Parte I
Parte II
O monólogo de Molly Bloom interpretado por Angeline Ball em Bloom, uma adaptação para o cinema da obra de Joyce, dirigida por Sean Walsh em 2003.
Parte I
Parte II
O monólogo de Molly Bloom interpretado por Angeline Ball em Bloom, uma adaptação para o cinema da obra de Joyce, dirigida por Sean Walsh em 2003.
E no último evento desta odisséia, num tempo indeterminado, vemos Molly deitada em sua cama. O monólogo é talvez o trecho mais conhecido da obra de Joyce, citado por muitos (mesmo por pessoas que nunca leram todo o livro), como um dos mais inovadores textos da literatura. É um impacto para o leitor folhear o longo texto sem pontuação, fragmentado, intemporal, onde os pensamentos se ligam através de associações fortuitas, tal como faz a mente humana. No fim, a lembrança da primeira vez em que ela e Bloom fizeram amor.
“sim quando eu punha a rosa em minha cabeleira como as garotas andaluzas costumavam ou devo usar uma vermelha sim e como ele me beijou contra a muralha mourisca e eu pensei tão bem a ele como a outro e então eu pedi a ele com os meus olhos para pedir de novo sim e então ele me pediu quereria eu sim dizer sim minha flor da montanha e primeiro eu pus os meus braços em torno dele sim e eu puxei ele pra baixo pra mim para ele poder sentir meus peitos todos perfume sim o coração dele batia como louco e sim eu disse sim eu quero Sims.”
Duas da manhã e Bloom está agora com Stephen em sua casa, na rua Eccles, um símbolo perfeito para a Ítaca de Homero na Odisséia. Eles perderam a chave da casa e, como não querem acordar Molly, pulam a grade e entram pelos fundos. Bloom convida Stephen a morar com eles, mas ele recusa. Depois vão até o jardim onde urinam juntos. O texto é um dos mais engraçados do livro, com o enredo sendo apresentado parodicamente em forma de perguntas e respostas, como o exemplo abaixo nos mostra.
“Aceitou Bloom o convite para jantar feito então pelo filho e depois secundado pelo pai?
Muito agradecidamente, com grata apreciação, com sincera gratidão apreciativa, em apreciativamente grata sinceridade de pesar, declinou.”
Uma da manhã. Começa aqui a terceira e última parte da obra. Stephen e Bloom estão num abrigo de cocheiros bebendo café e pouco depois iniciam uma conversa com um marinheiro. Bloom fala do desentendimento no bar (no capítulo com referências ao Ciclope). É o encontro simbólico entre pai e filho que agora poderão ir em direção à Molly, a figurativa Penélope.
“- E qual é acaso seu nome?
Precisamente no mesmo momento o senhor Bloom tocou a ponta da bota do companheiro mas Stephen, aparentemente desconsiderando a instante pressão de um sector inesperado, respondeu:
- Dedalus.”
Meia-noite e os personagens Dedalus e Bloom estão numa farra no bordel de Bella Cohen. A referência da Odisséia é o trecho onde Circe transforma os homens de Ulisses em porcos. Na obra de Joyce, Circe é Bella Cohen e, ao invés dos companheiros, é Bloom que se ‘transforma’ e começa a ter alucinações, até que ele e Stephen são expulsos de lá. No fim do capítulo Stephen bêbado quase apanha de soldados. A polícia chega e Bloom contorna a situação.
“PRIMEIRO GUARDA: Profissão ou ocupação.
BLOOM: Bem, tenho uma actividade literária. Jornalista-autor. De facto estamos produzindo uma série de histórias premiadas de que sou o inventor, algo que é um caminho inteiramente novo. Tenho vínculos com a imprensa britânica e irlandesa. Se telefonar para…”

Dez da noite e estamos na National Maternity Hospital de Dublin. Um dos capítulos mais complexos da obra, onde praticamente não há ação física. Para entendermos o porquê de tantas digressões desconexas é preciso nos lembrarmos que Stephen está bêbado e por isso o fluxo de consciência escrito nessa parte é ainda mais complexo.
“Entrementes a perícia e paciência do físico provocara um feliz accouchement. Fora uma exaustão exaustiva tanto para a paciente como para o médico. Tudo o que a perícia cirúrgica pudera fazer foi feito e a brava mulher tinha ajudado virilmente. Tinha. Ela havia lutado a boa luta e agora estava muito muito feliz.”
Às oito da noite voltamos à Sandymount Strand (Stephen esteve lá às onze horas, lembram-se?), onde agora Bloom é seduzido por Gerty MacDowell. Gerty pensa num romance do passado, vê Bloom de longe e tem uma fantasia romântica com ele. Depois de uma queima de fogos, ela vai embora, mas antes se insinua levemente para Bloom. Somente depois disso é que Bloom percebe que ela é manca. Gerty neste episódio representa Nausícaa da Odisséia.
“Gerty teve uma idéia, uma manhazinha de amor. Ela enfiou a mão no bolso do lencinho e retirou a mecha e ondulou-a em resposta é claro que sem deixá-la cair e reenfiou-a de volta. Estaria ele longe demais para? Ela se levantou. Era a despedida? Não. Ela devia ir mas eles haveriam de se encontrar de novo, ali, e ela sonharia com isso até então, amanhã, com o seu sonho da tarde da véspera. Ela se retesou em toda a sua altura. Suas almas se encontraram num último olhar perlongado e os olhos que lhe atingiram o coração, cheios de um estranho brilho, pendiam extáticos de seu doce rosto qualflor. Ela entressorriu para ele debilmente, um doce sorriso perdão, um sorriso que beirava a lágrimas, então eles se separaram.”
No blog Amortescimento, Tuma fala de “O dia em que o romance morreu” e opina:
“Nesse Bloomsday, comemoramos a vinda ao mundo desse “Livro Azul inutilmente ilegível “. Ora, nada melhor para festejar um livro do que lê-lo. Vamos então dizer sim à verdade da vida humana e da arte e, quando te perguntarem se você quer ler o Ulisses, responder “yes i will Yes”.”
Em Ao Mirante, Nelson!, o divertido samba-enredo em homenagem ao Bloomsday. Leia o Apogeu e Glória de Leopold Bloom no Reino encantado de James Joyce, clicando aqui.
E o Milton Ribeiro, também posta sobre Joyce nesse Bloomsday. Para quem ainda se assusta com o livro, o conselho dele é bem válido:
“É sempre bom lembrar aos tementes a Joyce que Ulisses não é apenas aquele livro de erudição quase inalcançável que afasta algumas pessoas, o romance também é divertidíssimo e perfeitamente compreensível. As minúcias e a complexa teia de referências são importantes, mas podem permanecer semi-entendidas sem esfacelamento de sua essência. Prova de que o mais puro ludus nem sempre está associado à compreensão cabal.”
São dezessete horas e Bloom está no bar Barney Kiernan, onde vai se encontrar com Martin Cunningham. O paralelo com a Odisséia é o Ciclope, que na obra de Joyce é representado por um homem nacionalista que quase briga com Bloom por causa de um mal entendido. Segundo Edmund Wilson, “todas as banalidades de sua parlapatice patriótica aumentadas a proporções gigantescas”.
“- A Irlanda - fala Bloom. - Nasci aqui. A Irlanda. ”
Às dezesseis horas, frases e sílabas onomatopaicas invadem o texto da narrativa para representar a música no ambiente, que será muito importante mais à frente. O paralelo com a Odisséia é o episódio em que Ulisses foge do canto das sereias.
“Fffu! Óó!
Onze bronze de perto? Onde ouro de longe? Onde cascos?
Rrrpr. Craa. Craandl.
Então, não até então. Meu epripftáfio. Sê pfrscrito.
Feito.
Começar!”