O sucesso do chamado mercado de auto-ajuda reflete bem uma característica marcante do leitor brasileiro: a necessidade de efeitos imediatos. Vendo isso, o diagnóstico claro é que o brasileiro lê mal. Sem discutir a qualidade medíocre dos conselhos que a maioria desses livros traz, o que notamos que existe em comum entre todos eles é a capacidade que o leitor tem de, ao virar a última página, notar-se revestido de uma suposta sabedoria imediata. O leitor se sente mais sábio e por isso compra livros de auto-ajuda. Não há necessidade alguma de meditação ou avaliação dos conselhos, é preciso apenas admitir que tais conselhos são verdadeiros e úteis, revestir-se de auto-confiança e dizer para si mesmo “sou capaz de tudo”. O que antes era conseguido à custa de bastante tempo - leitura de vários livros, debates, meditação e experiência pessoal - hoje é prometido em sessenta minutos ou menos. O resultado é um mercado cada vez mais lucrativo e uma população cada vez menos instruída.
É possível que o sucesso do mercado de auto-ajuda seja apenas um reflexo de um problema pior: a falta de utilização de recursos mais avançados da linguagem. A maior parte dos leitores esperam que a linguagem tenha capacidade apenas objetiva. Quando o leitor encontra num texto qualquer a palavra ‘casa’ ele espera apenas que esta tenha o significado habitual de uma edificação com portas e janelas. Metáforas, metonímias, paranomásias, ironias e outros recursos não são recomendados, correndo-se o risco do texto ser classificado como incompreensível. No máximo, uma histórinha bobinha de ratos em busca de queijos, mas onde a comparação seja explicitada e explicada de forma ‘inteligente’. Num mundo onde a pessoa está acostumada a receber conteúdos já decodificados através da televisão, passar ao leitor a responsabilidade de interpretação da linguagem parece ser algo bastante ultrapassado. Afinal, para que decifrar conteúdos se a sabedoria pode ser conseguida comprando-se o livro da prateleira ao lado?
Com isso em mente, é fácil perceber porque quase não existe debates profundos sobre literatura em meios mais ‘populares’. A maioria dos leitores não está habilitado a encontrar significado naquilo que não está explicitado do modo mais óbvio. Se, por engano, o leitor se vê com um livro mais ‘complicado’ nas mãos, sua reação é simplesmente dizer que não gostou dele. E na maioria das vezes quando perguntado sobre o porquê de não ter gostado ele diz simplesmente que não entendeu nada. É a reação mais natural de um país cujo sistema educacional de ensino fundamental não tem qualquer preocupação em estimular seus alunos à pesquisa. Daí, ao invés de tentarem procurar o significado daquilo que não entendeu, o leitor apenas passa a outro livro mais ‘fácil’. Nunca lhes vêm à mente que o problema pode ser ele mesmo. Prefere achar que o autor é ruim, quando não encontra imediatamente algo na obra. Ele sempre admite-se um leitor qualificado.
Na literatura de auto-ajuda a falta de entendimento praticamente não acontece. O objetivo ali não é produzir nada novo através da linguagem. Tem objetivo de apenas veicular uma mensagem que poderia ser gravada num cd ou num vídeo. Aliás, muitos homens do ramo perceberam isso e já o fazem. As editoras, que são empresas interessadas no lucro, serão as encarregadas de maximizar os ganhos por vender esta imagem de sabedoria - seja ela escrita pelo Dalai Lama, seja por um Phd qualquer que ninguém conhece.
Por isso, vejo a discussão sobre o pequeno espaço que a literatura - ou a crítica literária - possui nos jornais e revistas como algo improfícuo. Falar da ampliação desses espaços sem falar no esforço de qualificação do leitor é apenas arranhar o problema. Este é apenas um sintoma, não a causa. Também acredito que nunca se conseguirá uma ampliação satisfatória no número de livros vendidos se os leitores não estiverem habilitados a se interessarem por livros que utilizam a linguagem dum modo mais avançado. Pessoas com boa renda ainda acharão poesia um monte de bobagens, se só estiverem habilitadas a ler objetivamente. Num cenário como este é quase impossível imaginar alguém vivendo somente por produzir literatura. E o futuro parece ser ainda pior.























Realmente, sem educação não tem como avançar. Acabei de ler “Book business”, do Jason Epstein, o cara que praticamente inventou o quality paperback nos EUA: ele diz que o momento era aquele (metade da década de 50) porque depois da Segunda Guerra Mundial a taxa de educação superior aumentou muito, graças em boa parte ao GI Bill.
Mas isso quer dizer que o futuro pode ser melhor. Em algum momento, não é possível, a gente há de educar a plebe, e nessa hora o mercado brasileiro vai explodir. A grande aposta é saber quando.
Depois de posts esparsos, é bom encontrar tantos e tão bons posts em tão pouco tempo, Leandro. Escreva mais, por favor.
Quanto ao texto, apenas uma questão. Não necessariamente auto-ajuda, mas qualquer leitura mais fácil (em especial de ficção, como por exemplo Dan Brown, Sidney Sheldon, Ken Follett, etc) não poderia em alguns casos servir como um trampolim para futuros vôos mais longos, principalmente entre os mais jovens? Não poderia essa literatura mais “pobre” despertar em algumas pessoas (repito: principalmente jovens) o prazer de ler?
Sei que esse incentivo inicial poderia dar-se através de autores mais qualificados e não complexos (como o Veríssimo, por exemplo), mas aí seria esperar muito. O que vc acha?
Bem Cláudio, posso dizer que apesar dos posts esparsos, tem sido um período bom de leituras. Tentarei escrever mais, apesar dos compromissos que surgem - compromissos inclusive literários.
Bem, quanto a questão da aproximação de leitores através de livros fáceis, não conheço nenhuma pesquisa a respeito do assunto, por isso o que vou dizer é apenas uma impressão pessoal. Normalmente parece que o leitor toma contato com o livro através de vários caminhos: leituras infantis, livros policiais, best-sellers e também auto-ajuda. O fato de muitos leitores começarem por livros de ficção best-sellers ou auto-ajuda é grandemente comercial, o acesso ao livro é facilitado pela propaganda que se faz para vendê-lo. Pelo que percebo, poucos notam, à medida que lêem mais best-sellers, que este é apenas um modo de leitura e começam a evoluir para outros sem um envolvimento numa comunidade. A comunidade - pessoas com as quais o leitor se relaciona e que sugerem leituras mais ‘difíceis’ - é que disseminam os novos horizontes literários para o leitor não muito experiente. Nem mesmo a escola, que deveria em parte cumprir com esse papel, parece fazê-lo bem. Por causa disso é que não é incomum ouvirmos comentários de ex-alunos que reclamam das leituras obrigatórios de clássicos brasileiros, uma mostra de que há algo errado. Leituras mais fáceis servem para uma série de coisas - inclusive divertir - mais disconfio bastante quando vejo pessoas afirmarem que somente tais leituras aproximam o leitor de livros mais relevantes. Inclusive esta é a lógica do mercado: vender mais livros, independente da qualidade destes.
Acho que o seu texto faz o maior sentido, Leandro. Parabéns.