
1 - O Continente - Tomo 1
Quando tinha cerca de vinte anos entrei numa livraria e comprei o primeiro volume de “O Tempo e o Vento”. Não sei exatamente porque, apenas dizia a mim mesmo que precisa ler Erico Verissimo. Foram momentos grandemente prazerosos de leitura e toda vez que olho os volumes na estante, sinto uma nostalgia deliciosa. Um encaixe perfeito de bons tempos e uma maravilhosa leitura.

2 - A Montanha Mágica
Trabalhava numa cidade distante cerca de 90 Km. Durante a viagem de ida, por ter que acordar bem cedo, geralmente aproveitava o tempo para dormir. Na volta à tarde, lia um pouco e dormia quando me sentia cansado. Com Thomas Mann a minha rotina foi destruída. Lia na ida e na volta e ainda sentia vontade de continuar a leitura no fim da viagem. Ainda me lembro da tradução via Google do diálogo em francês no meio da obra (uma tradução péssima, é verdade, mas que agora parece linda). O livro teve o poder de criar milhares de sinapses na minha cabeça e sentia vontade de falar dele o tempo todo.

3 - Auto-de-fé
Prestava vestibular para o curso de Letras da UFMG e lembro-me de esperar o início das provas com Canetti nas mãos. Fiquei deslumbrado com a perfeição que é este romance. O melhor meio que encontro para classificá-lo é dizer que se trata de um conto gigantesco - pois não há nada sobrando ali, tudo é essencial. Depois que iniciei o curso o livro ficou associado em minha memória a uma vitória pessoal.

4 - O Processo
Já havia lido “A Metamorfose” de Kafka e para mim não era nada demais. Tanto falavam de Kafka que me obriguei a comprar outro livro. Da primeira a última linha o autor me hipnotizou. A mistura de racionalidade e absurdo das situações evidenciavam para mim a genialidade do autor. Depois reli “A Metamorfose” e consegui ver coisas que não via antes.

5 - Grande Sertão - Veredas
Finalizava minha primeira graduação e achava as aulas péssimas (e de fato eram). A mais interessante - embora também ruim - era de Psicologia. Dentre os materiais disponibilizados por e-mail, certa vez a professora enviou um trecho do livro de Guimarães Rosa. Lembrei-me que anterior a este trecho, uma professora de Filosofia já havia citado a obra em sala. Não me lembro exatamente que trecho era, lembro-me apenas que o que li me impressionou de tal modo que no mesmo dia apanhei um exemplar na biblioteca e comecei a leitura.

6 - Sentimento do Mundo
Recém casado, minha esposa comprou o livro pois fora escolhido para um vestibular que ela iria prestar. Drummond foi o meu primeiro contato com a literatura adulta. Não me lembro bem, mas creio que tinha uns nove anos quando fui até a biblioteca pública de minha cidade e apanhei um livro qualquer dele emprestado. Quando li novamente Drummond essas memórias retornaram e fiquei pensando no menino que fui, um menino que, contrário à lógica do país, visitava semanalmente a biblioteca pública.

7 - Desonra
O último grande livro que li, a última obra-prima. Depois dele, li muito, claro. Li livros muito bons, livros que me prenderam, mas nenhum deles produziu a certeza de que estava lendo uma obra-prima como este livro de Coetzee. Dos livros que você acaba com a certeza de que irá levá-lo para o resto da vida e que um dia certamente irá relê-lo.
Encontrar uma caixa fechada em nossa porta de manhã, abri-la e descobrir dentro dela um livro novo, com aquela capa preguiçosa, que insiste em permanecer fechada, como se estivesse sendo acordada de um bom sono. Daí nossos dedos continuam a revistar a obra. O título é escrito em relevo? Então queremos percorrê-lo. A capa é dura? Damos algumas batidas com a ponta do indicador e escutamos o som oco produzido. A ordem é folheá-lo e escutar o som das folhas separando-se uma das outras e depois dos cadernos separando-se dos outros cadernos. O manuseio da obra faz subir um leve vento que carrega até nossas narinas o cheiro de novo do objeto. Enquanto isso, nossos olhos parecem hipnotizados, querem percorrê-lo todo, de uma só vez. E brilham.
Se comprar livros novos é uma de suas paixões, você sabe o que a descrição acima quer dizer. A variação se dá apenas no modo como o livro chega às suas mãos: se você comprou-o numa livraria, a primeira frase começará com você retirando-o duma sacola plástica ou de um belo embrulho. Mas o prazer que vem depois é o mesmo – ou às vezes maior (já vi alguns perderem o sono após a compra de um bom livro, por causa da felicidade). Mas em meio à infinidade de livros que habitam em nossa imaginária (ou também real) lista de desejos, nem sempre sabemos exatamente qual escolher. Eis então o grande problema: partindo da suposição que nossos recursos financeiros são limitados, que livro satisfará nosso desejo quando não sabemos exatamente que desejo é este?
A resposta rápida poderia nos levar a um equívoco, fazendo-nos igualar contentamento e satisfação. Vez por outra, aos que amam comprar livros, ocorre algo assim: após a compra, o livro é colocado na estante (talvez porque estamos lendo outro no momento) e depois completamente esquecido. Apesar do contentamento inicial da aquisição, percebemos que aquele não era o ‘momento’ para a leitura da obra. A aquisição, assim, não produz satisfação. Portanto alguns pontos devem permear nossas escolhas ao passear pelas prateleiras de livros (reais ou virtuais).
Primeiro acredito que a menos que você goste de apostar, adquirir lançamentos quase sempre se converte (no máximo) em um leve contentamento. O principal motivo é que logo que uma obra é lançada, muita propaganda é feita para que você adquira o produto. Assim, você não tem real idéia do que o livro é. A cada semana, um novo best-seller ‘completamente revolucionário’ é lançado e a grande maioria, no fim do mês, já é convertido no mais novo livro inútil de sua estante. Assim costumo privilegiar livros que estão na minha lista de desejos há mais tempo. Ligado a isso, embora reconheça ser bem difícil, procuro separar alguns aspectos estéticos e avaliá-los em separado. Por exemplo, uma boa capa é excelente, mas ser levado a comprar um livro completamente estranho somente por causa da capa é o caminho mais curto para a decepção. Aspectos estéticos servem apenas como ‘critério de desempate’ e separá-los antes de tomar uma decisão pode salvar-nos de comprar um livro que depois servirá apenas como apoio para os papéis da mesa.
Também ocorre, vez por outra, que adquirimos um livro maravilhoso que fica esquecido por muito tempo na estante. Aí, num belo dia, surge um ‘insight’, começamos a ler o livro e nos perguntamos por que se passou tanto tempo sem que apreciássemos seu maravilhoso conteúdo. Daí concluímos que um bom modo de satisfação é rever nossa estante e procurar desencalhar aquelas obras que num dado momento chamou tanto nossa atenção que acabamos por comprá-la. Numa época em que o dinheiro nos falta, esta pode ser uma ótima opção para se encontrar aquilo que não sabíamos que procurávamos.
A não ser que você tenha feito um curso de biblioteconomia, ou seja um bibliotecário daqueles que sabem de cor qualquer ISBN, organizar sua biblioteca causa sempre alguns inconvenientes. As sutilezas deste ato aparentemente comum para qualquer ser humano nem sempre são percebidas. O primeiro inconveniente (e mais óbvio) é a falta de espaço. Uma biblioteca é a prova clara de que dois corpos não ocupam simultaneamente o mesmo espaço. Sendo assim, sobrar livros sem prateleiras é quase um pré-requisito de qualquer biblioteca pessoal. E não se engane tentando colocar seu “Ulisses” à força numa prateleira lotada que não adianta, se não houver um espaço adequado ele ganhará vida e se transformará num gato que evita a bacia d’água. Portanto, o primeiro passo é a escolha roleta-russa: separar quais livros ganharão seu lugar na estante e quais serão confinados ao limbo de caixas ou armários. E não adianta, por mais que você saiba que já leu aquele “Trabalhadores do Mar” e que não pretende lê-lo novamente tão cedo, ele sempre vai te olhar com aquela cara de piedade pedindo para não ser ignorado. Uma tarefa, portanto, que exige um grande desapego e sangue frio.
Findada a primeira etapa, é preciso enquadrar os livros restantes em alguma ordem lógica (’lógica’ = que faça algum sentido pelo menos para você, esqueça as definições da palavra que são dadas pelos dicionários). Se a biblioteca for compartilhada o problema aumenta exponencialmente. Seu pai quer os livros organizados em ordem cronológica a partir da data de aquisição, sua mãe quer que os livros estejam organizados por cor para ‘ficar mais bonitinho’, seu irmão quer todos os livros de ficção científica juntos num lugar de destaque (afinal TODO mundo gosta de Isaac Asimov, não é?) e sua esposa, bem, sua esposa tem uma ordem própria que até hoje ninguém entende mas que deixa o ambiente mais ‘clean’. Daí não existe outra forma senão disputar cada milímetro da estante no palitinho.
Mas, a fim de reduzir a complexidade do problema, trataremos do caso simples: sua estante é realmente só sua e você é quem manda nela. Sendo assim, qual é o melhor critério? O mais comum é ordenar seus livros por sobrenome do autor. O problema poderia ser solucionado assim se não fosse o inconveniente de você duas semanas depois encasquetar de querer logo um livro de Edwin A. Abbott. Todos os seus livros da estante terão que andar para aparecer um lugar, o que aumenta (e muito!) a probabilidade de você deixá-lo lá no balcão da loja, só de pensar no trabalho que isso acarretará. Pois bem, você imagina então que a solução será separar primeiro por literatura dos países e depois ordenar por autor. Daí, literatura húngara, por exemplo, que você lê menos, poderia estar no princípio da estante e as literaturas que você lê mais seriam colocadas no fim, certo? Errado. Esta solução abre espaço para os ‘enchedores de saco’ que freqüentam sua casa fiquem martelando em sua cabeça que Vladimir Nabokov deveria estar entre os americanos e não entre os russos. E os ‘enchedores de saco mor’ nem comentarão, quando você der as costas vai lá a mãozinha trocar os livros de lugar. Fora aqueles desinformados que sempre perguntarão: ‘Que diabo de ordem é essa?!?’.
Depois de tudo isso e você finalmente encontrando o método ideal para organização deste baralho de páginas, eis que vem o inevitável: é preciso mudar de apartamento! Todos os seus livros deverão ser transportados! Quando você menos espera, os responsáveis apanharão seus livros e os colocarão em qualquer caixa, sem qualquer ordem. E aí, no novo apartamento, a discussão sobre como organizar tudo nas estantes começa novamente…
Todos conhecem a história, como uma ou outra pequena variação: um belo dia, por razões variadas, a pessoa apanha o livro, começa a folheá-lo, inicia a leitura e pronto! esse livro é responsável por uma revolução nos hábitos do indivíduo. Antigamente ele gastava horas em frente à tv, lia o jornal do dia, saía com a turma após o serviço para tomar chope quase todos os dias. Agora ele só pensa numa coisa - o maldito livro. Falta cinco minutos para começar a aula? Ele abre o livro. Está em pé no ônibus lotado? Surge um contorcionista entre os passageiros, que consegue segurar a pasta, segurar o livro e ainda não cair com a freada do motorista. Sobra um tempo no horário do almoço? Troca o passeio pelas ruas pela combinação banco da praça + livro.
Em alguns casos a mudança de hábitos desaparece ao fim da última página, mas esses são casos raros. Normalmente, um livro puxa outro, que puxa outro e quando a pessoa se dá conta ela já é um transeunte literário. Ele passa por livros e livros, grifa textos, recomenda alguns aos antigos parceiros do chope e sempre está onde eles estão. O primeiro ambiente da nova rotina é quase sempre a biblioteca. Antigamente ele se aproximava pensando no trabalho a ser realizado, ou em ir conferir a resposta a uma dúvida rápida. Agora, ele é quase enxotado dali pelos funcionários na hora de fechar. Da biblioteca à livraria é um passo. Os vendedores se estapeiam na porta para decidir quem vai atendê-lo. Ele passa prateleira por prateleira e vai recolhendo aquela promoção imperdível, que muitas vezes nem será lida. Com o surgimento das lojas virtuais a coisa mudou um pouco e ao invés de prateleiras, agora ficamos horas fazendo buscas e mais buscas entre as diversas opções do catálogo de cada site. Infelizmente, logo logo o transeunte literário descobre que seus desejos são ilimitados, mas seus recursos não. A nova opção que surge agora, portanto, são os sebos. Daí o transeunte literário transforma o livro numa moeda. Seus olhos vêem não mais um livro mas sim ‘uma raridade’, ‘uma oportunidade’ ou simplesmente um livro que deve valer uns 2 Sidney Sheldon. A linha entre um mero transeunte literário e um vigilante de sebos é tênue.
Claro que esta é apenas uma simplificação do processo. Existem transeuntes literários das mais variadas espécies: os supersticiosos (que não começam a ler um Poe numa sexta-feira 13), os esfomeados (que lêem até Paulo Coelho sem as páginas finais), os degustadores (que cheiram e experimentam algumas páginas antes de começar de fato a leitura), etc. Mas a principal divisão que podemos citar é a dos transeuntes literários fiéis e os infiéis. Geralmente o transeunte começa fiel e lê somente um livro de cada vez. Fica afeiçoado a ele e promete fidelidade até a última página. Com o passar dos anos, porém, essa relação se torna um pouco monótona e ele decide experimentar novas sensações. Aos poucos vai desenvolvendo um affair por outras obras, enquanto lê a obra do momento. É aquela velha história: estou lendo um catatauzão, mas para não cansar, no banheiro eu leio um livro de contos, por exemplo. É inevitável, quem trai uma vez, trai duas, três… O transeunte literário passa a ler várias obras ao mesmo tempo. Em sua pasta ou bolsa ele tem sempre disponível uma variedade para que seus anseios sejam sempre realizados.
Os transeuntes literários são vencedores. Não se envergonham de assumir sua paixão por livros, apesar de muitos os discriminarem. São tachados muitas vezes com rótulos diversos e estereotipados, como pessoas tacanhas e chatas. Mas eles não estão nem aí. Continuam sua rotina, trilhando entre as letras.
Os alfarrábios, carinhosamente apelidados no Brasil de “sebos”, são os lugares mais frequentados pelo leitor voraz. O efeito de uma visita a um sebo é semelhante ao efeito causado por uma visita de sua esposa a um shopping qualquer. Psicologicamente o leitor é aliviado de suas tensões do dia a dia. Economicamente, ele é afligido por uma conta corrente cada vez mais pobre e uma fatura de cartão de crédito cada vez mais alta. Mas ele sempre justifica seus atos de aparente loucura com descrições mirabolantes de aquisições raras. “Este aqui eu procurei durante anos” ou “Por este preço eu não conseguiria encontrar em lugar nenhum” são as respostas prontas já formuladas pelo seu cérebro para justificar os constantes problemas econômicos.
Numa simplificação rasteira, o frequentador de sebos é um comprador compulsivo. Analisando de uma forma mais detalhada, porém, podemos dizer que ele é o cruzamento de um caça-talentos com um arqueólogo. Um headhunter literário. Afinal, é necessário saber não só que obras são importantes e que obras são lixo, mas também que valor pagar por cada uma para sair no lucro. Além disso, é preciso muita disposição e peregrinação para desenterrar uma obra valiosa de uma pilha de livros, ácaros e pó. Quando o sebo monta uma “banquinha” de ofertas a procura beira à baixaria. O vigilante profissional chafurda tudo e é capaz de lutar 12 rounds atrás de um Balzac escondido entre as traças.
Os mais profissionais já têm um mapa mental de sebos a percorrer. Ao tentar encontrar alguma obra, sabe exatamente em qual deles procurar e já supõem que preço irá pagar. Por suas freqüentes visitas, o vigilante muitas vezes se torna amigo do dono do sebo. Assim como o bêbado afoga suas mágoas num bar e conta suas angústias ao garçom, o vigilante, nos seus momentos de desespero, confidencia suas decepções ao atendente. Conta pela enésima vez sobre aquela primeira edição de “Corpo de Baile” que ele teve em suas mãos por uma ninharia e que nunca mais encontrou.
Quando a grana está curta, o vigilante de sebo não se entrega: visita-os assim mesmo. O duro é encontrar justamente aquilo que ele procura a anos e não ter dinheiro para levá-lo. Nestes casos, o vigilante abandona toda a ética e valores e aplica um dos mais sórdidos golpes-de-sebo: troca o livro de lugar, a fim de escondê-lo. Tal tática gera a paranóia-do-sebo: o vigilante vasculha até a última prateleira de ufologia para ter certeza de que o que procura não será achado naquele sebo.
Ver um vigilante com seu rosto transformado, falando sozinho, com um livro na mão, para muitos, é algo incompreensível. Os não-vigilantes não conseguem imaginar o que há de tão especial naquele livro caindo aos pedaços e fedorento. Não compreendem porque muitos trocam um livro novinho duma livraria por um livro velho, mas garimpado dum sebo. Vocês vigilantes que estão me lendo agora, sabem como esta sensação é maravilhosa.
Todo mundo costuma dizer que brasileiro adora uma fila. Assim, seguindo essa máxima, pode-se dizer que todo bom leitor brasileiro possui sua própria fila de livros a serem lidos em breve. Regida por uma lógica pessoal (muitas vezes nem tão lógica assim) a fila serve para anestesiarmos nossa consciência da culpa por ter comprado aquele livro e extrapolado mais uma vez a conta do cartão de crédito. Serve também para salvar-nos de situações embaraçosas. Quando perguntam se você já leu o livro tal de Fulano, sai quase que automaticamente a resposta: “Não, mas já tá fila”. Independente do que dizem as outras pessoas, a fila é, portanto, um mal necessário.
Um dos habitats preferidos da fila e muitas vezes essencial para sua sobrevivência é o criado-mudo. Todo bom leitor, que possui uma fila de livros respeitável, possui livros bem próximos à cama, mesmo aqueles leitores que não têm o hábito de ler antes de dormir. Em alguns casos de compulsividade extrema, o criado-mudo desaparece na pilha de livros da fila, transformando-se num criado-estante-mudo. Há ainda aqueles que apesar da compulsividade, não sentem nenhum apego aos seus livros e portanto não são de muita frescura. Em tais casos geralmente, além do criado-estante-mudo, o dono da fila usa o chão ao redor da cama para ter a fila sempre por perto, não importando em, ao acordar, vez por outra, pisar num ou noutro livro.
Claro que há ainda algumas variações de fila. Por exemplo, é muito comum a fila de livros para entrar na fila. Devido às limitações do ambiente (tamanho do quarto, kgf que o criado-mudo agüenta ou algum cão mastigador), a fila não pode crescer infinitamente. Em tais casos é necessário estabelecer critérios para que um livro possa entrar na fila. Com isso, ordenamos mentalmente que livros entrarão na fila quando surgir uma vaga.
Mesmo com todos estes artifícios, a fila nem sempre é respeitada, isso porque o mercado editorial segue uma lógica diferente da nossa. Daí, em meio ao tira-e-põe da fila e da fila da fila, lemos uma notícia de lançamento da obra mais esperado do ano. Pronto! Toda a nossa lógica foi pras cucuias e malandramente passamos a obra para o início da fila. Aquele Veríssimo que estava na frente reclama, mas o que podemos fazer? Vai ter que esperar mais uma vez na fila, ou seja, surge daí então a mais nova fila: a fila dos que já foram para a fila.
Apesar de tudo isso, ainda encontramos tempo para ir até uma livraria ou sebo e encontrarmos algo que nos agrada. Com recursos escassos, muitas vezes anotamos o tal livro desejado e criamos a fila dos livros a serem comprados. Bom, pelo menos para essa fila, a informática e a internet são de grande ajuda e para não nos esquecermos jamais de uma ou outra obra, criamos um banco de dados com a relação dos livros da fila. Os menos exigentes criam um arquivo .txt sem nenhum detalhe especial. Já os mais organizados, tendem a criar simbologias próprias e catalogar sistematicamente em tabelas os mais desejados. Alguns criam até um sistema para ter grandes recursos de pesquisa à mão e conseguir saber, por exemplo, que livro está a mais tempo na fila. Em outros casos, o leitor vai até a sua loja virtual preferida e cria sua lista de livros desejados lá mesmo. Eu mesmo possuo duas: uma no Submarino e outra na Amazon. Tudo muito rápido e prático.
Descrever tais hábitos faz você compreender que é uma pessoa perfeitamente normal, apesar de todas essas excentricidades de leitor voraz alucinado e viciado por qualquer letra que apareça à sua frente. Muitos ao seu redor provavelmente não compreenderão plenamente o que faz você ter tais hábitos. Não se aflija. Nem sempre é possível compreender. Na maior parte das vezes, nós mesmos não conseguimos explicar. A única coisa que sabemos é que amamos nossos livros!