narrar na contemporaneidade.
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Se o leitor transforma-se de forma cada vez mais rápida, buscando novos interesses em muito menos tempo, não faz mais sentido o escritor manter um foco unidirecional. A literatura contemporânea conta múltiplas histórias e torna leitor, leitores.





















Excelente análise. Antes de mais nada devemos diferenciar o “futuro da literatura” e o “futuro do livro”. Talvez, o livro sobrevirerá como a pintura sobreviveu ao advento da fotografia. Já a literatura, essa estará sempre por aí.
Concordo com o Fernando. “Livro”, como realidade física, e “literatura”, como arte, não são a mesma coisa. O e-book é apenas um novo formato de disseminação da literatura. Como a música, a literatura não desparecerá, mas o mercado editorial encontrará novos desafios para a sua sobrevivência.
O que muitos dizem estar em jogo é o fim do papel, em prol de uma tecnologia mais avançada que permita interação com o leitor.
Isso, de certa forma, em um futuro (arrisco) um pouquinho distante, fará com que novas linguagens sejam exploradas e, consequentemente, amplie o repertório literário.
Entretanto, sua preocupação é totalmente relevante: em muitos anos, como estará a linguagem da produção literária, já que a dispersão e a multifuncionalidade é a característica principal das novas ferramentas tecnológicas?
Acho que só reconhecendo a riqueza do material produzido no passado e no presente os novos escritores poderão fornecer uma ótima produção literária no futuro. Pelo menos, assim espero!!
Abs!!
Gostei mto do seu blog. Comecei lendo os primeiros post e estou seguindo adiante. Uma dica: vc conhece o site http://www.skoob.com.br? É uma rede social brasileira focada em livros onde cada usuário pode montar sua estante, adoraria ver a sua. Abraços
Leandro, mais uma vez parabéns pelo blog.
Acho que o livro digital, apesar de toda a badalação atual, é incapaz de substituir os livros à moda antiga, como sempre gosto de dizer, afinal, nada se compara ao folhear das páginas e as descobertas que fazemos em cada linha e entrelinha. Penso que o livro digital vem apenas acrescentar algo ao mundo digitalizado e que precisamos acompanhar as mudanças, sem abandonar as velhas tradições. Não há substituto para um livro de verdade! É uma humilde e singela opinião!
beijo!