“Chegam caixotes de livros pelo correio, chegam revistas literárias estrangeiras e eu pasmado: parece que não há quem não escreva neste mundo, romances sobre romances sobre romances, poesia, ensaio, biografia, contos, memória, o raio que o parta. E depois estudam-se uns aos outros, têm ideias, opinam, dissertam acerca de influências, presenças, ausências, ritmos, estruturas, aproximam nomes, afastam-nos, cagam postas, falam, compreendem, etiquetam, classificam, arrumam e tudo isto me dá um enjoo só comparável ao enjoo que me dão os jornais, não há quem não reflicta, não ache, não julgue, não decida, azedos, simpáticos, pretensiosos, analíticos, cultos, afirmativos, jocosos, o que tem esta tralha a ver com a vida, o que tem esta tralha a ver comigo, não me interessa, passem muito bem, adeuzinho e lá ficam eles a resmungar, a gesticular, a sussurrar, a medir. Não era assim que eu imaginava quando comecei, não me interessa, não quero. Interessam-me os meus amigos”
António Lobo Antunes, em sua crônica na Revista Visão.
“Eu não quero nada com o jornalismo. Não escrevo notícias. As notícias duram um dia. Eu quero escrever algo que se possa ler daqui a 30 anos, com o mesmo interesse.”
Gay Talese, um dos convidados para a FLIP 2009, numa bela entrevista para a Ípsilon. Seu novo livro, “Vida de Escritor”, já pode ser encontrado por aqui.
Acaba de sair a programação da Flip 2009. Estarei no evento postando informações sobre algumas mesas. A programação completa abaixo:
Quarta-feira, 01 de julho
19h
Conferência de Abertura
Davi Arrigucci Junior
21h30
Show de abertura
Quinta-feira, 02 de julho
10h
Mesa 1
Novos Traços
Fábio Moon, Gabriel Bá, Rafael Coutinho, Rafael Grampá, mediação de Joca Reiners Terron
11h45
Mesa 2
Separações
Domingos de Oliveira e Rodrigo Lacerda
15h
Mesa 3
Verdades inventadas
Arnaldo Bloch, Sérgio Rodrigues e Tatiana Salem Levy
17h
Mesa 4
China no divã
Ma Jian e Xinran:
19h
Mesa 5
Deus um delírio
Richard Dawkins
Sexta-feira, 03 de julho
10h
Mesa 6
Evocação de um poeta
Angélica Freitas, Heitor Ferraz e Eucanaã Ferraz
11h45
Mesa 7
A névoa da guerra
Atiq Rahimi e Bernardo Carvalho
15h
Mesa 8
Sentidos da transgressão
Edna O’Brien e Catherine Millet
17h
Mesa 9
O eu profundo e os outros eus
Cristovão Tezza e Mario Bellatin com mediação de Joca Reiners Terron
19h
Mesa 10
Seqüências brasileiras
Chico Buarque e Milton Hatoum
Sábado, 04 de julho
10h
Mesa 11
O dissonante século XX
Alex Ross
11h45
Mesa 12
Entre quatro paredes
Grégoire Bouillier e Sophie Calle
15h
Mesa 13
Segredos de família
Anne Enright e Tobias Wolff
17h
Mesa 14
Fama e anonimato
Gay Talese conversa com Mario Sergio Conti
19h
Mesa 15
Escrever é preciso
António Lobo Antunes
Domingo, 05 de julho
11h45
Mesa 16
O futuro da América
Simon Schama conversa com Lilia Moritz Schwarcz
15h
Mesa 17
Antologia Pessoal
Edson Nery da Fonseca e Zuenir Ventura
17h
Mesa 18
Livros de Cabeceira
“Pynchon é um dos mestres da prosa inglesa da segunda metade do século XX. A meu ver, sua principal contribuição à ficção de nosso tempo foi a incorporação e recriação poética da linguagem degradada da televisão, dos desenhos animados, das revistas em quadrinhos, dos chavões, do kitsch que nos cerca por todos os lados. Pynchon não tem medo do mau gosto, do excesso, da bobeira, da vulgaridade, que em sua ficção coexistem com erudição e sutileza.”
Para quem ainda não sabe o por quê de ler algum livro de Thomas Pynchon, eu diria que a síntese acima é perfeita. O trecho é parte da breve, mas excelente, entrevista de Paulo Henriques Britto, um dos melhores tradutores do país, ao também excelente blog “ângulo”, de Marco Polli. Faltou apenas dizer quando sai “Against the Day”. A entrevista completa pode ser lida aqui.
Conforme notícia do jornal La Vanguardia cinco anos após a morte do escritor chileno Roberto Bolaño, começam a aparecer manuscritos inéditos. Foram encontrados poemas inéditos, diários, o que acreditam ser a sexta parte de 2666 e dois romances intitulados Diorama e Los sinsabores del verdadero policía o Asesinos de Sonora. A notícia, em espanhol, pode ser lida aqui.
Parece que Roth é realmente o mais prolífico autor americano. Seu próximo livro, cujo título é “The Humbling”, já está agendado para sair e conta a história de um velho ator que perdeu sua magia, seu talento e sua confiança. Mas mesmo antes do livro ganhar as prateleiras, vem outro por aí: “Nemesis”. Segundo o jornal inglês The Guardian, nele Roth retorna à ficção histórica, como fez em “Complô Contra a América”. O enredo gira em torno de uma epidemia de poliomielite durante o verão de 1944 e os efeitos sobre a comunidade de Newark. Aqui no Brasil, aguardamos ainda a tradução de “Indignation” e parece que não faltará trabalho para o tradutor Paulo Henriques Britto.
André de Leones, um dos autores escolhidos para participar do projeto Amores Expressos, escreveu sobre o tratamento que tem recebido da Companhia das Letras, editora que publicou o primeiro volume da coleção e que deverá publicar apenas os escritores que já são publicados por ela (pelo que parece, escritores que não têm livros publicados pela editora terão que bater de porta em porta para que o trabalho seja publicado, independente da qualidade da obra). Segundo ele, em quase dois anos, ninguém da editora sequer ligou para informá-lo sobre o assunto. Uma notícia ruim para quem aguardava uma coleção diversificada, que pudesse apresentar um momento interessante da literatura nacional.
O texto completo de André de Leones pode ser lido aqui.
O escritor francês Jean-Marie Gustave Le Clézio é o vencedor do Prêmio Nobel de Literatura 2008. Segundo a Academia Sueca Le Clézio é “author of new departures, poetic adventure and sensual ecstasy”. Pelo menos três de suas obras estão disponíveis em português: O Peixe Dourado, A Quarentena e O Africano.

“Boa parte das certezas que carrego comigo acabam se revelando totalmente equivocadas e ilusórias. Vou dar como exemplo uma de minhas convicções automáticas: tudo à minha volta respalda a crença profunda de que eu sou o centro absoluto do universo, de que sou a pessoa mais real, mais vital e essencial a viver hoje. Raramente mencionamos esse egocentrismo natural e básico, pois parece socialmente repulsivo, mas no fundo ele é familiar a todos nós. Ele faz parte de nossa configuração padrão, vem impresso em nossos circuitos ao nascermos.”
O trecho acima é parte da coluna Despedida da revista piauí de outubro. O resto do texto “A liberdade de ver os outros” pode ser lido aqui.
“Think for a second—what if all the infinitely dense and shifting worlds of stuff inside you every moment of your life turned out now to be somehow fully open and expressible afterward, after what you think of as you has died, because what if afterward now each moment itself is an infinite sea or span or passage of time in which to express it or convey it, and you don’t even need any organized English, you can as they say open the door and be in anyone else’s room in all your own multiform forms and ideas and facets?”
David Foster Wallace – “Good Old Neon”
O escritor David Foster Wallace foi encontrado morto aos 46 anos. A característica que mais admirava em seus textos era sua capacidade de digressão que impunha à nossa percepção detalhes e minúcias de um modo admiravelmente excessivo. Suas notas de pé de paginas – páginas sim, pois essas notas costumavam ser gigantescas – davam a sensação de que estávamos avançando por uma rede de textos dentro de um livro. Um de seus melhores textos está publicado em português, o conto “A Pessoa Deprimida” do livro “Breves Entrevistas com Homens Hediondos”. A notícia do suicídio do escritor me fará lê-lo novamente. Mas não hoje.