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Mais uma vez discute-se o fim da literatura. Parece que agora o homicida da vez atende pelo nome de livro eletrônico. Até pouco tempo atrás, dizia-se que a internet seria responsável por criar leitores preguiçosos que não teriam mais disposições de ler longos textos e com isso a literatura iria se extinguir. Pelo visto, o livro eletrônico soa como mais uma trombeta do apocalipse. Coincidentemente – ou talvez em consequência dessas previsões apocalípticas -, parece que para muitos críticos, o fim chegou primeiro aqui e a ideia de que “a grande literatura brasileira já não existe mais” tem alcançado cada vez mais adeptos. Sem querer entrar nessa discussão (a meu ver inútil), pergunto: diante de tal cenário, onde o escritor nacional contemporâneo se situaria para reafirmar a qualidade da literatura brasileira?
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O início do século XX inaugurou um novo modo de percepção do sujeito. A obra de Freud e, conseqüentemente, o desenvolvimento da psicanálise, bem como a representação da memória involuntária e fluxo de consciência em romances como os de Proust e Joyce, indicaram um caminho onde a identidade não mais estaria vinculada a um sujeito indiviso, mas cindido por elementos do inconsciente. Acostumemo-nos a isso, o leitor de hoje mudou. Sua consciência da dispersão é cada vez maior, apesar de ainda prevalecer a pedagogia da leitura de enredos e não de literatura.
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Walter Benjamin afirmou que a arte de narrar torna-se pior quando se fundamenta na ideia de transmissão de uma experiência no sentido pleno. Arriscaria dizer inclusive que todos os nomes da literatura que admitiam partir de sua própria experiência para basear suas obras, valorizados por essa tradição autobiográfica, ludibriavam seus leitores. Seria a experiência assim tão nociva para compor a base da arte de narrar? Se sim, como reconhecer um caminho válido para se narrar no século XXI? A resposta as duas questões passa pelo mesmo caminho: a técnica. O desenvolvimento de uma eficiente técnica narrativa é o que permite ao escritor afastar-se da dimensão utilitarista da narrativa para organizar todo esse amontoado de matéria narrável do mundo globalizado. Citei o termo “eficiente” para qualificar o tipo de técnica narrável desejável ao escritor contemporâneo, mas em que sentido uma narrativa pode ser classificada como eficiente?
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O escritor contemporâneo está inserido num ambiente multifocal, com um leitor que é constantemente instigado a interpretar múltiplos signos em diferentes meios; mais do que isso, um leitor que se acostumou a receber e que agora, com o desenvolvimento da internet e suas redes sociais, a interagir com uma imensa quantidade de informações. Se quisermos que a literatura não morra – como já vaticinaram muitos, de diferentes modos e por diferentes razões – será preciso descobrir novos modos de arrancar o leitor de seu estado cada vez mais centrado na capacidade de receber e articular dados que chegam numa velocidade cada vez maior.
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Se o leitor contemporâneo mudou, tornando-se mais disperso, e hoje o escritor rivaliza com uma série de outros meios que roubam a atenção dos que antes eram leitores de um número muito restrito de fontes – jornais e revistas, por exemplo – a questão é: como o escritor brasileiro encontrará caminhos para se fixar num mundo onde todos escrevem, onde uma multidão de vozes se anulam e não encontram ouvidos receptivos à mensagem literária, elemento fundamental num ambiente capitalista que atingiu sua maturidade?
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Não é mais possível uma história conter em si uma verdade, pois o mundo globalizado capitalista criou dentro de si comunidades heterogêneas onde uma verdade não faria nenhum sentido mesmo se direcionada ao mais homogêneo dos grupos, isso porque compartilhar as mesmas impressões sugeriria um esforço para buscar pessoas com uma série de pontos em comum, como experiências culturais e a capacidade de reuni-las de um mesmo modo ao interpretar um texto literário. Ao leitor cindido, ofereçamos uma literatura cindida.
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É ainda possível fazer comungar o narrador e o leitor no ambiente literário contemporâneo? O domínio técnico da narrativa torna-se imprescindível para o estabelecimento de um jogo narrativo entre escritor e leitor. Tomo emprestado de Bernardo Carvalho a expressão “literatura como jogo” pois ela reflete uma preocupação de se buscar justamente esta comunhão entre escritor e leitor.
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Ter como alvo construir uma obra aparentemente inacabada que se caracteriza por sua ramificação em múltiplos significados e que direciona comunidades heterogêneas por caminhos diferentes ao invés de uma obra plena, com sentidos e verdades determinadas, ou seja, cabe ao escritor do século XXI plantar placas que informam sobre direções que podem ser tomadas e não asfaltar veredas para o conforto do leitor. É preciso parar de indicar caminhos seguros e sim fazer o leitor se perder – como se perde num mundo populado por signos que devem ser interpretados a todo o momento – na profusão de caminhos que estão abertos, enfim, problematizar nossas experiências, essa talvez seja a direção a ser tomada para o desenvolvimento da arte de narrar na contemporaneidade.
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Se o leitor transforma-se de forma cada vez mais rápida, buscando novos interesses em muito menos tempo, não faz mais sentido o escritor manter um foco unidirecional. A literatura contemporânea conta múltiplas histórias e torna leitor, leitores.
Minha contribuição para o Clube de Leituras do Biscoito Fino.
As discussões e opiniões sobre cultura revelam em suas fissuras elementos interessantes para um diálogo entre o que permeia o senso comum e como grandes autores num esforço consciente contribuíram para revelar os equívocos que esse pensamento apressado pode representar. Em particular, duas ideias foram de algum modo se sedimentando à gênese do pensamento sobre cultura no país: primeiro, a definição de cultura a partir do continente europeu, sendo o Brasil, portanto, um lugar onde a ‘alta cultura’ – a cultura relevante – seria importada com certo atraso, em muitos casos como uma cópia mal feita e, segundo, que movimentos emergentes de uma cultura classificada como popular representariam de modo depreciativo aspectos culturais da nação, sendo somente possível uma apresentação correta por meio da chamada cultura erudita. Assim, os definidores de uma cultural verdadeiramente nacional deveriam tomar como modelo aquilo que fosse eleito como indispensável pela estética erudita européia.
A análise dos contos “O Machete” e “Um Homem Célebre” de Machado de Assis revela aspectos da preocupação do escritor com a dependência cultural da literatura brasileira e seu ponto de vista sobre a busca de uma estética que poderia ser chamada nacional. É notável observar como os aspectos destacados pelo autor ainda são relevantes na discussão sobre cultura na contemporaneidade e como Machado de Assis consegue através de uma estética propriamente nacional revelar os equívocos nos pontos de vista apresentados anteriormente. No entanto, mesmo antes da publicação do conto, o autor revela sua preocupação com tais aspectos. No ensaio “Instinto de Nacionalidade”, de 1873, Machado de Assis reconheceu a necessidade de buscar a independência literária, não nas histórias e costumes indianos, mas nas condições e motivos históricos de uma nacionalidade literária. Machado diz:
“O que se deve exigir do escritor antes de tudo, é certo sentimento íntimo, que o torne homem do seu tempo e do seu país, ainda quando trate de assuntos remotos no tempo e no espaço.”
A questão, portanto, seria entender como um “homem do seu tempo e do seu país” se colocaria perante as idéias vigentes de dependência cultural e o conto dá mostras de que Machado lia nas entrelinhas e sabia onde estavam as dissonâncias do pensamento vigente. Sua preocupação é esboçada em “O Machete”, pela composição do personagem Inácio Ramos, que está dividido entre a rabeca, um instrumento tocado para ganhar dinheiro e o violoncelo, símbolo da erudição musical européia. O personagem tem muito em comum com o protagonista do conto “Um Homem Célebre”. Pestana também é um personagem dividido – se por um lado seu sucesso como compositor de polcas o torna orgulhoso, por outro, há uma angústia ressentida por não ter a capacidade de produzir uma peça clássica nos moldes dos grandes compositores europeus. Pestana não tem a liberdade de levar a sério suas fantasias e encarar com indiferença o cânone que por tantos séculos ditou os temas e as técnicas musicais:
“Os demais retratos eram de compositores clássicos, Cimarosa, Mozart, Beethoven, Gluck, Bach, Schumann, e ainda uns três, alguns gravados, outros litografados, todos mal encaixilhados e de diferente tamanho, mas postos ali como santos de uma igreja. O piano era o altar; o evangelho da noite lá estava aberto: era uma sonata de Beethoven.”
Ser Pestana um compositor de um gênero popular da época também é revelador. Conforme bem ressaltado por José Miguel Wisnik, “a ‘polca’ é um índice de modos de modernização à brasileira” . O sincretismo que culminará no maxixe representa a apropriação do gênero europeu e sua reformulação, pinçando-o com elementos da cultura brasileira. A ideia de que a Europa serviria de modelo hegemônico a ser contemplado e copiado não resiste ao sucesso do gênero dançante que cada vez mais passará a ser ouvido e sofrerá transformações, ao ponto de ter o samba – numa linha cronológica do desenvolvimento dos gêneros musicais – um expoente da cultura nacional que é apresentada internacionalmente como genuinamente brasileira.
Observando pontos de vista posteriores sobre o debate, fica claro que Machado de Assis expôs de maneira sublime a questão. Citando Silviano Santiago, por exemplo, o que se destaca é a concepção de cultura latina como algo que destrói sistematicamente os “conceitos de unidade e de pureza”. Segundo Santiago, “o escritor latino-americano brinca com os signos de um outro escritor, de uma outra obra. As palavras do outro têm a particularidade de se apresentarem como objetos que fascinam seus olhos”. Nesse sentido, fica evidente que Machado de Assis é um escritor que se insere no entre-lugar da cultura, “entre o sacrifício e o jogo, entre a prisão e a transgressão, entre a submissão ao código e a agressão, entre a obediência e a rebelião,…num lugar aparentemente vazio” realizando “o ritual antropofágico da literatura latino-americana.”
Por causa do post anterior, cheguei a este texto recente de Daniel Piza e confesso que fiquei desanimado. O trecho que mais me chamou atenção foi esse:
“Como se vê também em antologias de autores contemporâneos, a exemplo do Dicionário Amoroso da Língua Portuguesa ou do número 4 da revista Granta, para não falar de alguns romances que tenho lido, a ficção nacional sempre soa como uma espécie de memória disfarçada, uma crônica rarefeita e emotiva, parasitária de alguma influência mal digerida. Os personagens nunca deixam de ser autobiográficos; o estilo sempre está a reboque de outro. Não se explora a língua nem em seu potencial de pensamento nem de percepção.”
O espírito presente aqui é exatamente aquele que critico, o de louvor ao cânone e o de desalento em relação ao que está sendo escrito no presente. Textos como esse prestam um desserviço pelo poder de alcance que a opinião de Piza tem sobre aqueles que o lêem. Representam mais uma peça no museu das grandes novidades do que se fala da literatura pelos jornais brasileiros. Respondo, perguntando: afinal de contas, que valor tem um crítico que elogia o cânone? Para que repetir a mesma ladainha de que o que se produz hoje não se compara a Machado de Assis e Guimarães Rosa? Se “o problema mais básico da crítica brasileira” para Daniel Piza é “o medo de desagradar à patota”, então a situação é mais feia do que eu pensava. Platão expulsou o poeta da sua República e Piza não se dá ao trabalho nem ao menos de reparar nele. É só um ‘viva o cânone’ e a unanimidade do já-dito.
Recebi um e-mail recentemente onde uma leitora do blog, dentre outras coisas, diz o seguinte:
“O que mais me impressiona é a falta de senso crítico dos literatos brasileiros. A literatura atualmente produzida é de péssima qualidade.”
Não perguntei o quê especificamente ela havia lido, mas quero supor que uma opinião assim tão contundente foi expressa por alguém que tenha conhecimento do que se produz atualmente pela literatura brasileira. Com isso em mente, respondo que o juízo “péssima qualidade” é resultado de incompreensão. Digam o que quiserem, mas com a variedade de autores e a variedade de recursos técnicos utilizados por esses, creio ser impossível colocar tudo num mesmo balaio e apor um rótulo assim tão incisivo. Embutido ao rótulo, parece vir um conselho: não leiam os contemporâneos! (assim mesmo, com ponto de exclamação no final e tudo)
O que chama minha atenção também é que, ligado a essa depreciação da produção literária contemporânea está um sintoma de maior gravidade, o conservadorismo como é encarada a literatura. Porque está também embutida nessa afirmação a idéia de que a literatura brasileira que se fez no passado é a que deve ser lida e analisada. “O senso crítico dos literatos brasileiros” tem de ser pautado somente por isso. E o passado pintado pelas cores do presente é quase sempre reconfortante. Valores foram postos em xeque por obras literárias e depois assimilados à medida que o tempo passou, dum modo que podemos olhar todas as inovações técnicas dos escritores como algo deslumbrante e por vezes até natural. Elogiar o elogiável é uma posição muito confortável, afinal, que perigo há em se juntar a multidão para dizer que relevante mesmo é Machado de Assis, Graciliano Ramos ou Guimarães Rosa?
Escapa, porém, a essa leitura um detalhe: existem mudanças que estão ocorrendo nesse exato momento e são essas mudanças que influenciam ou influenciarão nosso modo de ver a literatura. É papel do crítico, então, tentar mapear esse tumultuado cenário, avaliar a relevância disso tudo e imaginar o impacto que poderão ter sobre a cultura. Mais importante que os erros ou acertos que virão, está o descortinamento de nosso tempo, de pontos de vista que estão abaixo da superfície, que somente se realizam através do debate, da tentativa de compreensão. É por isso que gosto tanto de projetos como a Copa de Literatura ou outras formas de falar de obras contemporâneas. Falta de senso crítico seria fugir ao debate.
Um fato curioso recentemente me fez pensar sobre meus critérios de avaliação de um livro. Numa conversa informal, quis elogiar um romance da literatura brasileira contemporânea e disse que o autor “contava bem uma boa história”. Para minha surpresa, aquilo que achava ser um elogio foi imediatamente rechaçado. Leitores que classifico como experientes, viam a literatura dum modo bem diferente, onde o enredo em si não teria nenhum valor intrínseco, estaria completamente subordinada aos recursos que os escritores utilizam num texto. O argumento parece revelar uma fissura existente entre dois tipos de leitores brasileiros. Parece que leitores mais experientes, movidos por certo horror ao tipo de leitor que acompanha o que está na moda e lê o que aparece nas listas de mais vendidos, resolveram eleger os desafios da linguagem como ponto fundamental do fazer literário.
Desconfio desse ponto de vista. Isso porque o exame da literatura do século XX aponta para algo que ocorreu com relativa freqüência e que contraria essa lógica. A verdade é que muitas vezes aqueles que procuraram incessantemente aderir às inovações técnicas da literatura mostraram-se com o tempo os mais conservadores, enquanto ao seu lado, os que se apresentavam como ultrapassados e empenhados em perpetuar a tradição, tornaram-se os mais inovadores – por exemplo, Gide, que criticou o original de Proust, vendo nele apenas histórias de duquesas. O culto à técnica pode deslumbrar um leitor, mas no fim revelar ser apenas uma maneira extravagante de dizer algo simples.
Acredito, portanto, ser possível a reinvenção da literatura com o desenvolvimento de técnicas e, simultaneamente, um retorno a preocupações que se enquadrariam em um enredo clássico – aquilo que chamo de “contar bem uma boa história”. Tradição e inovação sendo costuradas num bom texto. Não creio que as inovações em um enredo sejam mais fáceis de construir do que as inovações da linguagem. Pela rica herança que o primeiro possui, possivelmente, pode ser até mais difícil atingir novos alvos por esse meio. Afinal, depois de um século onde o romance prevaleceu, onde estariam eles? Nos recursos de montagem? No desenvolvimento do tempo da narrativa? Na recriação da idéia de narrador? Numa nova psicologia dos personagens?
Por tudo isso, não acredito que é uma coincidência escritores brasileiros contemporâneos, que apresentam uma preocupação com essas duas faces da literatura e desenvolvem-nas bem em algumas obras, me interessem mais que outros. O talento equilibrado, que permite inovações metaficcionais num bom enredo, é que torna a leitura de obras como “Nove Noites” e “Relato de um Certo Oriente” – para citar apenas dois autores contemporâneos – experiências tão interessantes.
Obviamente, a inclusão do enredo na matemática não representa a exclusão de todos aqueles que se concentraram em buscar inovações da linguagem. Pensar isso seria desconsiderar um legado considerável de grandes escritores como Joyce, Woolf, Pynchon, etc. Trata-se de certo horizonte de expectativa: a leitura nesses autores se dá de outro modo e a atenção do leitor está vinculada ao sentido que os recursos de linguagem produzem. Não há nenhuma contradição em valorizar o enredo como elemento literário e autores cuja preocupação passa pela linguagem. Somente não vejo como conciliar as conquistas de tais autores com a idéia de que elas significariam a desvalorização do enredo.
Fim de ano, época do tradicional balanço e eis aqui a minha lista de melhores livros lançados em 2008. (Infelizmente faltou tempo para falar sobre todos eles):

Austerlitz
Sem dúvida, o grande livro do ano. Se tivesse que comprar apenas um livro esse ano, compraria esse.

Seu Rosto Amanhã Volume 2 – Dança e Sonho
Para quem não leu o primeiro volume e não conhece o autor, a Companhia das Letras relançou a obra-prima “Coração Tão Branco” em formato de bolso. O preço do livro é uma mixaria, então, por favor, comece a se envergonhar por não conhecer esse que é um dos grandes escritores contemporâneos e compre!

Ontem Não te Vi em Babilónia
Um Lobo Antunes que não gostei tanto quanto o anterior “Eu Hei-de Amar uma Pedra”, mas ainda assim um escritor muito acima da média.

Órfãos do Eldorado
O grande lançamento nacional.

O Livro dos Nomes
Um livro surpreendente e lindo.
À medida que avanço estudando Literatura em sua teoria, percebo um comportamento muito comum da Academia e que por vezes me vejo imitando, como uma imposição involuntária: a desconsideração de nossa impressão primeira sobre um texto literário. De um modo muito peculiar, parece que o exercício de pensar uma obra além de suas qualidades estéticas vem produzindo uma tendência a nos imaginarmos sempre como alguém que, num primeiro momento, não conseguiu encontrar a chave para avaliar um romance. Aquilo que lemos e achamos ruim deve se manter em suspenso até que analisemos cada um dos muitos aspectos sobre o que diz a tradição literária, o momento histórico em que foi concebida a obra, o que permeia a vida do autor, etc. Nunca a primeira impressão nos dá uma certeza, levamo-la em conta apenas como um indício para o julgamento posterior, de modo que quase sempre passamos a dizer que a obra “falhou” nesse ou naquele aspecto, desrespeitando o que diríamos se não fossem esses filtros adquiridos pela análise de fatores externos ao texto. Diríamos talvez que o livro é “ruim” ou “muito ruim”, assim taxativo, num impulso ególatra do leitor em dizer que uma vez que suas expectativas não foram atendidas, a avaliação somente pode ser a mais negativa possível.
Um exemplo prático disso é quando lemos algo, não gostamos e posteriormente uma análise mais detalhada encontra uma série de referências utilizadas na obra. O fato de haver referências que não foram observadas durante a primeira leitura podem ser relevantes para sua compreensão e apreciação. No entanto e no caso dessas referências existirem e não melhorarem em nada o que lemos? O fato de o escritor fazer mau uso em seu texto de referências a outras obras boa parte das vezes não é nem levado em conta. Costuma-se dizer apenas que a obra “conversa” com a tradição literária ao utilizar esta ou aquela referência, mesmo que essas referências pareçam ser apenas utilizadas de maneira circunstancial. Aquilo que temos como medida avaliativa perde força num debate, algumas vezes somos acusados de ignorância ao não levar em conta os autores que influenciaram o escritor a escrever daquele modo. De modo que somos, involuntariamente, movidos a amenizar nossas críticas, relativizar nossas impressões negativas.
Não defendo aqui a apreciação estética como critério maior e sublime na avaliação de uma obra. Um debate sobre literatura com argumentos do tipo “gosto mais disso” e “não gosto disso” é tão infrutífero como a falta de debate. Porém, é sintomático o fato de que sua relativização quase sempre seja defendida como um meio de se chegar a um juízo de valor mais justo. Recentemente, o caderno Prosa e Verso do jornal “O Globo” elaborou um especial sobre a crítica literária de hoje no Brasil e uma preocupação sobre sua continuidade se mostrou evidente. O que vemos às vezes é que aquilo que realmente importa – se um crítico gostou ou não gostou de uma obra e o porquê – fica tão escamoteado no texto, que muitas vezes uma resenha mais atrapalha do que ajuda o leitor a ter uma idéia do que se trata o livro.
Talvez o único modo de escapar a essa tendência envolva refletir sinceramente naquilo que nos atrai e no que consideramos ser boa ficção, buscando encontrar alguns parâmetros norteadores do que seja boa literatura. Por serem pessoais, muitos desses parâmetros poderão causar discordância ao serem expressos. Algumas vezes também, poderá parecer contraditório afirmar gostar de algo que viole alguns desses parâmetros, mas essas contradições são aceitáveis na medida que são fruto de nossa educação (ou falta de), do enquadramento que buscamos encontrar na literatura. Me incomoda não haver uma receita prática para objetivar nossos julgamentos e extrair deles nossos próprios parâmetros de avaliação, assim de imediato. Pessoalmente tenho tentado um modo que ainda não tem se mostrado de todo eficaz ou prática, mas que na falta de qualquer outro me faz seguir um norte ao discutir. Vou tentar posteriormente falar mais a respeito. Por hora é preciso defender essa necessidade de julgamentos mais incisivos, julgamentos que normalmente levam a um esclarecimento acerca das direções que parecem ser mais promissoras a serem seguidas. Claro que tudo isso pode estar errado e podem não fazer sentido algum para outros. Mas o que realmente importa é que, como leitores, sejamos sempre fiéis a nós mesmos.
O caderno de literatura do jornal O Globo de sábado trouxe como tema principal a discussão sobre a crítica literária hoje em nosso país. Somente o fato de um grande jornal estampar na capa de seu caderno de literatura o assunto já chama atenção. Afinal, o que está acontecendo com a crítica literária? Há realmente uma crise? E se há, por quê? À parte do que já foi publicado no jornal nos ótimos textos – cito especialmente os textos da Cláudia Nina e do meu amigo Antonio Marcos Pereira, que achei os mais pertinentes – pondero ainda um pouco mais, especialmente sobre a crítica publicada em revistas e jornais.
É sintomática a sensação de que tudo que lemos é positivo ou neutro em relação às obras que são apresentadas pelos veículos mais populares de divulgação da literatura. Parece haver um zeitgeist, de tom conciliador, entre os próprios escritores, que estão cada vez mais conversando entre seus pares, reafirmando qualidades e imprimindo lampejos sobre aquilo que já está suficientemente iluminado. Uma atitude que parece ter contaminado o que é publicado nos jornais e revistas, por resenhistas e críticos. Quer dizer, pra que comprar três ou quatro jornais e ler em suas páginas elogios a obras que, antes de serem publicadas, já foram suficientemente elogiadas? Como exemplo recente, cito o caso da nova obra de Milton Hatoum, a novela Órfãos do Eldorado, livro que antes de seu lançamento, já era elogiado pelo crítico Daniel Piza e que depois foi unanimidade em todos os cadernos de literatura dos principais jornais. Embora tenha gostado da obra, algo me incomodou. Será que há apenas qualidades na obra de Hatoum? Ou será isso um problema, uma busca por uma posição confortável, um lugar onde sua face fique devidamente protegida? É isso uma característica exclusiva de nosso tempo?
A crítica literária sempre foi uma atividade vinculada a certos obstáculos, que parecem se acentuar hoje em dia, num tempo caracterizado pelo excesso de informação e exíguo espaço para a literatura que rivaliza com novas mídias, da TV aos games e a internet. O primeiro problema – e talvez também o mais citado – é o tal distanciamento necessário a uma avaliação. É especialmente atual um trecho de O Caminho de Guermantes, em que o narrador fala que, as obras extraordinárias – “verdadeiramente belas” nas palavras do personagem – são as que nos devem decepcionar à primeira vista, “porque na coleção de nossas idéias não há nenhuma que corresponda a uma impressão individual”, trocando em miúdos, obras que seguem o fluxo temporal de rejeição-aceitação-admiração. O próprio Proust provou de suas palavras ao ter o primeiro volume de sua obra-prima rejeitada para publicação.
Embora a crítica sempre tenha se deparado com essa limitação para compreensão de certas obras, tornou-se quase unânime a opinião de que devemos falar somente daquilo que encontre correspondência em nosso próprio tempo ou ponto de vista, correspondência essa que seria um sinal de qualidade literária. Uma base fraca que sustenta o pensamento cristalizado de que a avaliação correta surge naturalmente com o passar dos anos. Num terreno assim, é fácil emborcar qualquer esforço intelectual para tentar compreender aquilo que não nos parece imediatamente relevante, afinal, se somente a leitura de obras que julgamos importantes, num tempo em que a publicação do imperdível é diária, exige todo o nosso tempo, que dizer se tentássemos direcionar nosso olhar também àquilo que não nos diz nada num primeiro instante?
Para desfazer toda lógica desse raciocínio, basta lembrar de textos hoje clássicos do crítico literário Edmund Wilson, sobre obras dificílimas para uma avaliação no momento de seu lançamento, como o próprio Em Busca do Tempo Perdido, de Proust ou Ulisses, de James Joyce. O exemplo serve para desconstruir essa imagem de crítica vinculada ao tempo (lembre-se de incluir nessa imagem a desculpa básica de que aquilo que é relevante de um modo ou de outro perdurará através dos tempos), mas o que na verdade deve ser combatido é essa imagem de crítica igual à avaliação acertada sobre alguma obra. O bom texto crítico é muito mais do que uma simples avaliação. Serve para ampliar a visão do leitor, por mostrar caminhos que talvez não estejam facilmente acessíveis e não sejam imediatamente discerníveis. Levam, portanto, a uma elevação de expectativas (evito aqui a expressão “aprimoramento do leitor”, por ser um conceito discutível, mas é exatamente nisso que acredito). Crítica é mais que uma avaliação, crítica é a defesa de um ponto de vista por meio de argumentos claros. Se a avaliação será a mesma daqui a dez, vinte ou cem anos, pouco importa. O texto de Sílvio Romero se referindo a Machado de Assis como “o mais pernicioso enganador” que o diga.
O que nos leva ao segundo e o terceiro problemas: poucos escritores admitiriam que há críticos hoje com perspicácia semelhante a de Edmund Wilson e muitos críticos não se sentem confortáveis em errar em suas avaliações. Talvez por isso as reações agressivas aos que tentam romper o consenso. O escritor muitas vezes se sente ofendido quando alguém diz que todo o tempo que ele perdeu, todos os cabelos que arrancou para construir sua obra, são irrelevantes para a literatura. E, algo não menos comum, críticos que evitam o diálogo com autores, com se toda defesa da obra ou questionamento de critérios utilizados fosse um contra-ataque. Daí, o objetivo de se buscar a compreensão artística daquilo que é produzido em nosso tempo dilui-se.
Pensando exclusivamente nos textos críticos que negam o valor de certas obras, existem outros problemas. E se um livro não nos agrada ao ponto de abandoná-lo, é correto criticá-lo? E se não nos agradou, mas ainda não conseguimos discernir bem o que falha ali, é possível dizer isso sem cair no achismo do ‘apenas ruim’? A crítica eficiente funciona apenas ao utilizar um tom combativo? Ao mesmo tempo, como tentar esclarecer a recepção negativa a uma obra sem utilizar o tom conciliador, do ‘apesar de’ ou o ‘existe algo bom’ na ruindade? Um texto crítico elaborado propositalmente para conter lacunas que seriam preenchidos por outros – leitores ou críticos – é visto como ruim. Para muitos, o papel do crítico é dizer exatamente tudo, mesmo que um texto incompleto pudesse trazer questionamentos adequados que servissem como pontes para idéias de novos textos.
Aos envolvidos em produzir a literatura, criticá-la ou divulgá-la, cabe a responsabilidade de fixação deste momento artístico através do que é publicado e das análises realizadas daquilo que chamamos de literatura contemporânea.
Manchetes dos cadernos de literatura dos principais jornais do Brasil hoje:
Estado de Minas, “O homem que quis ser o Brasil”, sobre Mário de Andrade
O Globo – “O Modernista Prudente”, sobre Mário de Andrade
Estado de São Paulo – “Mário de Andrade, escritor das vanguardas, em nova edição”
Folha de São Paulo – “Reedições propõem Mário definitivo”
O problema não é falar sobre um autor que ninguém mais lê – Mário de Andrade é um escritor muito importante – , mas o que não sai da minha cabeça é por que todos os cadernos literários dizem a mesma coisa? Apesar dos jornais de papel venderem cada vez menos, por que as redações dos principais jornais do país produzem o mesmo enlatado semana após semana? Será possível que não existem mais editores de cultura capazes de fazer um caderno de literatura realmente interessante? E aqueles que escrevem tentando fugir do óbvio, vão pra onde?
Como sobreviver em debates literários pela internet:
1 – Faça uma lista de autores e críticos literários reconhecidos como clássicos e fundamentais. Dê preferência aos que não foram traduzidos em português ou àqueles cujas obras são raras de serem encontradas por aqui.
2 – Faça outra lista de citações de cada autor e crítico. Novamente, dê preferência às que não estão em português. Se for em latim, ainda melhor. As em português devem ser excessivamente obscuras, mas com um vocabulário que evidencie erudição.
3 – Separe as frases por assunto para que possam ser facilmente acessadas. Se não conseguir, navegue por sites e blogs para descobrir que expressões são comuns e eleja quais frases se enquadrariam ali.
4 – Ao utilizar a caixa de comentários dos sites e blogs, sempre ataque. Nada de propor questões ou parecer hesitante. Mostre estar sempre certo em tudo que diz. Cite os autores da primeira lista e reforce suas certezas com frases da segunda. Por exemplo, redija frases como “evidentemente o Brasil é muito ignorante e não leu Mendelssohn Heïgen-Bahn que prova o que digo quando me refiro ao nativus omnis proba de orbis na obra Essays of Music Literary”
5 – Se algum outro leitor discordar de você, humilhe-o. Primeiro elegantemente, sugerindo que ele não leu o suficiente para sequer respirar perto de você. Se houver algum erro ortográfico, invalide o argumento dizendo que alguém com uma escrita tão ruim não merece resposta. Caso ele ainda insista, seja agressivo.
6 – Caso outros leitores apóiem o ponto de vista contrário, escreva comentários na caixa utilizando pseudônimos que, obviamente, apóiam sua opinião. Para que não fique tão evidente que é você mesmo, use web proxies.
7 – Se algo que escreveu foi completamente equivocado (por exemplo, você disse que Machado de Assis escreveu Iracema), diga que se trata de uma ironia e reclame que as pessoas são burras demais para perceber isso.
8 – Se nada disso der certo, puxe o saco do dono do blog.
9 – Se ainda assim não der certo, abra você mesmo um blog obscuro chamando a todos de facistas-nazistas-pseudo-intelectuais-iletrados e coloque um link para ele na caixa de comentários. Utilize um pseudônimo que indique que sua missão é ‘revelar’ a verdade, claro.