Encontrar uma caixa fechada em nossa porta de manhã, abri-la e descobrir dentro dela um livro novo, com aquela capa preguiçosa, que insiste em permanecer fechada, como se estivesse sendo acordada de um bom sono. Daí nossos dedos continuam a revistar a obra. O título é escrito em relevo? Então queremos percorrê-lo. A capa é dura? Damos algumas batidas com a ponta do indicador e escutamos o som oco produzido. A ordem é folheá-lo e escutar o som das folhas separando-se uma das outras e depois dos cadernos separando-se dos outros cadernos. O manuseio da obra faz subir um leve vento que carrega até nossas narinas o cheiro de novo do objeto. Enquanto isso, nossos olhos parecem hipnotizados, querem percorrê-lo todo, de uma só vez. E brilham.
Se comprar livros novos é uma de suas paixões, você sabe o que a descrição acima quer dizer. A variação se dá apenas no modo como o livro chega às suas mãos: se você comprou-o numa livraria, a primeira frase começará com você retirando-o duma sacola plástica ou de um belo embrulho. Mas o prazer que vem depois é o mesmo – ou às vezes maior (já vi alguns perderem o sono após a compra de um bom livro, por causa da felicidade). Mas em meio à infinidade de livros que habitam em nossa imaginária (ou também real) lista de desejos, nem sempre sabemos exatamente qual escolher. Eis então o grande problema: partindo da suposição que nossos recursos financeiros são limitados, que livro satisfará nosso desejo quando não sabemos exatamente que desejo é este?
A resposta rápida poderia nos levar a um equívoco, fazendo-nos igualar contentamento e satisfação. Vez por outra, aos que amam comprar livros, ocorre algo assim: após a compra, o livro é colocado na estante (talvez porque estamos lendo outro no momento) e depois completamente esquecido. Apesar do contentamento inicial da aquisição, percebemos que aquele não era o ‘momento’ para a leitura da obra. A aquisição, assim, não produz satisfação. Portanto alguns pontos devem permear nossas escolhas ao passear pelas prateleiras de livros (reais ou virtuais).
Primeiro acredito que a menos que você goste de apostar, adquirir lançamentos quase sempre se converte (no máximo) em um leve contentamento. O principal motivo é que logo que uma obra é lançada, muita propaganda é feita para que você adquira o produto. Assim, você não tem real idéia do que o livro é. A cada semana, um novo best-seller ‘completamente revolucionário’ é lançado e a grande maioria, no fim do mês, já é convertido no mais novo livro inútil de sua estante. Assim costumo privilegiar livros que estão na minha lista de desejos há mais tempo. Ligado a isso, embora reconheça ser bem difícil, procuro separar alguns aspectos estéticos e avaliá-los em separado. Por exemplo, uma boa capa é excelente, mas ser levado a comprar um livro completamente estranho somente por causa da capa é o caminho mais curto para a decepção. Aspectos estéticos servem apenas como ‘critério de desempate’ e separá-los antes de tomar uma decisão pode salvar-nos de comprar um livro que depois servirá apenas como apoio para os papéis da mesa.
Também ocorre, vez por outra, que adquirimos um livro maravilhoso que fica esquecido por muito tempo na estante. Aí, num belo dia, surge um ‘insight’, começamos a ler o livro e nos perguntamos por que se passou tanto tempo sem que apreciássemos seu maravilhoso conteúdo. Daí concluímos que um bom modo de satisfação é rever nossa estante e procurar desencalhar aquelas obras que num dado momento chamou tanto nossa atenção que acabamos por comprá-la. Numa época em que o dinheiro nos falta, esta pode ser uma ótima opção para se encontrar aquilo que não sabíamos que procurávamos.























LEANDRO,
COMPRAR UM LIVRO PRODUZ UMA ALEGRIA IMPAR PARA MIM. COSTUMO IR AS LIVRARIAS DO CENTRO DE CURITIBA, GERALMENTE DE ONIBUS, PARA EVITAR O TRANSITO. NAO TEM PRAZER MELHOR DO QUE PEGAR A SACOLA DE LIVROS DE VOLTA NO ONIBUS E COMECAR A SABOREAR A COMPRA. COMIGO FREQUENTEMENTE ACONTECE DE UM LIVRO COMPRADO NA ULTIMA PROPAGANDA DO MES, IR PARAR NA ESTANTE OU ENTAO COMECAR A LER E NAO GOSTAR, COMO FOI O CASO DE O “CODIGO “
Olha, eu comentaria várias coisas q lembrei-me enquanto lia este post, mas opto por uma ou duas. Uma: amo comprar livros em livrarias, mas recebê-los em casa - uma encomenda pelo correio q finalmente chega - é uma alegria sem par. Duas: adquiri “O Carnê Dourado” de Doris Lessing (é, aquele do título no original no post abaixo) num sebo e fiquei mais de ano com ele encostado; nunca lera Lessing, só aproveitara a oportunidade de trazer um novo escritor (pra mim) a condições razoáveis… e um dia fui ler o livro - adorei. Como consegui ficar com algo tão maravilhso em casa sem saber disso? Foi uma experiência.
Velhos livros também têm seus cheiros (mais particulares que os dos novos). Penso agora na alegria de reencontrar um velho livro. E o interessante de minhas releituras sempre trazerem coisas essencialmente diferentes. Você mais espalha o olhar que aprofunda.
Mas um livro novo é sempre festa.
Menino, como vc escreve lindo, eu vou roubar
Como você escreve maravilhosamente bem ! Um alívio saber que ainda existe gente que não judia da nossa língua.
Como uma viciada em livros, principalmente os novos, amei a sua descrição. Escolher um livro para ser lido durante a viagem de férias é um dos prazeres de estar numa livraria.
Vou voltar sempre aqui!
Sempre que posso, compro livros, pois nunca se sabe o dia de amanhã! Concordo plenamente com o seu raciocínio. Aqui em casa, tenho uma ampla oferta de livros que estão para ser descobertos. Ler é um prazer sem igual.
Parabéns pelo blogue!