Conversei brevemente com o escritor e jornalista Bernardo Carvalho, que viajou para São Petersburgo pelo projeto Amores Expressos. O escritor é autor de livros como Aberração, Onze, Os Bêbados e os Sonâmbulos, Teatro, As Iniciais, Medo de Sade, Nove Noites, Mongólia e O Sol se Põe em São Paulo. Traduzido para várias línguas, o autor recebeu prêmios importantes como o Portugal Telecom, o Jabuti e o prêmio da Associação Paulista dos Críticos de Arte.
Leandro Oliveira: Em seus três últimos romances (Nove Noites, Mongólia e O Sol se Põe em São Paulo) o protagonista é alguém que está em trânsito, circulando por culturas diferentes e muitas vezes entrando em choque com essa cultura. Assim, parece que o projeto Amores Expressos se encaixa bem com seu próprio projeto literário. Lendo os textos em seu blog que faz parte do projeto, parece que não faltaram choques culturais. Que conflitos observados na Rússia serão explorados pela nova obra?
Bernardo Carvalho: Em meio às leituras que precederam a viagem a São Petersburgo, fiquei muito impressionado quando descobri as associações das mães dos soldados. São associações (a principal fica em Moscou) criadas por mães que queriam salvar os filhos não só da guerra da Tchetchênia, uma guerra totalmente fora de controle, mas da violência inerente ao próprio serviço militar. Há uma tradição de trotes violentos contra os recrutas no Exército russo, mas isso ganhou proporções absurdas desde o fim do comunismo, quando boa parte das antigas Forças Armadas soviéticas foi à falência. As relações internas se barbarizaram, houve casos de recrutas mutilados, assassinados em condições nunca reveladas etc. Como o romance tinha que ser uma história de amor, pensei no amor incondicional, absoluto, que é o amor de mãe, e decidi fazer desses conflitos da guerra e da violência que aflora com a derrocada do comunismo o centro do romance.
L.O.: Você já participou de um projeto parecido, quando foi convidado pelo André Jorge, da editora portuguesa Cotovia, para viajar à Mongolia e escrever um livro. O que mudou de lá para cá? De algum modo a experiência do projeto da Cotovia tornou mais fácil escrever para o projeto Amores Expressos?
B.C.: Cada projeto é um. É sempre uma novidade e um risco. Mas acho que neste agora eu tenho mais consciência do risco do que eu tinha no caso do Mongólia. E isso não facilita as coisas.
L.O.: Você já disse preferir escrever livros que incentivam o leitor a participar da construção da história, a literatura como um jogo. Em seu novo livro o leitor encontrará também essa característica? Você já adiantou em seu blog que a narradora do romance deverá ser uma das mães de um soldado. Há algo no enredo que aponte para essa tentativa de cooptar o leitor a participar ativamente?
B.C.: Do blog para cá, as coisas mudaram. A mãe já não é narradora, mas uma entre outras personagens. O narrador, pela primeira vez nos meus livros (pelo menos do que eu me lembro), será onisciente e não-identificado. Normalmente, eu implico com narradores que são exteriores à história, que contam em terceira pessoa. Mas neste caso específico, como é um projeto que visa a adaptação cinematográfica, a narração em terceira pessoa é como o ponto de vista da câmera. A parte do jogo virá pelo fato de o romance ser formado por vários personagens, que são como peças de um grande quebra-cabeças feito de desencontros. É como se todos fizessem parte de uma mesma família desmembrada, e seguissem suas vidas sem ter consciência disso.
L.O.: Dostoiévski e Tchécov - para mencionar apenas dois autores que você cita no blog - fazem da cidade de São Petersburgo um local bem interessante para um trabalho de metalinguagem. E a metalinguagem é algo cada vez mais presente na contemporaneidade. Para você, isso é algo inevitável? A literatura é realmente a melhor matéria-prima para se construir ficção?
B.C.: Não sei se entendi bem a pergunta. Quanto menos evidente for a metalinguagem, melhor é a literatura. No meu último livro, O Sol se Põe em São Paulo, a literatura é tema. Mas é um livro de crise, uma espécie de romance-manifesto. Eu tinha que escrevê-lo. Mas não quero repetir. Estou tentando evitar toda e qualquer referência à literatura neste romance que se passa em São Petersburgo, cidade literária por excelência. No início, por causa das mães, ainda há uma citação de Anna Akhmátova, a poeta cujo filho e o marido foram presos durante os expurgos stalinistas. Mas acho que será só isso.
L.O.: Por último, em relação à viagem, o que você encontrou em São Petersburgo que não entrará na ficção? Quer dizer, que histórias gostaria de contar num bate-papo mas que não farão parte do livro?
B.C.: Foi só um mês. Foi uma experiência concentrada. De uma forma ou de outra, tudo vai entrar no livro.























Leandro, parabens pela entrevista, com esse que e’ um dos melhores escritores brasileiros da atualidade, na minha opiniao,
Denny
Segue uma ótima citação do Bernardo Carvalho que resolvi guardar para sempre:
“A desconfiança da minha literatura, se é que ela tem alguma coisa de política, é em relação à hipocrisia das construções que tentam se impor como absolutas. Não sei se acredito ou não em deus (não tenho nenhuma prova de que ele existe), mas certamente não acredito em nenhuma igreja.”
Bernardo Carvalho - Entrevista à edição N° 13 - maio 2006 - da revista EntreLivros