“Tinha de escolher entre a garota e Salinger. Visto que ele e ela não se falavam e, portanto, não pareciam conhecer-se, percebi que não tinha muito tempo para escolher entre um e outro. Devia agir com rapidez. Decidi que o amor tem de estar sempre à frente da literatura, e então planejei aproximar-me da garota, inclinar-me diante dela e dizer-lhe com toda a sinceridade:
- Desculpe, gosto muito de você e acho que sua boca é a coisa mais maravilhosa que vi em minha vida.”
“Bartleby e Companhia” de Enrique Vila-Matas, páginas 86-7 (Cosac Naify, 188 páginas, tradução de Maria Carolina de Araújo e Josely Vianna Baptista) .
O tema de “Bartleby & Companhia” é a renúncia literária, a pulsão negativa que leva um escritor a deixar de escrever. Toda essa renúncia é brilhantemente sintetizada no trecho acima, em que o Bartleby narrador vê-se frente a frente com o recluso Salinger e, ao invés de abordá-lo como seria natural para qualquer grande fã da literatura, escolhe seguir uma bela garota que não sabe quem é. A ironia de um Bartleby que cataloga outros escritores da renúncia, pessoas que como ele, propositalmente escolhem não fazer. Somente um trecho de um livro que é quase uma declaração de amor à linda garota chamada Literatura.























Leandro quero lhe dar os parabéns pelo novo visual, pelo novo endereço e tudo o mais, imaginando que isso é uma espécie de início de valorização por tudo que você tem feito pela tão esquecida literatura.
Falando sobre esse espanhol genial, acrescento que é um dos escritores mais apaixonados que conheço, e que faz do tema geral, um roteiro de suas obras. Sempre irônico, indagador e que consegue um ritmo incrível mesmo em traduções, a ajuda dos tradutores é inegável, mas com conteúdo tudo fica mais fácil. A Espanha está com uma safra muito boa. Recomendo também Javier Cercas.
Grande e fraterno abraço.