À medida que avanço estudando Literatura em sua teoria, percebo um comportamento muito comum da Academia e que por vezes me vejo imitando, como uma imposição involuntária: a desconsideração de nossa impressão primeira sobre um texto literário. De um modo muito peculiar, parece que o exercício de pensar uma obra além de suas qualidades estéticas vem produzindo uma tendência a nos imaginarmos sempre como alguém que, num primeiro momento, não conseguiu encontrar a chave para avaliar um romance. Aquilo que lemos e achamos ruim deve se manter em suspenso até que analisemos cada um dos muitos aspectos sobre o que diz a tradição literária, o momento histórico em que foi concebida a obra, o que permeia a vida do autor, etc. Nunca a primeira impressão nos dá uma certeza, levamo-la em conta apenas como um indício para o julgamento posterior, de modo que quase sempre passamos a dizer que a obra “falhou” nesse ou naquele aspecto, desrespeitando o que diríamos se não fossem esses filtros adquiridos pela análise de fatores externos ao texto. Diríamos talvez que o livro é “ruim” ou “muito ruim”, assim taxativo, num impulso ególatra do leitor em dizer que uma vez que suas expectativas não foram atendidas, a avaliação somente pode ser a mais negativa possível.
Um exemplo prático disso é quando lemos algo, não gostamos e posteriormente uma análise mais detalhada encontra uma série de referências utilizadas na obra. O fato de haver referências que não foram observadas durante a primeira leitura podem ser relevantes para sua compreensão e apreciação. No entanto e no caso dessas referências existirem e não melhorarem em nada o que lemos? O fato de o escritor fazer mau uso em seu texto de referências a outras obras boa parte das vezes não é nem levado em conta. Costuma-se dizer apenas que a obra “conversa” com a tradição literária ao utilizar esta ou aquela referência, mesmo que essas referências pareçam ser apenas utilizadas de maneira circunstancial. Aquilo que temos como medida avaliativa perde força num debate, algumas vezes somos acusados de ignorância ao não levar em conta os autores que influenciaram o escritor a escrever daquele modo. De modo que somos, involuntariamente, movidos a amenizar nossas críticas, relativizar nossas impressões negativas.
Não defendo aqui a apreciação estética como critério maior e sublime na avaliação de uma obra. Um debate sobre literatura com argumentos do tipo “gosto mais disso” e “não gosto disso” é tão infrutífero como a falta de debate. Porém, é sintomático o fato de que sua relativização quase sempre seja defendida como um meio de se chegar a um juízo de valor mais justo. Recentemente, o caderno Prosa e Verso do jornal “O Globo” elaborou um especial sobre a crítica literária de hoje no Brasil e uma preocupação sobre sua continuidade se mostrou evidente. O que vemos às vezes é que aquilo que realmente importa – se um crítico gostou ou não gostou de uma obra e o porquê – fica tão escamoteado no texto, que muitas vezes uma resenha mais atrapalha do que ajuda o leitor a ter uma idéia do que se trata o livro.
Talvez o único modo de escapar a essa tendência envolva refletir sinceramente naquilo que nos atrai e no que consideramos ser boa ficção, buscando encontrar alguns parâmetros norteadores do que seja boa literatura. Por serem pessoais, muitos desses parâmetros poderão causar discordância ao serem expressos. Algumas vezes também, poderá parecer contraditório afirmar gostar de algo que viole alguns desses parâmetros, mas essas contradições são aceitáveis na medida que são fruto de nossa educação (ou falta de), do enquadramento que buscamos encontrar na literatura. Me incomoda não haver uma receita prática para objetivar nossos julgamentos e extrair deles nossos próprios parâmetros de avaliação, assim de imediato. Pessoalmente tenho tentado um modo que ainda não tem se mostrado de todo eficaz ou prática, mas que na falta de qualquer outro me faz seguir um norte ao discutir. Vou tentar posteriormente falar mais a respeito. Por hora é preciso defender essa necessidade de julgamentos mais incisivos, julgamentos que normalmente levam a um esclarecimento acerca das direções que parecem ser mais promissoras a serem seguidas. Claro que tudo isso pode estar errado e podem não fazer sentido algum para outros. Mas o que realmente importa é que, como leitores, sejamos sempre fiéis a nós mesmos.
O caderno de literatura do jornal O Globo de sábado trouxe como tema principal a discussão sobre a crítica literária hoje em nosso país. Somente o fato de um grande jornal estampar na capa de seu caderno de literatura o assunto já chama atenção. Afinal, o que está acontecendo com a crítica literária? Há realmente uma crise? E se há, por quê? À parte do que já foi publicado no jornal nos ótimos textos – cito especialmente os textos da Cláudia Nina e do meu amigo Antonio Marcos Pereira, que achei os mais pertinentes – pondero ainda um pouco mais, especialmente sobre a crítica publicada em revistas e jornais.
É sintomática a sensação de que tudo que lemos é positivo ou neutro em relação às obras que são apresentadas pelos veículos mais populares de divulgação da literatura. Parece haver um zeitgeist, de tom conciliador, entre os próprios escritores, que estão cada vez mais conversando entre seus pares, reafirmando qualidades e imprimindo lampejos sobre aquilo que já está suficientemente iluminado. Uma atitude que parece ter contaminado o que é publicado nos jornais e revistas, por resenhistas e críticos. Quer dizer, pra que comprar três ou quatro jornais e ler em suas páginas elogios a obras que, antes de serem publicadas, já foram suficientemente elogiadas? Como exemplo recente, cito o caso da nova obra de Milton Hatoum, a novela Órfãos do Eldorado, livro que antes de seu lançamento, já era elogiado pelo crítico Daniel Piza e que depois foi unanimidade em todos os cadernos de literatura dos principais jornais. Embora tenha gostado da obra, algo me incomodou. Será que há apenas qualidades na obra de Hatoum? Ou será isso um problema, uma busca por uma posição confortável, um lugar onde sua face fique devidamente protegida? É isso uma característica exclusiva de nosso tempo?
A crítica literária sempre foi uma atividade vinculada a certos obstáculos, que parecem se acentuar hoje em dia, num tempo caracterizado pelo excesso de informação e exíguo espaço para a literatura que rivaliza com novas mídias, da TV aos games e a internet. O primeiro problema – e talvez também o mais citado - é o tal distanciamento necessário a uma avaliação. É especialmente atual um trecho de O Caminho de Guermantes, em que o narrador fala que, as obras extraordinárias - “verdadeiramente belas” nas palavras do personagem - são as que nos devem decepcionar à primeira vista, “porque na coleção de nossas idéias não há nenhuma que corresponda a uma impressão individual”, trocando em miúdos, obras que seguem o fluxo temporal de rejeição-aceitação-admiração. O próprio Proust provou de suas palavras ao ter o primeiro volume de sua obra-prima rejeitada para publicação.
Embora a crítica sempre tenha se deparado com essa limitação para compreensão de certas obras, tornou-se quase unânime a opinião de que devemos falar somente daquilo que encontre correspondência em nosso próprio tempo ou ponto de vista, correspondência essa que seria um sinal de qualidade literária. Uma base fraca que sustenta o pensamento cristalizado de que a avaliação correta surge naturalmente com o passar dos anos. Num terreno assim, é fácil emborcar qualquer esforço intelectual para tentar compreender aquilo que não nos parece imediatamente relevante, afinal, se somente a leitura de obras que julgamos importantes, num tempo em que a publicação do imperdível é diária, exige todo o nosso tempo, que dizer se tentássemos direcionar nosso olhar também àquilo que não nos diz nada num primeiro instante?
Para desfazer toda lógica desse raciocínio, basta lembrar de textos hoje clássicos do crítico literário Edmund Wilson, sobre obras dificílimas para uma avaliação no momento de seu lançamento, como o próprio Em Busca do Tempo Perdido, de Proust ou Ulisses, de James Joyce. O exemplo serve para desconstruir essa imagem de crítica vinculada ao tempo (lembre-se de incluir nessa imagem a desculpa básica de que aquilo que é relevante de um modo ou de outro perdurará através dos tempos), mas o que na verdade deve ser combatido é essa imagem de crítica igual à avaliação acertada sobre alguma obra. O bom texto crítico é muito mais do que uma simples avaliação. Serve para ampliar a visão do leitor, por mostrar caminhos que talvez não estejam facilmente acessíveis e não sejam imediatamente discerníveis. Levam, portanto, a uma elevação de expectativas (evito aqui a expressão “aprimoramento do leitor”, por ser um conceito discutível, mas é exatamente nisso que acredito). Crítica é mais que uma avaliação, crítica é a defesa de um ponto de vista por meio de argumentos claros. Se a avaliação será a mesma daqui a dez, vinte ou cem anos, pouco importa. O texto de Sílvio Romero se referindo a Machado de Assis como “o mais pernicioso enganador” que o diga.
O que nos leva ao segundo e o terceiro problemas: poucos escritores admitiriam que há críticos hoje com perspicácia semelhante a de Edmund Wilson e muitos críticos não se sentem confortáveis em errar em suas avaliações. Talvez por isso as reações agressivas aos que tentam romper o consenso. O escritor muitas vezes se sente ofendido quando alguém diz que todo o tempo que ele perdeu, todos os cabelos que arrancou para construir sua obra, são irrelevantes para a literatura. E, algo não menos comum, críticos que evitam o diálogo com autores, com se toda defesa da obra ou questionamento de critérios utilizados fosse um contra-ataque. Daí, o objetivo de se buscar a compreensão artística daquilo que é produzido em nosso tempo dilui-se.
Pensando exclusivamente nos textos críticos que negam o valor de certas obras, existem outros problemas. E se um livro não nos agrada ao ponto de abandoná-lo, é correto criticá-lo? E se não nos agradou, mas ainda não conseguimos discernir bem o que falha ali, é possível dizer isso sem cair no achismo do ‘apenas ruim’? A crítica eficiente funciona apenas ao utilizar um tom combativo? Ao mesmo tempo, como tentar esclarecer a recepção negativa a uma obra sem utilizar o tom conciliador, do ‘apesar de’ ou o ‘existe algo bom’ na ruindade? Um texto crítico elaborado propositalmente para conter lacunas que seriam preenchidos por outros – leitores ou críticos – é visto como ruim. Para muitos, o papel do crítico é dizer exatamente tudo, mesmo que um texto incompleto pudesse trazer questionamentos adequados que servissem como pontes para idéias de novos textos.
Aos envolvidos em produzir a literatura, criticá-la ou divulgá-la, cabe a responsabilidade de fixação deste momento artístico através do que é publicado e das análises realizadas daquilo que chamamos de literatura contemporânea.
Manchetes dos cadernos de literatura dos principais jornais do Brasil hoje:
Estado de Minas, “O homem que quis ser o Brasil”, sobre Mário de Andrade
O Globo - “O Modernista Prudente”, sobre Mário de Andrade
Estado de São Paulo - “Mário de Andrade, escritor das vanguardas, em nova edição”
Folha de São Paulo - “Reedições propõem Mário definitivo”
O problema não é falar sobre um autor que ninguém mais lê - Mário de Andrade é um escritor muito importante - , mas o que não sai da minha cabeça é por que todos os cadernos literários dizem a mesma coisa? Apesar dos jornais de papel venderem cada vez menos, por que as redações dos principais jornais do país produzem o mesmo enlatado semana após semana? Será possível que não existem mais editores de cultura capazes de fazer um caderno de literatura realmente interessante? E aqueles que escrevem tentando fugir do óbvio, vão pra onde?
Como sobreviver em debates literários pela internet:
1 - Faça uma lista de autores e críticos literários reconhecidos como clássicos e fundamentais. Dê preferência aos que não foram traduzidos em português ou àqueles cujas obras são raras de serem encontradas por aqui.
2 - Faça outra lista de citações de cada autor e crítico. Novamente, dê preferência às que não estão em português. Se for em latim, ainda melhor. As em português devem ser excessivamente obscuras, mas com um vocabulário que evidencie erudição.
3 - Separe as frases por assunto para que possam ser facilmente acessadas. Se não conseguir, navegue por sites e blogs para descobrir que expressões são comuns e eleja quais frases se enquadrariam ali.
4 - Ao utilizar a caixa de comentários dos sites e blogs, sempre ataque. Nada de propor questões ou parecer hesitante. Mostre estar sempre certo em tudo que diz. Cite os autores da primeira lista e reforce suas certezas com frases da segunda. Por exemplo, redija frases como “evidentemente o Brasil é muito ignorante e não leu Mendelssohn Heïgen-Bahn que prova o que digo quando me refiro ao nativus omnis proba de orbis na obra Essays of Music Literary”
5 - Se algum outro leitor discordar de você, humilhe-o. Primeiro elegantemente, sugerindo que ele não leu o suficiente para sequer respirar perto de você. Se houver algum erro ortográfico, invalide o argumento dizendo que alguém com uma escrita tão ruim não merece resposta. Caso ele ainda insista, seja agressivo.
6 - Caso outros leitores apóiem o ponto de vista contrário, escreva comentários na caixa utilizando pseudônimos que, obviamente, apóiam sua opinião. Para que não fique tão evidente que é você mesmo, use web proxies.
7 - Se algo que escreveu foi completamente equivocado (por exemplo, você disse que Machado de Assis escreveu Iracema), diga que se trata de uma ironia e reclame que as pessoas são burras demais para perceber isso.
8 - Se nada disso der certo, puxe o saco do dono do blog.
9 - Se ainda assim não der certo, abra você mesmo um blog obscuro chamando a todos de facistas-nazistas-pseudo-intelectuais-iletrados e coloque um link para ele na caixa de comentários. Utilize um pseudônimo que indique que sua missão é ‘revelar’ a verdade, claro.
O jornal Valor Econômico publicou uma matéria dando o retrato do mercado editorial em 2007 e falando sobre as apostas das principais editoras para o ano de 2008. As notícias não poderiam ser melhores. O que se viu foi um crescimento significativo no volume de vendas, resultando com isso num aumento de faturamento mesmo com o preço de capa do livro praticamente estagnado. O faturamento da editora Objetiva cresceu 22%, a Ediouro 50%, Companhia das Letras e Record, 6% e 4% respectivamente. O aumento faz com que as editoras planejem aumentar a tiragem média das obras. Se em anos anteriores ouvíamos falar sempre da diminuição do mercado de livros no Brasil, o ano de 2007 parece apontar para uma virada e o clima é de otimismo.
Se economicamente a situação está muito boa, culturalmente não se pode dizer o mesmo. Apesar dos bons lançamentos, continua-se a reclamar da falta de debate e discussão sobre literatura e o ano de 2007 não trouxe nenhuma novidade. O espaço que a literatura consegue na mídia impressa continua escasso, com os jornais publicando semanalmente cadernos de literatura reduzidíssimos como no ano anterior. Se nos lembrarmos que o último exemplar da revista Entrelivros foi para as bancas em dezembro, chegamos a conclusão que a situação piorou um pouco mais. A falta de espaço para a literatura na mídia impressa tem feito com que ocorra uma migraçao do público para a internet, que é não somente um bom veículo para divulgação e acesso à informação, mas também um ponto de encontro de leitores interessados pela literatura. Na teoria, tudo muito bom, mas na prática não é o que ocorre.
O cenário visto em 2007 na internet difere muito pouco dos outros anos: agressividade e falta de educação nas caixas de comentários, pessoas tentando provar que leram e sabem mais que qualquer outro e nenhuma questão relevante sendo abordada. O que mais se discute não é a literatura, mas assuntos periféricos - basta lembrar que praticamente a única discussão que se viu foi o projeto Amores Expressos, por causa da possibilidade dele ser beneficiado com recursos através da lei Rouanet. Dá para se contar nos dedos de uma mão os sites e blogs sobre literatura que tem algum poder para fazer repercutir opiniões.
Como mudar isso? Não há uma fórmula fácil, mas em todas as contas, entram os leitores. O convite à mudança passa por se aprimorarem, tornarem-se melhores, capazes de perceber qualidades e defeitos naquilo que lêem e expressar adequadamente seu ponto de vista. Falta reconhecer que ler, mesmo sendo uma atividade prazerosa, exige esforços. O primeiro e mais evidente é o esforço em despender tempo na leitura. Mas os esforços posteriores, que envolvem a análise e percepção de uma obra, dificilmente são levados em conta. Não se contentar, portanto, em gostar ou não de algo, de achar empolgante ou chato um livro, mas procurar refletir sobre que características causam tais efeitos. Principalmente, educar-se. A literatura se alimenta da própria literatura. Quanto mais se lê, melhor a visão daquilo que chamamos de tradição literária. Não há como esperar um debate literário onde circulam boas idéias e pontos de vista se as pessoas que participam não os possuem. Para quem gosta de literatura, fazer com que essa posição em relação à leitura se dissemine junto com os livros é a grande meta para que 2008 seja um ano melhor. E é o convite que faço aos leitores deste blog.
Melhores de 2007
Eis que chegamos ao fim de 2007 e como manda a tradição, é hora de fazer um balanço e relembrar o que foi destaque:
1 - Traduções
A rapidez com que algumas traduções chegaram ao país, revelando uma qualidade cada vez maior de nossas editoras, foi o grande destaque do ano. Apesar disso, o inevitável resultado é abrir mão de uma revisão mais cuidadosa das traduções. Com isso, o desafio para o próximo ano talvez será encontrar o equilíbrio adequado entre a necessidade de rapidez nas traduções e o quanto do processo pode ser eliminado sem que haja queda na qualidade dos textos. Certamente ninguém sente saudades do tempo em que os grandes lançamentos internacionais demoravam cinco anos ou mais para chegar traduzidos às mãos dos leitores, no entanto, é razoável que o leitor continue esperando que uma tradução seja reconhecida por sua capacidade de transmitir adequadamente o texto original. Esse foi o ano em que essa relação entre tempo e qualidade aproximou-se muito do ideal e pode ser que melhore ainda mais no próximo ano.
2 - Editoras
Por causa desse profissionalismo em relação aos lançamentos e traduções, creio que inevitavelmente o destaque vai para as grandes editoras. Em especial A Companhia das Letras e a Objetiva/Alfaguara deram um banho com um catálogo de lançamentos que praticamente monopolizou os destaques da mídia durante todo o ano. Pela Companhia das Letras, tivemos “Casa de Encontros” de Martin Amis, “Homem Lento” de J. M. Coetzee, “Homem Comum” de Philip Roth, “Na Praia” de Ian McEwan, além de “Homem em Queda” de Don deLillo. Pela Alfaguara, “Eu Hei-de Amar uma Pedra” de António Lobo Antunes, “A Estrada” de Cormac McCarthy e, claro, “As Benevolentes” de Jonathan Littel. Embora pouco comentados, outros bons lançamentos foram disponibilizados aos leitores como “A Fortaleza da Solidão” de Jonathan Lethem e “Os Pichicegos” de Fogwill.
3 - Relançamentos
As novas edições de bons livros também não deixaram nada a desejar. O relançamento das obras de João Cabral de Melo Neto pela Alfaguara são indispensáveis. Na prosa, o terceiro volume de “Em Busca do Tempo Perdido”, da editora Globo, com excelentes notas e textos analíticos da obra, além da bela capa, confirmam o excelente trabalho já visto nos dois primeiros volumes.
4 - Literatura Brasileira
Parece que o ano de 2006 foi melhor que o de 2007 para a literatura brasileira. Poucos livros foram destacados, em especial dois: no primeiro semestre “O Sol se Põe em São Paulo” de Bernardo Carvalho e no segundo “O Filho Eterno” de Cristóvão Tezza. Entre os novos autores “Lugares que Não Conheço, Pesoas que Nunca Vi” de Cecília Gianetti e “O Dia Mastroianni” de João Paulo Cuenca. O que não significa que foi um ano de estagnação. O projeto Amores Expressos promete uma enxurrada de lançamentos nacionais e não será difícil termos boas surpresas entre esses.
5 - Mídia
A internet em 2007 firmou-se como o espaço privilegiado para discussões sobre literatura e, consequentemente, para divulgação das obras. Infelizmente tivemos o fim do site No Mínimo com seus bons textos, e além dele, agora no fim do ano, a revista EntreLivros anunciou seu fim. Mas, a Copa de Literatura Brasileira repercutiu bem, fazendo com que leitores e autores pudessem encontrar um intercâmbio de opiniões bem positivo para todos.
Só aposto em obviedades.
Gostaria muito que Thomas Pynchon levasse o Nobel, mas como é quase certo que ele não aparecerá na festa, a Academia Sueca deve sempre desconsiderá-lo. Dentre os eternos favoritos, os que mais gosto são Philip Roth e Antonio Tabucchi. Em português, António Lobo Antunes e Herberto Helder, mas o segundo também deve ser sempre desconsiderado pelo mesmo motivo que Pynchon. No Brasil, meu voto é sempre da Nélida Piñon.
Uma característica da Academia sueca: obviedades não costumam receber o prêmio.
Nunca li Doris Lessing. Daquelas escritoras que sempre ouvimos falar mas nunca encontramos um livro que chamasse atenção. The Golden Notebook é sempre citado, passou várias vezes pela minha mão, mas nunca ganhou minha atenção. Aqui em Belo Horizonte, alguns de seus livros estavam em saldão numa livraria por R$10. Não consegui comprar nenhum, todos pareciam ruins.
Outro ponto a ser lembrado é que o prestígio da prêmio é algo muito relativo. Muitos escritores que o receberam simplesmente desapareceram, ninguém sabe nada sobre eles. Quanto às vendas, alguns nem com o prêmio conseguiram sair do ostracismo. Aqui no Brasil, o exemplo mais claro é de Elfriede Jelinek, premiada em 2004.
Portanto, não tenho nada a dizer sobre o prêmio desse ano.
Por todo lado o que se vê é a mesma coisa: pessoas metendo o pau em escritores que optaram por escrever sobre a tal da nossa realidade urbana contemporânea. Nas universidades, na internet, nos jornais, somente as editoras parecem não se importar com nada disso e continuam publicando e vendendo autores dessa linha. A razão é óbvia: porque existe um público que gosta muito disso. Como isso pode ser tão contrastante? Quer dizer, como, apesar do que eu chamaria de publicidade intelectual negativa, pode haver consumo de tantas histórias sobre cidades e violência?
Desconfio que a razão envolve uma falta de percepção de ambos os lados. A crítica que sugere que todos os seguidores de Rubem Fonseca são ruins e os escritores desse realismo urbano que não fazem nada diferente há muito tempo. Quando observo críticos afirmarem que os leitores não se interessam por esse realismo urbano, com palavrões, sexo cru e violência, o melhor argumento que posso formular para rebater isso é dizer que um escritor como Marçal Aquino, declaradamente urbano, enche todo lugar onde vai para falar de sua literatura. Rubem Fonseca, se viajasse pelo país dando palestras, certamente também lotaria. Há um público fiel ao gênero e motivos não faltam para isso. O caos e a violência urbana fazem parte do cotidiano de boa parte dos leitores desse tipo de literatura. Então, o que eles buscam, é justamente uma literatura com que se identifiquem.
O que ocorre, no entanto, é que um bom livro tem de se apresentar como literatura. Se lemos um livro e o texto é quase um roteiro de cinema, então digo que é um livro ruim, pelo simples fato de ele pode ser substituído pelo cinema, pela televisão ou pelo teatro, por exemplo. O que quero dizer é que para haver boa literatura é preciso que algum diretor de cinema, teatro ou televisão tenha dificuldades em adaptar a obra para outro meio, é preciso que ele reconheça que há um vínculo entre o texto e a arte literária. Ao ponto de o espectador, após assistir a adaptação, reconhecer que algo foi perdido, por melhor que seja o filme, o seriado da TV ou a peça. Não digo cortar cenas para diminuir o tamanho do filme, como por exemplo na série “O Senhor dos Anéis”, e sim cortar elementos literários por serem impossíveis de reprodução em outro tipo de arte. Sem essa prerrogativa básica, a literatura torna-se dispensável, apenas um canal que o artista preferiu para passar sua mensagem. O que leva à conclusão que a forma deve estar intimamente relacionada ao conteúdo.
Forma e conteúdo. Quantos são os livros que retratam a realidade urbana ao mesmo tempo que são inovadores em sua forma? O que vemos é que a maioria desses privilegia seu enredo como forma de reproduzir nosso tempo. Por isso os palavrões, o sexo cru ou a violência. Pior: alguns autores parecem achar que os palavrões, o sexo cru ou a violência fazem parte da forma e não do conteúdo! De maneira pouco perspicaz, escritores procuram produzir sensações no leitor através desses artifícios inócuos. Rubem Fonseca já construiu um personagem que apanhava uma arma de fogo e tentava pregar pessoas na parede por simples diversão. Quanto ao sexo, duvido que a literatura possa nos surpreender de alguma forma com a enxurrada de imagens que invadem o nosso cotidiano, desde a internet até uma propaganda de cerveja. Continuar usando somente esses recursos como forma de criar algo novo para a literatura é dar aos críticos literários argumentos suficientes para desprezar o gênero.
Qual a solução? Há uma falta de percepção no gênero. A pergunta que todo autor deveria saber responder prontamente é em que medida sua obra atualiza o tema das realidades urbanas. Não parecem que muitos conseguem responder à questão. Se não sabe ou não vê problema algum em somente reproduzir a nossa realidade, então esse autor não merece o tempo do leitor. Criar um personagem angustiado, niilista, autodestrutivo ou fragmentado é algo que o leitor já está acostumado a encontrar. Mas o que a maioria dos livros com esse enfoque não diz é: e daí? Em que medida criar uma cultura de paranóia urbana evolui ao ponto de vislumbrarmos, cada vez num futuro mais próximo, seres mais afastados uns dos outros? Em que medida esse ser urbano se desumaniza? Parece haver, portanto, uma preguiça generalizada entre os autores ou uma incapacidade de fugir do que apenas apresenta a superfície, traduzindo os sinais evidentes em algo que realmente podemos chamar de nosso tempo. Não consigo entender o por quê de tanta miopia e conservadorismo. Se o passo mais difícil já foi dado, a conquista de um público leitor fiel, por não avançar e apresentar as conseqüências disso de uma forma literária?
Pode-se dizer que há pelo menos um ponto positivo nessa crise do gênero. Se os autores não pensarem o mais depressa possível na renovação da arte que produzem, o público que hoje compra tais livros vai sumir. Diminuindo a demanda, diminuirá a oferta. Como conseqüência, o futuro promete o fim da mesmice.
““Essa classificação de estrelinhas e bonequinhos, que vemos por aí, não podem ser considerados crítica, é apenas o que eu chamo de ‘bate-papo da esquina glorificado’ . É mais uma avaliação de mercado do que, efetivamente, um texto crítico”, bombardeia logo de início. O chamado “texto de opinião” , a que o jornalista se refere, pertence a outro tipo de gênero, mais semelhante talvez a uma crônica, pois nele não há fundamentos que, por exemplo, provem que determinado CD é bom ou ruim. É apenas uma opinião, reflexo de um gosto pessoal, que não contextualiza a obra e nem compreende plenamente o trabalho do autor.
A etimologia de “crítica” vem da palavra grega krimein, que significa “quebrar” e também influenciou na formação da palavra “crise”. “A idéia da crítica é ‘quebrar’ uma obra em pedaços para se pôr ‘em crise’ a idéia que antes se fazia daquele objeto, através de uma análise”, explica Nestrovski. Para tanto, é necessário entender as partes do objeto que será analisado para justamente descrevê-lo. A partir daí, o crítico faz sua própria interpretação de acordo com o contexto em que se encaixa o artista e sua obra.”
Palavras do jornalista Arthur Nestrovski publicadas no blog do Digestivo Cultural.
(Pena que nos jornais e revistas o que predomina são as estrelinhas e bonequinhos.)
Leia o texto completo clicando aqui.
Somos assim. De tanto ouvirmos falar de um livro, vamos até a estante e o apanhamos. Com elevadas expectativas iniciamos sua leitura. Seguimos sem que nossas expectativas se confirmem. Avançamos. Pouco a pouco essas expectativas diminuem. Daí acontece. Num trecho somos imediatamente arrebatados. O que lemos não atua somente em nosso intelecto - seria um clichê dizer que atrai o que há de humano em nós? Não importa. O que ocorre no exato momento em que nossos olhos correm pelo papel num trecho soberbamente escrito é uma identificação de humanidade. O mundo da literatura nos dá isso: a oportunidade de num instante nos transformarmos em mais que nós mesmos. Não importa que depois a sensação desapareça, substituída pela racionalidade que aponta para o objeto e diz tratar-se apenas de um livro. Importa somente o êxtase do instante. Aquele instante.