Iniciei a leitura de um livro que me foi fortemente recomendado, “O Tambor”, que segundo muitos, é a grande obra-prima de Günter Grass. Estou finalizando o primeiro livro da obra (que é dividida em três livros) e a sensação é de grande decepção. Já são quase 250 páginas e a sensação é de o livro ainda não disse a que veio. Frequentemente presente nas listas de melhores de todos os tempos, o livro parece um imenso ‘queria ser isso mas sou aquilo’. O autor conta a história de Oskar, um personagem que aos três anos resolveu parar de crescer e faz diversas referências à Alemanha nazista. A proposta parece ser excelente, mas a execução até agora não me chamou atenção. Grass boa parte do tempo tenta ser engraçado, mas a sensação é que estamos vendo um daqueles programas em que o personagem diz algo absolutamente sem graça e escutamos o riso de uma platéia invisível que nos convida a rirmos também. Grass também tenta criar absurdos, mas o que consegue é descrever eventos estranhos. Estranhos e muitas vezes chatos, como a capacidade do pequeno Oskar de quebrar vidros com sua voz. Por fim, as referências à Alemanha nazista, o ponto que a maior parte dos críticos chamam à atenção e apontam como o ponto alto da obra, para mim passam despercebidas. Não tenho um conhecimento tão grande assim da Alemanha e dos eventos que geraram o Holocausto, por isso reconheço somente os nomes mais óbvios: Hitler, Goebbels ou a organização “A Força Pela Alegria”. Com isso, perco grande parte do atrativo da obra.
O mais estranho é que apesar de tudo o que eu vejo de ruim na obra até agora, continuo a leitura do livro e possivelmente não irei abandoná-lo. E vocês sabem por quê? Nem eu. Engraçado, mas certos livros possuem esta extranha capacidade de esticar a paciência do leitor até um limite inimaginável. Existem livros que são abandonados já na primeira página, enquanto outros nunca o são, apesar de haver lógica alguma nisso. Simplesmente continuamos a ler. Não confundam, não estou dizendo aqui que realmente existe algum motivo, já que não sou daqueles que ‘lêem somente para criticar depois’. Leio o que quero e o que não quero não leio. Não sinto vergonha alguma em dizer que abandonei, por exemplo, “Lord Jim” após umas cem páginas e, a menos que seja obrigado pelo cruel destino de leitor, nunca mais retornarei a ele. Existem livros que não nos agradam e imediatamente jogamos pela janela, enquanto outros parecem o tempo todo prometer algo diferente apesar de sabermos que a certa altura, o ‘algo diferente’ muito provavelmente não existe. Mas, até certo ponto, paciência não é isso? Uma conformidade, que nos faz suportes certos incômodos sem nos queixar?
Em meu estado normal, creio que sou capaz de suportar cinqüenta páginas até começar a desconfiar que um livro não irá me agradar. Mas essa regra é burlada diversas vezes e por vários motivos. Minha paciência é algo completamente aleatória. Já chutei pra longe alguns livros logo na introdução, enquanto outros são como troféus que, contrariando toda a lógica, foram lidos até o fim. Por isso caro leitor, caso você tenha abandonado algum texto recomendadíssimo e elogiadíssimo não é preciso se martirizar: paciência (e a falta dela) são características de todo leitor. E para aqueles que dizem “Nossa, você não leu este livro até o fim? Mas por quê? Não é possível!”, saiba que é bem possível encontrar algum livro, ao longo da grande jornada do leitor, que poderá ser tão exasperador, que sua reação será a mesma reação que você tanto critica. E sempre haverá alguém para te jogar estas mesmas palavras na cara.























Tentei ler Jorge Amado -”Mar Morto” e “Teresa Batista” - e não fui adiante. Aliás, considero q tendo lido “Seara Vermelha” já li muito.
“Anna Karenina” foi um livro o qual me obriguei a ler até o fim, sem jamais considerá-lo realmente prazeroso. Outro exemplo (sacrilégio para alguns) foi “O Leopardo”, do Lampedusa.
Sou como vc, Leandro, não tenho a menor hesitação em abandonar um livro do qual não estou gostando.
Eu também chuto livros sem dificuldade. Achei “Auto-de-Fé” chatíssimo, mas li todas as suas seiscentas e tantas páginas - quando tinha 16 ou 17 anos. Agora, cinco anos depois, fui dar uma olhada nele. Pretendia ler umas 2 páginas, no máximo - mas deslizei pelas primeiras 40 com a facilidade de um patinador de gelo profissional. Se já não estivesse lendo tantas outras coisas, releria o livro tranquilamente.
Jorge Amado a princípio me chamou bastante atenção, mas depois me cansei, parece sempre repetir a mesma história. “Anna Karenina” li apenas a primeira página, mas confesso que tenho curiosidade. Agora Marcio, “Auto-de-fé” eu considero uma obra-prima, um dos livros que mais gosto. Canetti é hilário em certos trechos e seu livro um dos mais completos que já li. Não é estranho isso? Por que certos livros chamam tanto a atenção de alguns e de outros nem tanto?
Leandro, também acho uma obra-prima, mas é asfixiante, opressor. Porém, algumas coisas dele ainda estão bem vivas em minha memória, principalmente o Fischerle (não sei por que).
Meu mestre, Petrarca, a blogueira (http://www.petrarca.blogspot.com/), tem o teste das 2 linhas: abrir o livro ao acaso e ler 2 linhas. Se não forem boas, fechar o livro.
Se forem boas, testar mais vezes.
Nunca falhou.