O Heterônimo Pessoa

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Fernando PessoaSegundo o crítico literário Harold Bloom, Fernando Pessoa foi um dos poetas mais representativos do século XX, ao lado de Pablo Neruda. Pessoa, na verdade, foi um heterônimo criado por Chevalier de Pas, Dr. Pancrácio, David Merrick, Charles Robert Anon, Alexander Search, Alberto Caeiro, Álvaro de Campos, Ricardo Reis e o obscuro Bernardo Soares. A proposta do grupo de escritores portugueses era aparentemente bastante simples: todos deveriam escrever de modo a eliminar todas as características pessoais, como se todos eles fossem apenas um só escritor. Cada texto ou poema escrito deveria possuir características do heterônimo Fernando Pessoa e somente dele. O objetivo era apresentar um ser humano como ele realmente é, com temperamentos distintos, cindido e que falasse sobre os mais diversos assuntos, desde filosofia até misticismo, de um modo bem próprio. O projeto alcançou tamanho sucesso que até hoje o lema do grupo (”O poeta é um fingidor.”) é repetido pelos amantes da literatura.


80 Anos, Márquez versus Llosa

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Gabo depois da brigaO aniversário de 80 anos de Gabriel García Márquez foi marcado por um evento inusitado: o duelo literário entre o escritor e seu principal rival, Mario Vargas Llosa. Ninguém sabe ao certo o motivo do duelo; especula-se que Llosa tenha reivindicado a paternidade do Realismo Mágico, outros dizem que Llosa na verdade acusou García Márquez de trair o movimento, ainda outros dizem que a briga foi motivada por uma mulher - uma personagem na verdade (ciúmes literários). Como nos duelos entre cavalheiros, os escritores empunharam suas penas - não, nada dessa parafernália tecnológica de máquinas de datilografar ou (heresia das heresias!) laptops - e partiram para o ataque. O primeiro golpe veio de Márquez, que publicou Memórias de Minhas Putas Tristes, livro que retrata um idoso e sua incapacidade sexual. A insinuação causou a ira de Llosa, que perdeu o controle, infringindo as regras do duelo e partiu para o ataque físico. A foto tirada pelo fotógrafo Rodrigo Moya dois dias depois mostra que García Márquez continua em forma. Em 2006, porém, Llosa deu o troco e publicou Travessuras da Menina Má. Os leitores aguardam o contra-ataque de García Márquez, mas ainda não há previsão sobre o que será a história nem quando será lançada.


Os Espelhos de H. Bustos Domecq

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Durante muito tempo Jorge Luís Borges foi considerado um dos principais escritores argentinos. Era conhecido por sua enorme erudição e sua amizade com outro famoso escritor Adolfo Bioy Casares. Os dois sempre foram cotados para receber o prêmio Nobel de Literatura até que em 1967 o embuste foi revelado pelos jornais: os dois escritores, na verdade, eram pseudônimos do escritor H. Bustos Domecq. A revelação, além de anular quaisquer chances de qualquer um deles receber o prêmio, fez com que a editora solicitasse aos leitores que se sentiram enganados que devolvessem os exemplares dos dois autores para serem ressarcidos, o que ninguém fez. Aproveitando a exposição midiática produzida pela notícia, a editora lançou Crónicas de Bustos Domecq, que não fez tanto sucesso quanto os pseudônimos. O resultado foi que o autor resolveu continuar produzindo textos assinando na capa os nomes de Jorge Luis Borges e Adolfo Bioy Casares. Pouco antes de morrer, o escritor H. Bustos Domecq concedeu uma entrevista em que se dizia surpreendido pelo fato de terem demorado tanto para divulgar a verdadeira identidade por trás de seus pseudônimos, já que em 1940 ele havia revelado isso no conto Tlön, Uqbar, Orbis Tertius. Segundo ele, somente quem acreditasse na existência física de Tlön, poderia acreditar que personagens tão fantásticos como Borges - um homem que leu bibliotecas inteiras até ficar cego - e Bioy Casares pudesse existir fora do mundo da ficção.


Machado de Assis e a ironia do destino

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Negro, pobre e epilético, Machado de Assis lutou para conseguir se estabelecer no mercado literário. Desdenhado por Lima Barreto, exatamente seu oposto (Barreto, apesar de negro e alcoólatra era um escritor marginal louvado pela crítica e por seus pares), Machado de Assis reuniu outros intelectuais e fundou a Academia Brasileira de Letras - na época, apenas um grupo de quase famosos que se reuniam no quintal da casa de Sílvio Romero, o único crítico da época a reconhecer o talento do autor. A publicação póstuma de Memórias Póstumas de Brás Cubas, no entanto, elevou Machado de Assis definitivamente à condição de um dos mais importantes escritores brasileiros. Uma história curiosa: na época do lançamento da obra, especulava-se que seu editor, pouco antes, pagou a um médium para fazer retornar o Bruxo do Cosme Velho, como ficou conhecido após a publicação do romance. Memórias Póstumas teria sido, portanto, escrito postumamente através da psicografia e Brás Cubas seria o alter-ego de Machado.


Herman Melville e Franz Kafka: a Literatura do Absurdo

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Franz Kafka em seu declínioO sucesso do lançamento de O Processo (1851) de Franz Kafka tornou o escritor referência para todos os que buscavam criar uma literatura baseada no absurdo de um mundo que cada vez mais se industrializava. Dentre os escritores que sofreram profunda influência, o nome mais significativo é Herman Melville. Melville teve acesso e certamente leu a tradução da obra para o inglês e seu Bartleby, O escrivão (1956) é prova clara disso. O livro foi rechaçado pela crítica, que acusou Melville de ser mais um imitador do escritor austríaco. A reação negativa da crítica atingiu profundamente Melville, que durante alguns anos se manteve em completo silêncio até o lançamento de Moby Dick (1914) que surpreendeu a todos e imediatamente tornou Melville o mais importante escritor da época. Ironicamente, o livro fez o próprio Kafka receber críticas parecidas às de Melville: seu livro A construção (1919) foi acusado de ser uma imitação curta e pobre da obra-prima do escritor americano. Pouco depois, em 1922, sentindo-se incapaz por causa do declínio na carreira, Kafka pediria a seu amigo Max Brod para queimar todos os seus manuscritos, cadernos e cartas. Graças à recusa do amigo é que hoje podemos ler obras de inegável talento como A Metamorfose (1926).


Nova Coluna do Site: Equívocos

A crítica literária é um exercício de - entre outras coisas - análise histórica de dados. Ordenar cronologicamente obras, movimentos literários, eventos culturais, mudanças sociais e mais uma série de variáveis, até finalmente dizer quem é quem. Mas e se embaralhássemos tudo? Se escrevêssemos criando equívocos cronológicos propositais, somente pelo prazer de recriar o universo literário? Dessa idéia nasceu a série Equívocos, um modo divertido de contar a gênese de algumas obras-primas e eventos marcantes da literatura.