João Paulo Cuenca e o Amores Expressos

Categoria: Entrevistas

João Paulo CuencaContinuando as entrevistas sobre o Amores Expressos, nessa semana conversei com João Paulo Cuenca, autor dos romances Corpo Presente e O Dia Mastroianni. Cuenca foi um dos quatro escritores brasileiros selecionados pelo Bogotá 39, um projeto que no ano passado selecionou os melhores escritores latino-americanos com menos de 39 anos.

Leandro Oliveira: Seus dois romances são bem diferentes de muitas maneiras. Somente para citar uma diferença que é marcante em minha opinião: enquanto Corpo Presente tem um tom mais sério, a ironia e o humor dão o tom em O Dia Mastroianni. O que o leitor encontrará no novo livro? Você o aproximaria mais ao seu primeiro ou segundo romance?

João Paulo: Apesar de terem humores opostos, como você percebeu, há terreno em comum entre esses dois primeiros romances, quase como se eles fossem faces diferentes de uma mesma moeda. Poderia destacar o jogo de metalinguagem, entre outros fatores. Mas o romance do Japão, como o estou chamando, é uma guinada em outra direção. Acho que ele é radicalmente diferente dos anteriores, que já são bastante diferentes entre si, especialmente no uso da linguagem. E isso não me preocupa, ao contrário, me estimula.

L.O.:Você cita em seu blog algumas leituras sobre a cultura japonesa e diz que, apesar de interessantes, não o faziam “sequer arranhar a superfície dessa sociedade complexa”. Depois daquele post, você conseguiu encontrar em alguma leitura, algo que ampliasse sua visão dessa cultura? Acha que conseguirá em seu livro fazer o leitor, citando suas palavras, ao menos arranhar a complexidade cultural do país?

J.P.: Certamente o meu objetivo não é esse. Se assim fosse, me enfurnaria em bibliotecas e escreveria um ensaio, não um romance. Sobre o romance, penso que se o leitor sair tão desorientado da experiência como eu, já me dou por satisfeito.

L.O.: Você escreveu bastante em seu blog sobre diversos aspectos culturais de Tóquio. Eu apostaria que você foi talvez o escritor que mais falou sobre a cidade que visitou. Além dos textos, há também boas fotografias e vídeos. Não pensou em, a partir desse material, publicar um livro de crônicas? O que é mais fácil: escrever crônicas ou ficção sobre a cidade?

J.P.: É muito mais fácil escrever crônicas porque elas são produto direto de experiências e olhares muito recentes, da mesma semana ou dia em que se escreve. Não preciso ficcionalizar muito, e normalmente não penso numa estrutura literária ou num estudo de linguagem, coisa que durante a escrita de um romance acontece. Sobre um livro de crônicas, tenho cogitado isso, sim. Mas seria um livro com uma seleta geral – publico crônica em jornal há cinco anos.

L.O.: Quanto aos documentários do projeto, já é possível adiantar algo? Qual foi a orientação do diretor? O que esse registro procurará abordar em relação à literatura?

J.P.: Quem poderia falar melhor sobre os docs são o Tadeu Jungle e a Estela Renner, que conduzem essa parte do projeto. Minha experiência, como entrevistado, foi a melhor possível. Acredito que o registro enfocou o processo criativo de cada um, dentro do tema proposto (escrever uma história de amor naquela cidade). Mas acredito que as entrevistas tenham rendido muito mais. Desconfio que escritores sozinhos em cidades desconhecidas possam se tornar pessoas bastante suscetíveis, o que é ótimo para uma entrevista.

L.O.: Por último (e saindo um pouco do assunto Amores Expressos), seu livro O Dia Mastroianni alterna o relato do passeio dos protagonistas com trechos de uma voz crítica, que julga todo o tempo elementos do texto. Existe nessa voz argumentos que são usados por parte da crítica literária contemporânea (escatologia num texto literário é algo ruim, para citar apenas um exemplo). Como você enxerga a crítica literária contemporânea? Está satisfeito com a receptividade da sua obra? Ou é algo que o preocupa?

J.P.: A crítica foi generosa comigo desde o início, o que talvez tenha me corrompido para sempre. Mas, como disse a outro jornalista que me fez pergunta parecida recentemente, estou com uma preguiça olímpica de entrar nesse tema. Acho que já o visitei na ficção, como você bem apontou, e essa visita fazia sentido no contexto daquele romance - que pode ser lido como uma sátira a um pretenso aspirante a escritor ou poeta. Mais não digo, porque fazer uma exegese da crítica não é o meu papel. O meu papel nesse jogo é escrever, e escrever melhor, simplesmente. A crítica é que deve se ocupar de mim, se assim quiser.


Daniel Galera e o Amores Expressos

Categoria: Entrevistas

Daniel GaleraEssa semana conversei com Daniel Galera, autor de Dentes Guardados, Até o Dia em Que o Cão Morreu - cuja história foi adaptada para o cinema por Beto Brant e Renato Ciasca em Cão sem Dono - e Mãos de Cavalo, livro que concorreu ao prêmio Bravo!. Nas cinco perguntas, além do Amores Expressos, o escritor expressa seu ponto de vista sobre a classificação de escritor/blogueiro que freqüentemente acompanha seu perfil e como ele vê esse momento da nossa literatura.

Leandro Oliveira: Uma pergunta que parece ser inevitável a todos os autores que participaram do Amores Expressos é sobre como foi a viagem. Em seu caso, porém, observei algumas piadas do tipo “gaúcho ir à Buenos Aires não é viagem”. Essa aproximação geográfica foi uma vantagem para a construção da ficção? Sentiu-se em casa para escrever sua história? Acha que há conflitos que são interessantes justamente por causa dessa mistura de proximidade e distância cultural?

Daniel Galera: Os piadistas têm razão, um gaúcho em Buenos Aires se sente em casa. Logo nos primeiros dias eu já pensava que estar na capital argentina era como estar em Porto Alegre, só que um pouco melhor e mais barato. No início tentei perseguir a estranheza que me fora negada pelos organizadores (eu teria escolhido Rússia), buscando excentricidades na conversa dos taxistas ou nas ruazinhas mais improváveis dos bairros tradicionais, mas percebi que minha busca não era essa. Buenos Aires foi um exílio para mim. Me proporcionou o afastamento necessário para que eu encontrasse uma estranheza de outra natureza, a estranheza da história que pretendia escrever. Meu romance não precisaria se passar em Buenos Aires. Se eu lutasse contra isso, se me preocupasse em retratar aquela cidade, me perderia das minhas idéias. Então fui colocando meus personagens e cenas naquele lugar, deixando a cidade tornar-se cenário, oferecer cor e detalhes à trama que construí. Não explorei as semelhanças do argentino com o gaúcho porque minha protagonista é paulista. Buenos Aires é para ela o mesmo que foi para mim durante aquele mês: exílio. Mas se minha busca nesse exílio era escrever um romance, para ela é algo bem diverso: fugir de um romance e mergulhar numa outra obsessão muito pessoal, do tipo que eu próprio jamais poderia viver.

L.O.: Mãos de Cavalo teve uma recepção positiva por parte da crítica. Pessoalmente, achei muito interessante o tratamento dado a um tema que parecia surrado demais na literatura nacional: a violência urbana. Além do romance, a adaptação para o cinema de Até o Dia em Que o Cão Morreu recebeu diversos elogios, o que indiretamente acaba chamando atenção para o escritor. Isso, de algum modo, cria certa expectativa em relação a esse livro? Acha que é possível escrever sem se preocupar muito com a recepção que a obra terá? O fato de o Amores Expressos ser um projeto coletivo dissipa a atenção a um autor individual?

D.G.: Em primeiro lugar, peço licença para discordar de uma coisa: não acho que o Mãos de Cavalo trate de violência urbana. Trata, penso eu, da violência típica da juventude, de guris crescendo e medindo suas forças, e também da violência estética, como a dos filmes e quadrinhos, e sua influência na imaginação desse personagem em particular. No mais, sinto sim que há uma alta expectativa em relação ao meu próximo romance, mas ao mesmo tempo a boa recepção do Mãos de Cavalo me dá segurança para fazer o que eu quiser criativamente e assumir a responsabilidade perante o resultado, seja qual for. Em outras palavras, não busco satisfazer expectativas de leitores do Mãos de Cavalo no novo livro. Há até mesmo um prazer mórbido na perspectiva de frustrá-las em nome de outros temas e formas que me interessavam explorar dessa vez. A incerteza da recepção dá medo por um lado, mas mantém um certo contexto de aventura imprevisível que experimentei ao publicar meus livros anteriores - um risco que, no meu caso, faz parte o prazer de escrever. Como diz meu amigo Guilherme Pilla, “o cagaço move”.

L.O.: Você já admitiu sua preferência por novos autores de língua inglesa. Seu trabalho de tradutor, inclusive, reflete essa preferência, com traduções para o português de obras de escritores como Jonathan Safran Foer e Benjamin Kunkel. Isso, de algum modo, é visível em seu novo livro? Que elementos da ficção desses autores contemporâneos mais lhe agradam?

D.G.: Não creio que nenhum autor americano ou inglês de nova geração influiu na concepção desse novo romance. Dois livros tiveram esse papel: um é O negro dorso do tempo, do Javier Marías, e outro é um relato autobiográfico de um colonizador da Terra do Fogo, que li em Buenos Aires. Gosto do Foer e do Kunkel, mas não tenho vontade de escrever como nenhum deles. Minha tríade de adoração no momento é David Foster Wallace, Cormac McCarthy e Philip Roth, mas o livro que estou terminando agora não tem nada a ver com a obra deles. De todos os livros que escrevi, acho que esse novo é o mais livre de influências. Fiz algumas opções arriscadas, como temperar certas partes com elementos de thriller de mistério. Por um lado, a história me ocorreu a partir de conversas que tive com amigas. Por outro, há uma reflexão um pouco irônica sobre confusões que autores e leitores contemporâneos cultivam sobre a relação entre vida e obra.

L.O.: Saindo do tema Amores Expressos, parece que em toda entrevista te perguntam sobre o CardosOnline e a Livros do Mal. Aquela frase “Daniel Galera começou escrevendo em blogs” também é muito recorrente quando falam de você. Isso te incomoda de algum modo? Acha que o rótulo “blogueiro” tornou-se algo pejorativo? Ou é perfeitamente possível referir-se a si mesmo como “escritor e blogueiro”?

D.G.: Não sou mais blogueiro do que qualquer outro ser humano vivo que tem ou já teve um blog sobre qualquer assunto. Blog é um formato de publicação de uso genérico, e chamar alguém de “blogueiro” é como definir alguém como “telefonista” porque usa o telefone para se comunicar com as pessoas (bem, há os blogueiros, sim, pessoas que vivem e trabalham em função de seus blogs, mas não é o caso da maioria). A influência da internet na vida literária é um tema sério e pertinente, mas as perguntas que me fazem a esse respeito parecem ecos infinitos de um mesmo clichê apressado que me força a repetir à beira da loucura coisas como “blog é um formato de publicação de uso genérico”. Tem gente por aí que publica ficção regularmente em seus blogs, e a esses a discussão da literatura de blogs pode fazer sentido, mas nunca foi meu caso. Não comecei escrevendo em blogs, nunca publiquei ficção neles. Publiquei meus primeiros contos num fanzine por e-mail, muito antes de existirem blogs. Usei blogs para publicar coisas como “Olá amigos, escutei uma banda legal ontem, baixem aí, toma o link”. Às vezes me chamam de “músico” também, coisa que não sou, a não ser que qualquer um que toque um pouco de violão e tenha participado de uma banda no fim de semana seja músico. Não me ofende ser chamado nem de blogueiro nem de músico, são duas atividades honradas que muito contribuem para a riqueza da vida humana, mas no meu caso não é verdade. “Escritor” me basta, e ainda assim sempre convém desconfiar

L.O.: Por último, que avaliação você faz da literatura contemporânea nacional? Acha que essa mescla de escritores de diversas gerações e tão diferentes entre si que o projeto Amores Expressos reuniu aponta para algo positivo? Mostrar essa geração através dos documentários traz algum benefício para a literatura?

D.G.: Fiquemos apenas com: gente pra dedéu escrevendo, gente demais se referindo à literatura como Literatura (parece besteira, mas a inicial maiúscula é traiçoeira) e gente demais contentando-se em “ser escritor” numa época em que isso tornou-se banal, como evidencia-se no próprio fato de haver tanta gente escrevendo. Ou seja, igualzinho a todo o resto do planeta Terra. A literatura mudou, pro bem e pro mal. Tá cheio de tiozinho chiando, tá cheio de gurizão aproveitando, e o resultado disso só poderá ser avaliado daqui a uns vinte anos por um crítico que ainda não surgiu. Talento? Na minha opinião, ele está à solta por aí, sim. Vozes cantando na gritaria. Estou escutando algumas agora mesmo. Mas para encontrá-las, precisamos esquecer dos autores - dos bares em que bebem, dos projetos de que participam (ou não) e da irrelevante crônica de seus comportamentos -e dar uma olhadinha séria nos livros (ou blogs, ou sites, ou revistas, ou fanzines, ou podcasts). Refletir e falar sobre texto, e tal. Seria lindo.


Bernardo Carvalho e o Amores Expressos

Categoria: Entrevistas

Bernardo CarvalhoConversei brevemente com o escritor e jornalista Bernardo Carvalho, que viajou para São Petersburgo pelo projeto Amores Expressos. O escritor é autor de livros como Aberração, Onze, Os Bêbados e os Sonâmbulos, Teatro, As Iniciais, Medo de Sade, Nove Noites, Mongólia e O Sol se Põe em São Paulo. Traduzido para várias línguas, o autor recebeu prêmios importantes como o Portugal Telecom, o Jabuti e o prêmio da Associação Paulista dos Críticos de Arte.

Leandro Oliveira: Em seus três últimos romances (Nove Noites, Mongólia e O Sol se Põe em São Paulo) o protagonista é alguém que está em trânsito, circulando por culturas diferentes e muitas vezes entrando em choque com essa cultura. Assim, parece que o projeto Amores Expressos se encaixa bem com seu próprio projeto literário. Lendo os textos em seu blog que faz parte do projeto, parece que não faltaram choques culturais. Que conflitos observados na Rússia serão explorados pela nova obra?

Bernardo Carvalho: Em meio às leituras que precederam a viagem a São Petersburgo, fiquei muito impressionado quando descobri as associações das mães dos soldados. São associações (a principal fica em Moscou) criadas por mães que queriam salvar os filhos não só da guerra da Tchetchênia, uma guerra totalmente fora de controle, mas da violência inerente ao próprio serviço militar. Há uma tradição de trotes violentos contra os recrutas no Exército russo, mas isso ganhou proporções absurdas desde o fim do comunismo, quando boa parte das antigas Forças Armadas soviéticas foi à falência. As relações internas se barbarizaram, houve casos de recrutas mutilados, assassinados em condições nunca reveladas etc. Como o romance tinha que ser uma história de amor, pensei no amor incondicional, absoluto, que é o amor de mãe, e decidi fazer desses conflitos da guerra e da violência que aflora com a derrocada do comunismo o centro do romance.

L.O.: Você já participou de um projeto parecido, quando foi convidado pelo André Jorge, da editora portuguesa Cotovia, para viajar à Mongolia e escrever um livro. O que mudou de lá para cá? De algum modo a experiência do projeto da Cotovia tornou mais fácil escrever para o projeto Amores Expressos?

B.C.: Cada projeto é um. É sempre uma novidade e um risco. Mas acho que neste agora eu tenho mais consciência do risco do que eu tinha no caso do Mongólia. E isso não facilita as coisas.

L.O.: Você já disse preferir escrever livros que incentivam o leitor a participar da construção da história, a literatura como um jogo. Em seu novo livro o leitor encontrará também essa característica? Você já adiantou em seu blog que a narradora do romance deverá ser uma das mães de um soldado. Há algo no enredo que aponte para essa tentativa de cooptar o leitor a participar ativamente?

B.C.: Do blog para cá, as coisas mudaram. A mãe já não é narradora, mas uma entre outras personagens. O narrador, pela primeira vez nos meus livros (pelo menos do que eu me lembro), será onisciente e não-identificado. Normalmente, eu implico com narradores que são exteriores à história, que contam em terceira pessoa. Mas neste caso específico, como é um projeto que visa a adaptação cinematográfica, a narração em terceira pessoa é como o ponto de vista da câmera. A parte do jogo virá pelo fato de o romance ser formado por vários personagens, que são como peças de um grande quebra-cabeças feito de desencontros. É como se todos fizessem parte de uma mesma família desmembrada, e seguissem suas vidas sem ter consciência disso.

L.O.: Dostoiévski e Tchécov - para mencionar apenas dois autores que você cita no blog - fazem da cidade de São Petersburgo um local bem interessante para um trabalho de metalinguagem. E a metalinguagem é algo cada vez mais presente na contemporaneidade. Para você, isso é algo inevitável? A literatura é realmente a melhor matéria-prima para se construir ficção?

B.C.: Não sei se entendi bem a pergunta. Quanto menos evidente for a metalinguagem, melhor é a literatura. No meu último livro, O Sol se Põe em São Paulo, a literatura é tema. Mas é um livro de crise, uma espécie de romance-manifesto. Eu tinha que escrevê-lo. Mas não quero repetir. Estou tentando evitar toda e qualquer referência à literatura neste romance que se passa em São Petersburgo, cidade literária por excelência. No início, por causa das mães, ainda há uma citação de Anna Akhmátova, a poeta cujo filho e o marido foram presos durante os expurgos stalinistas. Mas acho que será só isso.

L.O.: Por último, em relação à viagem, o que você encontrou em São Petersburgo que não entrará na ficção? Quer dizer, que histórias gostaria de contar num bate-papo mas que não farão parte do livro?

B.C.: Foi só um mês. Foi uma experiência concentrada. De uma forma ou de outra, tudo vai entrar no livro.


André de Leones e o Amores Expressos

Categoria: Entrevistas

O goiano André de Leones é um dos escritores que participaram do projeto Amores Expressos. Seu livro Hoje Está um Dia Morto venceu o Prêmio Sesc de Literatura 2005 e foi publicado pela editora Record. Conversei brevemente com ele sobre o projeto Amores Expressos - e naturalmente o livro que escreveu para este projeto -, além de seu novo livro de contos Paz na Terra Entre os Monstros que deverá ser lançado também neste ano.

Leandro: Em primeiro lugar, a pergunta inevitável: como será o livro que sairá pelo projeto Amores Expressos? Qual é o título e como será a história?

André: O título é Todos os lugares estranhos. Caso a Companhia das Letras aceite publicá-lo, pode ser que o título mude no processo de edição. Estou sempre aberto a sugestões.

Trata-se de um romance com várias histórias e personagens com maior ou menor ligação entre si. É fragmentado, mas todas as histórias têm algo em comum: são recomeços. Não por acaso, o livro começa com um rompimento. Nesse nível, o que me interessou foi abordar e desenvolver personagens que, após relacionamentos que deram errado, não fugissem de novas relações, não se escondessem.

Além disso, há desde personagens na faixa dos vinte anos até uma senhora que sofre uma dor de cotovelo avassaladora aos setenta. Isso também me interessou: narrar encontros, desencontros e reencontros amorosos (e sexuais) de pessoas bem mais velhas do que eu, mas sem afetação, sem apelação, mas também sem condescendência ou coisa parecida.

O livro tem muito sexo, o que não vai espantar quem leu o meu primeiro romance. Aliás, esse tipo de coisa não devia espantar mais ninguém. Vão dizer que lembra Bukowski, mas eu nunca li Bukowski.

Estruturalmente, o romance é dividido em três partes. A primeira e a terceira são narradas em terceira pessoa; uma (a primeira) apresenta e a outra (a terceira) meio que se despede dos personagens. A segunda parte é narrada por várias primeiras pessoas e cada um de seus capítulos tem uma forma específica: há um capítulo em forma de blog, outro em forma de roteiro de cinema, outro na forma de uma troca de e-mails etc. Isso não é gratuito, pois sempre tem a ver, de alguma forma, com o personagem que está narrando.

Em termos bem gerais, é isso.

L: Você foi o único escritor que ficou no Brasil. Como foi a viagem? O que foi para a ficção e o que da viagem não coube na ficção?

A: A viagem foi bem tranqüila. Nos primeiros dias, circulei um bocado por São Paulo, tateando, procurando por lugares e pessoas que me dissessem alguma coisa, até me fixar nas imediações da rua Augusta. Eu estava hospedado ali perto e transformei alguns dos bares da região (Ibotirama, Charme) em postos de observação, por assim dizer. Passei muito tempo nesses lugares e decidi que uma das histórias de amor que eu narraria seria a de um casal de lésbicas (a essa altura, eu já tinha decidido que o livro seria fragmentado e com várias histórias correndo paralelas). Vi e ouvi muita coisa, e inventei muito mais a partir disso.

Muita coisa não coube na ficção. A periferia, por exemplo. No começo, cheguei a imaginar uma relação entre pessoas de classes sociais diferentes, mas não tenho bagagem para criar e desenvolver uma trama dessas. Sou de classe média. A periferia já tem vozes contando as suas histórias, e não só por meio da literatura.

L: O projeto Amores Expressos reuniu características que assustam muitos escritores: um tema definido, um prazo determinado, um trabalho em paralelo (o documentário). Apesar disso, você foi um dos primeiros a entregar o livro. Não se sentiu pressionado por tudo isso? Ou foi como outro livro que já escreveu? Havia algo já pronto no início do projeto?

A: No começo, eu me preocupei com o prazo. Em condições normais, escrevo muito lentamente. Assim, cheguei a pensar que não conseguiria entregar o livro dentro do prazo, mas decidi fazer o possível. Sempre respeito esse tipo de coisa, e achei que parte da experiência estava em justamente escrever um bom livro dentro do prazo estabelecido.

Fui para São Paulo com algumas coisas esboçadas, idéias soltas, inícios de possíveis histórias, mas acabei não usando nada disso. A cidade me levou em outras direções, felizmente (os esboços, idéias soltas e inícios eram bem ruins).

Ademais, o romance saiu exatamente como eu queria. O prazo e o tema não me atrapalharam, portanto. O João Paulo Cuenca, coordenador editorial do projeto, gostou do resultado e disse que eu me apropriei do tema, que eu o tornei algo meu. Era um outro medo que eu tinha, de que o romance não tivesse a minha cara, parecesse algo forçado. Felizmente (para mim e, espero, para os editores e para os leitores), saiu como eu queria e tem tudo a ver comigo e com o que eu já vinha fazendo.

L: Com respeito ao documentário, muitos vêem de forma negativa a exposição da imagem do escritor, preferem fugir de atividades que não envolvem o ato de escrever. Acha que isso é algo inevitável? É positivo para a divulgação da literatura?

A: Acho que é positivo para a divulgação da literatura. Os documentários (dezessete, um por autor) serão exibidos na televisão e chegarão a muita gente que nunca ouviu falar do projeto, que nunca ouviu falar de mim e dos outros autores. Acho que isso não é ruim.

Por outro lado, o mercado editorial não permite que a esmagadora maioria dos escritores viva dos direitos autorais. Assim, para sobreviver é preciso recorrer a outras atividades que não envolvem diretamente o ato de escrever (palestras, por exemplo). O problema é quando essas “outras atividades” acabam se tornando mais importantes (ou visíveis) do que a literatura em si. É necessário encarar os documentários do projeto, por exemplo, como coisas acessórias. Os livros é que são importantes. Tudo deve convergir para eles. Do contrário, a coisa se torna um circo.

L: Por último, Paz na Terra Entre os Monstros, seu novo livro de contos, também sairá nesse ano, não é? Foram escritos em paralelo? Você programou uma espécie de rotina de trabalho ou ter dois livros prontos num mesmo ano foi algo circunstancial?

A: Comecei a trabalhar em Paz na Terra Entre os Monstros em meados de 2000 e o dei como terminado em julho de 2006, quando enviei os originais para a Record. Fui convidado para o Amores Expressos em janeiro de 2007. Logo os livros não foram escritos em paralelo. O meu primeiro romance (Hoje Está um Dia Morto, Record), sim, foi escrito em paralelo a alguns dos contos de Paz na Terra entre os monstros, durante os anos de 2004 e 2005.

Depois de entregar os originais de Todos os Lugares Estranhos, voltei a Paz na Terra Entre os Monstros e o revisei em conjunto com o meu editor Flávio Izhaki. Alguns contos saíram, outros entraram, tudo foi retrabalhado e o livro ainda passará por duas revisões antes de ser lançado, em novembro deste ano. Caso a Companhia das Letras aprove a publicação de Todos os Lugares Estranhos, imagino que o trabalho de edição não será menos minucioso. Assim espero, pelo menos.


Longas Entrevistas

Categoria: Entrevistas

Pesquisando no Google Video encontramos várias entrevistas memoráveis. Se tiverem tempo e a banda for boa, aí vão cinco links:
1 - David Foster Wallace
2 - David Foster Wallace, Mark Leyner e Jonathan Franzen
3 - Ian McEwan
4 - Mais uma do Ian McEwan
5 - Jonathan Safran Foer

Enjoy!