Em Geografia do romance, Carlos Fuentes afirma que a prisão do realismo é que “pelas suas grades só vemos o que já conhecemos” e, em contrapartida, “a liberdade da arte consiste em ensinar-nos o que não sabemos”. O livro dos nomes, de Maria Esther Maciel, parece ter essa preocupação ao fazer com que o texto ganhe liberdade por escapar ao mero realismo, tanto em sua estrutura como no desenho de seus personagens. Poeta, ensaísta e ficcionista, este é seu segundo romance e mais uma vez sua prosa mistura-se com a poesia. Em O livro dos nomes os personagens estão ordenados alfabeticamente, desde Antônio até Zenóbia, e são constituídos por estilhaços que, embora verossímeis, apresentam detalhes e minúcias que exaltam a arte da linguagem que os criou. Não é por acaso, portanto, que o escrever seja algo tão em evidência por todo o livro – desde Beatriz, que ‘escreve com as unhas, no peito de seu amante, uma palavra que até hoje é segredo’, passando por Maria Alice, ‘coagida pela mãe adotiva a escrever cartas anônimas a inimigos que nem conhecia’, até Zenóbia, que ‘por vários anos, manteve um caderno de anotações sobre os significados dos nomes’.
Essa obsessão pela palavra escrita acentua a chave para a leitura do romance: o ato de nomear. Jorge Luis Borges lembra-nos que no mundo primitivo os nomes não eram símbolos arbitrários, mas parte vital do que definem. Essa relação entre a pessoa e seu nome torna-se uma ferramenta reveladora de características dos personagens no romance. Na introdução de cada parte, a escritora embaralha o nome, sua etimologia, sutilezas e contradições que são também parte do caráter distintivo do personagem. O ato de nomear é, portanto, um modo de definir personalidades, ao mesmo tempo em que rejeita qualquer determinismo. Esse método constitui uma bem-sucedida forma de parodiar os dicionários de nomes, seguindo a tradição literária de Flaubert em O Dicionário das Idéias Feitas ou os personagens do Dicionário Kazar de Milorad Pavitch.
A influência da tradição literária não se revela apenas na forma como o romance é constituído, mas também nos temas que aborda. A epígrafe de O Mestre de Petersburgo, de J. M. Coetzee, não é coincidência. Como o autor de Desonra e A vida dos animais, no livro os animais são recorrentes e a questão do tratamento dado a eles apresenta-se de um modo sutil. No cenário do romance, o interior de Minas Gerais, Tenório é dono de um frigorífico e “se gaba de já ter abatido quase mil vacas desde que assumiu o ofício”, Fausto “tomou aversão à carne bovina”, como modo de se redimir perante Beatriz, e Xavier é o cão que morreu de tristeza depois de presenciar o suicídio de seu dono. É perceptível, nos momentos em que o foco está sobre os animais, a tentativa de a escritora realçar uma “linguagem” comum entre homens e animais, através de ações que refletem a expressão de sentimentos, como um olhar triste de uma vaca em direção ao matadouro ou o cão que fica longe das pessoas e morre embaixo de uma cama, individualizando estes seres. Enfim, uma bela maneira de ensinar-nos o que não sabemos.
Toda vez que ouço alguém dizer que certa pessoa é um dos maiores escritores vivos vem à minha mente a pergunta “e por quê?”. Tenho reparado que na maior parte das vezes o título é dado automaticamente, somente pelo fato do leitor ter gostado muito de um livro ou às vezes trata-se somente de uma repetição daquilo que ouvem. Ao invés de responderem clara e objetivamente à indagação, a resposta é enviesada, talvez se referindo a um relativo sucesso comercial ou crítico. Um exemplo disso é o escritor Philip Roth. Nessa época do ano, quando se anuncia o ganhador do prêmio Nobel de Literatura, uma série de pessoas pela internet repetem o nome do autor como o mais provável ‘nobelizável’. Nada demais. No entanto, acaba de sair um dos melhores livros do escritor aqui no Brasil e, apesar de ler várias críticas elogiosas do livro em diversos jornais e revistas, foram poucos os leitores que comentaram algo a respeito. Como explicar o fenômeno?
“Homem Comum” é uma novela centrada na morte e serve bem para responder objetivamente porque Roth é um grande escritor contemporâneo. O livro é um relato racional de alguém que se vê com um corpo cada vez mais decadente e próximo da morte. O personagem Construído por Roth é complexo, difícil de sentir qualquer empatia, um homem que tomou decisões das quais se arrepende. Abandonou a primeira mulher e por isso seus dois filhos deste casamento o odeiam. Um caso com uma modelo leva sua segunda esposa a abandoná-lo e como conseqüência, se afasta da filha que o adora. Após o terceiro casamento fracassar, ele se afasta também do irmão, que o apoiava incondicionalmente, por causa da inveja que sente de sua saúde perfeita. Depois de uma carreira de sucesso como publicitário, resolve se dedicar à pintura, mas com o tempo abandona a arte, apesar do talento. Embora seja certo que não há saída para a morte, mesmo que se procure alternativas, o relato é de alguém que não aceita isso. É esta a idéia central. Mesmo sendo bem-sucedido financeiramente ou buscando satisfação emocional num casamento estável ou procurando uma eminência através da arte ou ainda se entregando ao prazer sexual irrestrito, nada pode tornar a idéia da morte algo mais suportável. A morte é um tormento, um ponto de vista que está presente em todas as páginas do livro.
Mesmo com tudo isso, no entanto, seria um erro classificar o livro como uma alegoria da mortalidade humana. Não há o desejo de se escrever sobre o tormento que a morte representa para toda a humanidade. A obra de Roth é particular, íntima. Como muitos disseram por ocasião do lançamento do livro, ficção e biografia se confundem. Não é o Philip Roth autor quem está enfrentando a morte, mas sem dúvida foi a reflexão sobre ela que tornou possível ao autor escrever um livro tão impactante. Alguns eventos pessoais são apresentados na obra e não seria errado supor que foram responsáveis por reflexões que levaram o autor a escolher o tema.
Ao mesmo tempo, propositalmente ou não, é possível reconhecer também elementos universais na história. Por exemplo, a questão religião versus ateísmo moderno. Não há um juízo de valor a respeito do tema, mas está claro como o autor tem enxergado a distância cada vez maior entre os dois grupos. Notar como são descritos os dois funerais da obra é revelador: no início, do próprio “homem comum” do título e, durante a história, do pai dele - que cronologicamente ocorreu antes. No funeral do pai, um rabino conduz a cerimônia e os parentes são convidados a cumprir o ritual de cobrirem eles mesmos a cova do morto. No funeral do personagem principal, no início da obra, tudo é simples, apenas alguns poucos se reúnem para dizer algumas palavras de despedida. O que é comum neles é o desalento causado pela morte, a incapacidade que tanto da religião como da razão pragmática - ou se o leitor preferir, um modo de vida niilista - de dar algum conforto à perspectiva de inexistência.
Deixando o enredo de lado e focando a atenção na linguagem é possível também reconhecer Roth como um excelente autor. Em “Homem Comum” não encontramos o humor cáustico de “O Complexo de Portnoy”, por exemplo, mas as grandes frases continuam lá. Roth tem a capacidade de resumir uma série de idéias em uma única frase. No caso da novela, é possível dizer que o livro inteiro às vezes é resumido em trechos brilhantes. Um exemplo disso é quando uma de suas alunas de pintura - uma senhora chamada Millicent - conta sobre a terrível doença que se abateu sobre seu marido, um executivo daquele tipo que nunca está parado. O resultado da situação é resumido assim:
“…a depressão corrosiva de um homem que antes estava envolvido em tudo e agora estava imerso no nada.”
Não seria esta também a situação do homem comum, cuja história está sendo contada? Um sujeito que vê seu corpo cada vez mais frágil à medida que envelhece e, ao mesmo tempo, vê-se cada dia mais afastado de todos, “imerso no nada”?
O livro mostra como Roth é capaz de amarrar grandes temas contemporâneos a enredos envolventes, construindo personagens complexos e expandido nossa capacidade de percepção de humanidade. Prova a capacidade do escritor de utilizar a linguagem com um talento capaz de produzir as mais diversas emoções, menos a indiferença. Portanto, se houver alguma dúvida sobre a importância de Roth para literatura, basta ler “Homem Comum”.
O escritor Ricardo Piglia tem uma teoria que diz que um bom conto na verdade conta duas histórias simultâneas, uma bem evidente, que fica na superfície e outra que está sempre presente, embora essa muitas vezes apareça somente no final. É possível estender essa mesma teoria para alguns romances, que contam uma história para aquele leitor desatento e outra não tão evidente para um leitor que percebe outros matizes. O novo livro de Edward Bunker, “Fábrica de Animais”, é um exemplo claro disso. O título, a biografia do autor e suas outras obras sugerem que este é mais um livro sobre a violência da vida num dos mais perigosos presídios dos EUA. San Quentin é o protótipo ideal de uma máquina desumanizadora de seres: a sobrevivência é garantida somente pela força, o que faz com que pessoas se ajuntem em grupos que são respeitados pela sua capacidade assassina. Além disso, o ódio racial americano está no auge, com negros, brancos e chicanos cada vez mais separados e apenas uma fagulha faz explodir uma rebelião em que membros de todos os grupos são assassinados indiscriminadamente. Também, os estupros fazem com que os mais fracos se convertam em moeda de troca entre os detentos e para ser respeitado o único meio é se tornar alguém temido no momento em que põe um pé lá dentro. Por último, a violência policial - muitas vezes apenas uma extensão dos ódios e da violência dos próprios presos - aproveita uma crise para entrar em cena, num acerto de contas contra seus desafetos. Lido assim por um leitor apressado, o livro não é nada mais que um retrato da vida na violenta fábrica de animais. No entanto, o leitor mais atento irá perceber que este cenário serve apenas para contrastar o tema central do livro.
A chave para se chegar a esse segundo ponto é dada logo no início da obra. O autor dedica o livro aos ’seus irmãos - dentro e fora’. A amizade, portanto, é ponto fundamental na obra. Por meio dela é possível emergir da violência bárbara e reconhecer um ser humano apesar de todo o ambiente ser uma verdadeira fábrica de animais, com capacidade de destruir todas as qualidades que caracterizariam um ser. O livro procura mostrar que mesmo num lugar assim, ainda é possível prevalecer algo de humano.
“Fábrica de Animais” começa contando a história de Ronald Decker, um jovem e bonito traficante de drogas que é apanhado pela justiça e começa a conhecer um ambiente totalmente diferente daquele que estava acostumado, o das celas sujas da burocracia judicial. No terceiro capítulo, a cena corta e subitamente somos apresentados a Earl Copen, um detento experiente que está cumprindo sua terceira pena em San Quentin e que é bem tratado porque conhece as pessoas certas lá dentro. O inexperiente jovem e o detento veterano irão se encontrar e desenvolver uma amizade que é o tema central do livro. Não há delicadeza entre eles, muito menos um interesse homossexual, somente um apego sincero que faz com que o experiente Copen passe a ajudar o jovem Decker. Suas expressões de afeto seriam interpretadas no mundo fora das prisões como insultos estúpidos, mas como aprendemos com o passar do tempo, as leis que regem o mundo de fora não são as mesmas que vigoram dentro dos muros de San Quentin. Mas, apesar disso, ainda reconhecemos os personagens como humanos. Por mais traços indicativos de animais violentos que esses adquirem, ainda conseguimos vê-los dum modo diferente - principalmente quando os dois personagens centrais são comparados com seus companheiros, como T.J., Paul e Vito. É como uma fantasia para representar um papel numa fábula, onde é possível ver o personagem atuando, na figura dum animal, mas que nunca é tão perfeito que não consigamos distinguir que há um ator por trás da máscara. É nisso que os dois se convertem, em atores que representam seres brutais para sua sobrevivência. A amizade serve, portanto, como um modo de rejeitar ser transformado pela fábrica, um modo de tentar enganá-la.
Sem dúvida este é um dos melhores romances de Bunker. Além da temática interessante, o livro contém ainda as mesmas qualidades das outras obras do autor, como a narrativa ágil, os personagens bem construídos e um enredo bem elaborado. Serve como uma excelente porta de entrada pelo submundo dos outsiders retratados por Bunker, atiçando a curiosidade do leitor aos seus principais livros “Nem os Mais Ferozes” e “Cão Come Cão”.
O trabalho de escritor pode conduzir a alguns caminhos difíceis. Num oceano de assuntos possíveis para composição de um romance, o mergulho pode produzir um grande número de sensações e descobertas. Em alguns casos a descoberta pode ser terrível - por exemplo, um escritor que mergulha na personalidade de um genocida. Ao sair do oceano, o escritor pode se sentir pior, vendo em sua criação um retrato artístico que talvez seja difícil de encarar, afinal previamente ele reconhece que o terror de seu personagem não produzirá os melhores sentimentos nos leitores. Mas não são somente personagens desumanos que podem causar perturbação, no caso de uma aproximação entre personagem e autor, expor fatos pessoais em uma prosa de ficção pode se tornar um modo cruel de espelhar-se. Despojar-se e procurar narrar acontecimentos pessoais através de um narrador pode produzir livros irregulares, pois a tentação de abandonar a ficção para tornar o texto apenas uma lista de lamentações e justificativas de proceder é algo que se verifica em boa parte das autobiografias. É, portanto, um terreno perigoso que muitos autores procuram evitar, às vezes delegando a tarefa a um outro autor. Afinal como escrever algo pessoal sem ser simplório ou pedante? Pior, como escrever fatos íntimos com um afastamento equilibrado, tornando o texto, de fato, uma ficção?
Essas são perguntas que aparecem quando lemos o livro “O Filho Eterno”, de Cristovão Tezza, um relato que é um mergulho num mundo íntimo, mas um mergulho equilibrado pela ficção. Engana-se quem pensa que ali está o autor contando a verdade, as memórias de sua vida. Há um afastamento, proposto pela construção da narração em terceira pessoa, que faz toda a diferença nos trechos mais difíceis. Vemos um desnudar de fatos íntimos - os desafios enfrentados por um pai e seu filho com síndrome de Down -, trabalhados para serem apresentados ao leitor como história. O equilíbrio faz desse livro uma jóia de beleza e sensibilidade, algo muito positivo, apesar destes termos terem assumido um caráter tão negativo em nossos tempos. Um exemplo disso são os trechos iniciais, quando o narrador ao receber o diagnóstico de que o filho possuía a síndrome, imagina a possibilidade de vê-lo morrer logo. Há a delicadeza dum pai, mas um afastamento do narrador, que permite uma confissão tão franca. À medida que o tempo avança e o narrador busca ajudas para o melhor desenvolvimento do filho, o sentimento inicial passa a se transformar, ao ponto de sentirmos também uma angústia terrível quando o narrador narra um episódio em que o seu filho se perdeu. O sentimento do narrador ultrapassa a história e é transmitido ao leitor. Passa-se a sentir empatia pelo narrador e somos envolvidos pela história de Felipe, o filho com síndrome de Down.
Mais do que uma história de filho doente, “O Filho Eterno” é uma bela reflexão sobre a paternidade, sobre ser escritor e sobre o momento político conturbado dos anos 1980. Vemos a persistência de um autor que acumula em sua gaveta cartas das editoras contendo avaliações negativas de suas obras, relembramos os absurdos sistemas de financiamento habitacional da era Sarney, além do amadurecimento de ponto de vista de um ser humano em seu papel de pai. Reflexões que poderiam facilmente se transformar em auto-comiseração dado o tema com forte apelo emocional, mas o texto foge disso. O texto de Tezza é emotivo, mas não é daqueles que somente apelam para a emoção, utilizando artifícios batidos que os leitores mais experientes conhecem. O que há ali é a literatura madura de um escritor talentoso, sem dúvida um dos mais importantes escritores brasileiros contemporâneos.
Aliás, com respeito aos escritores brasileiros contemporâneos, Tezza é um caso que poderia servir de diagnóstico dos leitores em relação à nossa atual literatura. Apesar de suas evidentes qualidades e das várias obras publicadas, ele não é um autor muito comentado. A falta de conhecimento do autor é proporcional aos comentários que vemos de leitores que dizem que hoje não se escreve nada que presta, que ninguém escreve como Machado na atualidade, essa conversa tola que vez por outra ainda ouvimos. O livro é, portanto, uma resposta enfática de que se produz sim na atualidade uma literatura de grande qualidade e de que vale a pena acompanhar a cena literária contemporânea. Se você quiser conhecer mais o autor, a recomendação se estende também aos romances “Trapo” e “O Fotógrafo”, outros dois excelentes livros.
O livro de Tezza, por fim, dá-nos uma sensação de satisfação por termos dedicado parte de nosso tempo em sua leitura. O mergulho que o autor faz em sua intimidade tem como resultado um livro que merece ser destacado. Um livro que faz o leitor se orgulhar por tê-lo lido. “O Filho Eterno” do título permanece em nossa recordação. Somente isso é motivo suficiente para que o autor, ao sair deste oceano da literatura, orgulhe-se por deixar suas páginas à disposição dos leitores.
O amor idealizado é um tema que marca a tradição literária portuguesa desde a lírica trovadoresca, com as antigas cantigas de amor entoadas a musas inalcançáveis, até os principais autores portugueses contemporâneos como Antonio Lobo Antunes. São os ecos dessa tradição que dão título ao lançamento do escritor, o romance Eu Hei-de Amar uma Pedra, um verso de um antigo cancioneiro português. A ligação da tradição portuguesa feita no título realça o trabalho ousado de Lobo Antunes ao renovar a literatura portuguesa e mundial, mesmo ao falar mais uma vez da impossibilidade de certas relações amorosas, um tema recorrente, mas que pelas mãos do escritor conseguimos perceber novos detalhes. Apoiado no passado, a obra é poeticamente construída e marca o leitor com um texto montado a partir de estilhaços da memória.
Antonio Lobo Antunes é um exímio escritor que cada vez mais se tem destacado não somente pelos prêmios literários acumulados, mas principalmente por uma obra que apresenta uma produção consistente, que se recusa a propor facilidades ao leitor. Numa de suas crônicas, reunida em seu Segundo Livro de Crónicas e ironicamente intitulada Receita para me lerem, o escritor diz que suas obras são compostas “apenas por largos círculos concêntricos que se estreitam e aparentemente nos sufocam. E sufocam-nos aparentemente para melhor respirarmos.” Tal sufocamento, apesar do hermetismo que inicialmente se apresenta ao leitor, produz o que o autor diz ser um “contágio por uma doença” que faz o leitor “convalescer após a última página”.
As obras do escritor se caracterizam por essa tentativa de contagiar o leitor, sendo bem-sucedido em maior ou menor grau, equilibrando suas expectativas e as expectativas de um leitor mais exigente. Na sua primeira fase, a trilogia Memória de Elefante, Os Cus de Judas e Conhecimento do Inferno, os livros são quase uma catarse, com o tema da guerra na África sendo atravessado pela linguagem (Lobo Antunes serviu como médico militar na guerra de Angola durante quase três anos), dum modo que chama a atenção do leitor mas cujo ‘contágio’ parece ainda reticente. Daí, em Boa Tarde às Coisas Aqui em Baixo, há ainda uma preocupação em exibir seu domínio da linguagem e o resultado é um livro excessivamente hermético, onde o leitor quer se deixar ‘contagiar’, mas muitas vezes é afastado. Sendo assim, é possível dizer que Eu Hei-de Amar uma Pedra é mais bem-sucedido em atingir esse objetivo, um livro que conseguiu equilibrar sua maneira de evocar o passado à bela linguagem, apresentando dificuldades, mas não de maneira gratuita, resultando no reconhecimento do leitor e produzindo enfim seu ‘contágio’.
Na primeira parte, o narrador introduz o leitor na história através da descrição de fotografias, onde cada detalhe serve para fazer com que o passado venha à tona e seja invadido por vozes que tentam recompô-lo. Uma voz masculina apresenta ao leitor sua infância, sua participação como soldado em Guiné-Bissau, seu casamento, suas filhas e um amor da juventude interrompido pela internação da mulher num sanatório em Coimbra. No entanto, resumir a história somente a esses fatos pode dar uma idéia errônea do romance, já que é na linguagem utilizada que a recordação do passado se transforma em algo tão sublime. À medida que a leitura avança, o leitor percebe que há uma circularidade em sua narrativa. Como rodas dentadas de um relógio, onde cada dente representa um personagem, a narrativa dá voltas, apresentando em cada volta estilhaços da história, que aproximam alguns personagens, mas que no momento seguinte são afastados por um novo estilhaço. Lobo Antunes consegue fazer com que primeiro sintamos a beleza da linguagem para depois compreendermos o significado da narrativa. Ou seja, enquanto os autores ruins procuram esconder sua incapacidade de cuidar da linguagem através de uma história que chama atenção do leitor, o escritor faz justamente o contrário: realça o domínio que tem da linguagem bela e poética, fazendo com que a história sempre permaneça em segundo plano. Um recurso ousado que somente os grandes escritores podem se dar ao luxo de utilizar.
Um outro recurso que contribui para embaralhar o entendimento do leitor sobre a história é o de mudar o ponto de vista narrativo em meio aos acontecimentos narrados. Por exemplo, em determinado trecho a narração é feita por um personagem masculino e subitamente percebemos que uma mulher assume o relato, fazendo com que o leitor pare e reordene a compreensão que tinha da história até ali, tentando discernir que fatos se referem a um personagem e que fatos se referem ao outro.
No entanto, a maior dificuldade desse romance surge quando uma voz de narrador consciente aparece misturando tudo e colocando em xeque todo o entendimento que possuíamos. Apesar de tudo ser ficção, geralmente, quando nos são apresentados personagens, cada um possuindo um passado e com um ponto de vista, construímos em nosso imaginário aquele mundo descrito. Mas daí vem o narrador consciente de seu papel e diz: “Não se empolgue, isso é apenas uma história de ficção que procura dominar suas emoções!” Por exemplo, na página 127 do romance, a voz masculina solta a frase:
“(ou sou eu que imagino ou é o António Lobo Antunes julgando que devo imaginar a fim de que o romance melhore)”
Há, portanto, um narrador que se reconhece como um narrador de ficção. Avançando, novamente encontramos a figura tecendo comentários sobre detalhes da história contada até ali:
“ia dizer abanando a cabeça mas não caio num lugar-comum tão grosseiro, a queixar-se em silêncio, de cabeça bem firme, da ingratidão da filha, não da Alemanha
(que teimosia)
que desgaste para mim obrigarem-me a repetir que na Bélgica, que esforço idiota, e não em Bruxelas nem em Bruges
(tão pouco caio nessa)
em Gand, que isso contaram ao alfaiate
(com a história de lhe terem contado resolvo a questão)”
Passamos então a conhecer não somente os detalhes da história, mas também os embates que o narrador passa a encontrar para narrá-la da melhor forma. A circularidade, portanto, que víamos na história passa a penetrar até mesmo no conceito que possuíamos do texto que estava sendo lido. Antes era um texto de ficção, agora passa a ser uma ficção sobre o que é escrever um texto de ficção, inserindo mais uma camada de dúvidas e questões literárias. Tantas questões e tantos recursos fazem com que o leitor passe pelas mais de quinhentas páginas do livro sem perder o interesse, pelo contrário, ao chegar à última página a vontade é de recomeçar a leitura para apanhar os detalhes que não foram percebidos. Sensações que se misturam, assim como a história, resultando num livro delicado e complexo, leve, porém, marcante. Para o leitor que ainda não conhece a obra, o convite para se contagiar está dado.
O grande problema ao se ler “Um Defeito de Cor”, de Ana Maria Gonçalves, é que tudo o que o livro tem de grandioso e sublime, é apresentado dum modo sutil, numa estrutura tradicional. Por seu enredo com personagens psicologicamente bem construídos - o texto apresentando não somente as ações, mas também o pensamento da personagem Kehinde -, por suas referências históricas que situam o leitor num tempo específico e por sua narrativa de modo linear, o leitor poderia facilmente confundir o texto com um texto novelesco. Pior ainda, alguns leitores poderiam classificar o livro como literatura feminina - feminina no pior sentido possível, aquele sentido de um texto limitado pela experiência de sua autora -, o que definitivamente o livro não é. O segredo para perceber a profundidade que o texto assume, apesar de suas características tradicionais, está no título. A expressão racista e repugnante tem um tom poético, de tal modo que quase nos esquecemos de que se trata de um termo discriminatório. Tal como o título, as questões levantadas pelo texto estão tão envolvidas pela beleza literária do texto que às vezes leva o leitor, ao fechar o livro, a pensar “como era horrível a vida de uma escrava, ainda bem não é mais assim”.
Se fosse para apontar um tema que resume a obra, o tema seria o racismo. E aqui é que entra a justificativa para a estrutura do texto. Como apresentar um tema tão complexo e contaminado por discursos panfletários dum modo atual? Escrever uma obra assim utilizando um tom moralista ou de denúncia, certamente enterrariam o romance no meio da já enorme pilha de textos sobre o assunto. Usando a literatura para exemplificar, seria como tentar reescrever um “Germinal” de Zola usando a história do Brasil, soaria algo patético. Sendo assim, o ponto de vista da personagem é, não somente o mais belo modo de fazer isso, mas é também o mais eficiente. Notamos, ao ler “Um Defeito de Cor”, que na maior parte do texto a personagem Kehinde está tentando compreender a lógica do mundo ao seu redor. E a incompreensão serve para se distanciar do tom meramente denunciatório. Um exemplo claro disso é quando sua Sinhá a batiza como cristã e recebe outro nome: sem compreender direito o que isso significa, Kehinde continua com seus costumes religiosos e sua identidade, mas se ajusta à vontade das autoridades (seu senhorio e os líderes religiosos) como modo de se adaptar as regras. Ela chega a conclusão que se adaptar às regras traz inúmeras vantagens.
A tentativa de mutilação da identidade, que é uma das piores características da escravatura, é apresentada ao leitor o tempo todo e causa um enorme incômodo ver Kehinde tendo que se adaptar às situações que lhe são impostas, de modo a ainda se reconhecer como um ser humano distinto. No início da narrativa, Kehinde tem medo de ser transportada ao outro continente por causa de lendas que ouviu de que os homens brancos a transformariam num carneiro para ser devorada. De certo modo, o que vemos nas páginas seguintes, é justamente isso: o ser humano, utilizando suas características mais repugnantes, desumanizando outro ser humano, transformando-o num animal.
Somente o fato de este ser o primeiro livro brasileiro sobre a escravidão que fala a partir do ponto de vista de uma escrava já é um sinal claro de que o tema é ainda bastante pertinente e que deveria ser melhor explorado. Como disse no início, o leitor pode fechar o livro sem se dar conta de que o livro traz à baila um assunto da atualidade. Infelizmente, ainda é regra as escolas de ensino básico e médio nas aulas de história darem a entender que o problema da escravidão no Brasil foi resolvido com uma penada da princesa Isabel. Não vemos alunos serem incentivados à reflexão das conseqüências de anos de escravidão no país e de a abolição ter ocorrido tão tardiamente.
Mas voltemos novamente a estrutura narrativa tradicional utilizada. Infelizmente, a escolha que o autor faz por certo modo de narrar faz com que muitas vezes ele seja subestimado. Foi assim com Érico Veríssimo e o fato do livro da Ana não estar relacionado na lista de melhores do ano do prêmio Jabuti faz crer que isso ocorre novamente. No entanto, a capacidade de atingir o leitor com um texto ao mesmo tempo envolvente e relevante, é que fez com que o autor seja hoje reconhecido por seu talento. Tenho certeza que o mesmo acontecerá com a Ana e seu livro. Somente uma escritora bastante talentosa consegue fazer com que um leitor, que hoje divide sua atenção também com outras mídias, se debruce sobre um texto de mais de 900 páginas e consiga avançar de maneira tão fluída, sem perder o interesse pela narrativa. “Um Defeito de Cor” tem esse poder, contrariando toda a lógica do mercado editorial atual, que costuma desconsiderar narrativas longas. Sem qualquer exagero é possível dizer que “Um Defeito de Cor” tem os requisitos necessários para entrar no cânone da literatura nacional como um clássico.
(ATENÇÃO: se não desejar saber os segredos contidos nos livros, favor NÃO LER o texto abaixo)
É interessante perceber como uma mesma característica em dois romances diferentes pode ser o ponto forte em um e o ponto fraco noutro. Refiro-me aos livros “As Correções” de Jonathan Franzen e “Bem-vindo ao Clube” de Jonathan Coe. O que caracteriza ambos os romances é que um leitor com um pouco de experiência logo consegue reconhecer as peças da máquina, ou seja, em que estrutura ambos os romances foram montados. É preciso reconhecer, que apesar disso, há um mérito em ambos: os autores escancararem os recursos literários que utilizam, mas isso é feito com qualidade. Ambos mostram bastante competência e coragem ao escrever dum modo convencional e conseguem prender o leitor. Mas então qual o problema? Passarei a analisar a estrutura em que o enredo é montado em ambas as obras.
O excelente “As Correções” de Franzen possui uma fórmula tradicional que move toda a narrativa. Tal qual num seriado como “Lost”, por exemplo, o livro de Franzen traz uma história sendo contada no presente - o conflito entre duas gerações da família Lambert, com pais e filhos cada vez mais incomunicáveis - e em cada capítulo a micro história de um dos membros da família é apresentada em forma de flash-back. Em cada capítulo montamos uma parte do quebra-cabeças, fazendo com que o conflito que foi apresentado no presente fique mais e mais intrincado, até que todos os personagens se tornam como que vivos, fazendo o leitor sentir grande empatia por cada um deles, como se fossem nossos conhecidos. O flash-back, que poderia incomodar alguns, mal é percebido, tamanho o talento do escritor em misturar as histórias. Nunca temos aquela sensação terrível de que um livro foi abandonado e outro começou - ao contrário de alguns livros que utilizam o recurso e que são parecidos com aquele amigo chato que começa uma piada sem concluir a outra, deixando-nos curiosos. Franzen é magistral no modo como conduz a história, no ritmo como ela é contada e na capacidade de esconder detalhes para causar mais impacto quando são apresentados (o exemplo mais claro disso é quando Denise descobre que seu pai pediu demissão por sua causa). Daí, quando todas as histórias individuais são contadas, o autor, mais uma vez de modo muito competente, acelera a narrativa para que o livro acabe rápido, afinal aquilo que queria explorar, já foi explorado. O leitor termina o livro satisfeito e o autor consegue atingir seu objetivo. Enfim, o leitor sabe que foi manipulado e enxerga como, mas não está nem aí.
Como o livro de Franzen, “Bem-vindo ao Clube” de Coe é um livro estruturado de um modo tradicional, apesar do uso de vários modos de narrar (jornais, páginas de diários, cartas). Há uma pequena introdução, em que dos personagens que desconhecemos começam um diálogo e daí começam a contar a história de seus pais. Depois que se encerra a introdução, um narrador impessoal começa a contar a história de um grupo de amigos, cujo título do capítulo - que depois perceberemos será um título importante - é “A Gatinha e o Cabeludo”. O cenário é bastante interessante: a Inglaterra pré-Thatcher, com sindicatos e patrões em guerra e o IRA em plena atividade. O núcleo da história é o garoto Benjamin Trotter e o autor vai apresentando os personagens que estão à sua volta. Inclusive sua irmã, a gatinha do título da primeira parte, uma personagem sem grande importância, até que ela começa a namorar um cabeludo. O tal cabeludo passa a influenciar Benjamin, de modo mais evidente em suas escolhas musicais, mas isso é claro é apenas a fachada. A sutileza da primeira parte é subitamente cortada na cena final, quando o cabeludo leva sua namorada até um bar para pedi-la em casamento e uma bomba explode, numa das descrições mais perturbadoras de um atentado terrorista. Até este ponto, o livro é genial, perfeito. Daí vem a segunda parte e tudo cai por terra.
Na segunda parte, intitulada “O Próprio Abismo da Perdição”, o autor estranhamente acaba com todas as nossas sensações perturbadoras que produziu quando faz com que a irmã de Benjamin reapareça, contrariando a lógica. E pior: num determinado momento, introduz um diário em que ela escreve algumas impressões que não têm qualquer utilidade. A personagem, completamente desnecessária aquela altura, fica tentando aparecer para justificar sua sobrevivência. Os conflitos que Benjamin possui, enfraquecem-se, tornam-se quase um pastiche. Afinal de contas, uma coisa é o personagem perder sua irmã num atentado e outra é ter uma irmã traumatizada por causa dum atentado. A irmã de Benjamin, apesar de perder o noivo por causa de uma bomba num bar, não é uma personagem em quem acreditamos. Parece simplesmente não haver conflitos suficientes na sua montagem, uma personagem completamente rasa. Em resumo, todo o esforço que o autor fez para registrar impressões duradouras na primeira parte, é destruído por uma segunda parte ruim. O leitor fica embasbacado com a manipulação que é feita na primeira parte, reconhecendo o talento do autor, e depois se irrita com as peripécias na segunda - que em muitos casos não tem utilidade alguma para esclarecer a trama. Para tornar tudo ainda pior, no fim, o autor não esclarece as indagações que veio plantando durante a história, indicando que a resposta está num outro romance dele, chamado “O Círculo Fechado”, como naqueles estúpidos “Continua no próximo capítulo…” que tanto nos irrita.
Ponto primário que todo autor deveria reconhecer: se você não vai fazer um esforço para esconder a fórmula que utilizou no seu romance, não subestime a inteligência do leitor. Seja honesto e utilize as fórmulas para enriquecer o enredo e não o contrário. Afinal ninguém que olha o motor de um fusca imagina que é um motor de uma BMW apenas porque o vendedor assim o diz. Se você vai mostrar as peças da máquina, que as apresente sem disfarçá-las.
Num texto publicado no Estadão, entitulado “À Espera da Peneira do Tempo”, o crítico José Castello falou a respeito de alguns caminhos da literatura nacional, citando lançamentos contemporâneos e procurando encontrar um retrato da literatura atual, no meio de tantas obras tão diferentes. Dentre os livros mencionados, o crítico cita “Mãos de Cavalo”, obra do escritor gaúcho Daniel Galera e refere-se a ela como uma obra que projetava “a imagem de um futuro conservador”. A expressão dá uma estranha sensação de que o livro de Galera é um livro que não muda em nada o cenário da literatura brasileira. Lembro que na época achei estranha essa observação e prometi a mim mesmo escrever um texto explicando porquê o termo ‘conservador’ não pode não ser aplicado a obra de Galera, apesar da forma do romance ser uma forma conhecida. Agora que se encerra o ano e que virou uma mania de todos escrever um lista de melhores, acho que chegou a hora de falar sobre “Mãos de Cavalo”, que para mim foi o melhor livro da literatura brasileira lançado no ano passado.
Em primeiro lugar, é preciso reconhecer que parte da minha avaliação positiva se dá por causa das referências pessoais que a obra coloca e que envolve uma geração inteira (aliás, a minha geração), algo que para muitos, inclusive pessoas com mais de trinta e cinco anos talvez, não diz nada. Eu sei o que era ter uma Caloi Cross, o que era jogar videogames - inclusive os mais desconhecidos, como o Phantom System -, também tive um tênis M2000 e sei mais um monte de coisas que estão descritas na história e que se referem à minha geração. Então, em alguns trechos, paro a leitura e sinto-me invadido por uma nostalgia deliciosa, lembranças de um tempo muito feliz que são recordados a cada citação feita. Para quem não sabe o que representam essas referências, tudo isso pode não passar de uma capa pseudo-atual para histórias comuns, o que não é de maneira alguma. Galera consegue descrever com bastante sensibilidade a formação de uma geração e é o primeiro que vejo que conseguiu realmente construir um retrato literário desta geração. Mas é claro que o livro não se sustenta somente por isso.
“Mãos de Cavalo” é um típico livro de transição. A transição do chamado romance tradicional para o romance de um tempo ainda não muito bem entendido, classificado de vários modos. Evito usar o termo ‘pós-moderno’, visto que normalmente este termo está associado a um tipo de narrativa onde o autor procura negar o prazer da compreensão imediata, um texto que exige tempo, dedicação e atenção. Mas no livro de Galera, embora haja uma compreensão imediata dos eventos que são narrados, há também uma série de questões que o texto esconde. Não há aquela fragmentação da narrativa, tal qual num romance chamado pós-moderno, mas de certo modo, à medida que o leitor avança na leitura do livro, ele vai juntando algumas peças e percebendo um complexo cenário que vai se montando. É interessante isso porque de modo geral, o que vemos na literatura brasileira contemporânea é um anseio de se romper com a tradição, um anseio de escrever algo inovador, uma necessidade constante de desestruturação de um cenário artístico através da interrupção do que está em curso, de iniciar tudo novamente. O resultado? Há muito por aí da chamada pós-modernidade que não passa de má literatura embebida em ‘novidade’, autores que usam a desculpa de romper com a tradição para apresentar somente alterações na forma do romance e não fazem quase nada para transformar o conteúdo - isso quando o romance tem algum conteúdo. E o livro de Galera chama atenção justamente por fazer o inverso: apanha a fórmula tradicional do romance de formação para transformar o conteúdo de um assunto que parecia já estar exaurido, a violência, além de misturá-lo a outros temas, como culpa e redenção.
No livro, fala-se da violência não por usar palavrões, digressões sem sentido ou eventos chocantes, relatados da forma mais natural possível. A violência está sempre por baixo, em pequenos eventos na formação do personagem Hermano. Por causa disso acho que “Mãos de Cavalo”, ao contrário de ser classificado como conservador, é um livro que transforma (e muito) a literatura brasileira. Embora faça uso das descrições realistas e preocupa-se com a densidade psicológica do personagem, é um livro tão ou mais importante do que “Feliz Ano Novo” de Rubem Fonseca, por exemplo, porque fala de consequências desse consumo da violência na atualidade. Ou seja, depois da literatura brasileira nos apresentar a violência chocante dos grandes centros urbanos, o livro mostra que é hora de ir um passo além no assunto e começar a enxergar as consequências dessa violência a que nos acostumamos. Seria muito superficial, como ainda procuram alguns autores, apenas relatar a violência, algo que não causa impacto a quase ninguém, tamanha a enxurrada imagens de violência que são despejados sobre nós todo dia. Portanto, ao invés do livro tentar falar com crueza da violência, chocando-nos tal como fez Rubem Fonseca, o livro fala de uma sociedade que se habituou à introduzir a violência no dia a dia, de um jeito banalizante. O autor mostra que a geração que consumiu a violência hollywoodiana de Stallone e Charles Bronson na TV, é ao mesmo tempo uma geração covarde, que se esconde ou se omite da violência real das ruas. Apresenta isso nos diversos eventos que faz parte da formação de Hermano - desde o passeio de bicicleta que desafia os obstáculos dum modo irresponsável, aos esportes radicais, como o alpinismo - e mostra um personagem que não sabe lidar com os resultados disso tudo. Portanto, uma geração contraditoriamente acostumada com a violência e pacificadora.
Pensando sob esse ponto de vista, o final que é aparentemente uma redenção do personagem, somente esconde questões que estão implicadas nesse tema e que apontam para outros: redenção e culpa. Afinal, as conseqüências das escolhas do personagem não são apagadas por um simples ato, um ato que parece resolver tudo, mas que mostra mais uma vez um personagem que não sabe lidar com as consequências de suas escolhas. Há uma grande tristeza no trecho final onde Hermano reencontra Naiara anos depois e percebe que o tempo havia passado, seu ato de aparente redenção não muda isso e nem desfaz as escolhas que fez. Em sua vida ainda estarão Adri, Nara e Renan - ou seja, o presente ainda estará ali. Essa sensação é reforçada quando no último capítulo a narrativa retorna ao passado e fala do momento em que Hermano toma as decisões que moldarão sua vida dali para frente. E são essas decisões que permanecerão, o que soa um pouco pessimista.
Nota-se também que Daniel Galera foi influenciado por autores contemporâneos de língua inglesa, tais como David Mitchell, Jonathan Lethem e Jonathan Franzen. Não somente porque o autor é o tradutor de Jonathan Safran Foer, mas também porque o tema culpa/redenção já foi bem explorado por lá, como por exemplo na obra-prima “Reparação” de Ian McEwan. E isso é bastante saudável para a nossa literatura. Tais obras são interessantes, elogiadas e premiadas e, para alguns, fazem com que a tão anunciada morte do romance se torne cada vez menos crível. Para nós, portanto, faz abrir um novo caminho, um caminho que muitas vezes faz a crítica torcer o nariz (como se metalinguagem, fragmentação e desconstrução fossem o supra-sumo de alguma coisa), mas um caminho importante. Num primeiro momento, é o antigo romance, composto por uma história bem contada, que faz com que o leitor eventual se interesse mais por livros e passe a ser um leitor costumaz. E um livro que consegue interessar assim o leitor, com tanta riqueza no desenvolvimento de seus temas, deve ser sempre elogiado.
Se tivesse que apostar num livro a ser eternamente escrito, escolheria “O Homem Sem Qualidades”. Embora quando ouve-se a expressão “livro eterno”, normalmente julga-se o eterno sob o ponto de vista do leitor, referindo-se a um livro que é lido e relido por leitores de toda época, imagino, ao contrário, que seria muito mais difícil um livro eterno do ponto de vista do escritor. E nesse sentido, acho que se Robert Musil tivesse vida eterna, provavelmente ele passaria sua eternidade escrevendo e reescrevendo “O Homem Sem Qualidades”. Nunca um livro teve tamanha capacidade de – utilizando um termo da matemática – tender ao infinito. Quando alcançamos as páginas finais da obra, a sensação é de que nosso tato está nos enganando. Parece que não faltam apenas poucas páginas, e sim muitíssimas, uma história que se desenrolará por anos de leitura.
Paradoxalmente, “O Homem Sem Qualidades” é uma irrealização, um livro que fala sobre a incapacidade de alcançar um ideal, uma história onde nada de muito significativo acontece. Há sempre uma fervorosa discussão com o objetivo da construção de uma Ação Patriótica, que será um evento de genialidade ímpar, um evento composto das mais brilhantes mentes de um país, com o objetivo de imortalizar um povo e uma época, mas onde nunca nada acontece. Sempre as discussões se dispersam e a sensação de incapacidade ronda a todos à medida que o tempo passa e se aproxima a data para o anúncio do conteúdo do evento. Aos olhos dos que não participam das discussões, o que se fala durante as reuniões da tal Ação Patriótica representa talvez uma oportunidade única para a imortalidade. Sugestões de várias áreas são enviadas e os responsáveis por tais sugestões torcem para que sua idéia seja escolhida e assim possam participar do que parece ser a maior realização do saber humano. Quem faz parte, porém, sabe que nada acontece de extraordinário, tudo o que a primeira vista parece ser brilhante, com o tempo exala e se perde no ar.
Curiosamente também, “O Homem Sem Qualidades” foi deixado inacabado por Musil e talvez parte da responsabilidade desta sensação de eternidade da história seja causada por seu formato inacabada. Alguns fragmentos escritos, mas não revisados, fazem crer que toda a discussão seria severamente interrompida pela entrada da Primeira Guerra Mundial no cenário otimista da época. Mesmo assim, o livro que se encontra disponível ao leitor hoje leva a crer que se fosse da vontade de Musil, a história poderia permanecer incompleta por toda a eternidade. Parece que sempre haveria o que escrever. Com disse antes, somente uma parte dessa sensação de eternidade pode ser motivada pela sua imcompletude. Também há o rigor extremo com que Musil conduz a história, levando o leitor a ler o texto, não no ritno que deseja, mas no ritmo que o autor quer. Em suma, até o infinito, se assim fosse possível.
Imaginar um livro sendo escrito eternamente parece ser algo terrível também ao se pensar em outro aspecto. Reconhecendo o arquiteto cuidadoso do texto que era Musil, possivelmente o leitor sentiria essa mesma sensação de imcompletude da obra, afinal sempre haveria uma ausência no texto - o processo de leitura é mais rápido que o processo de escrita. Por mais páginas que Musil escrevesse - e ele era cuidadoso ao fazê-lo -, sempre haveria um leitor aguardando a continuidade da obra. E quando olhamos para dentro dela, a sensação não é diferente. Parece que o texto sempre cresce, tomando todas as direções, logrando nossos sentidos e nos fazendo reconhecer que ali está um texto de uma amplitude grandiosa demais. É como tentar imaginar quantos copos dágua são necessários para comportar todo um oceano. Musil, no fim das contas, possivelmente conseguiria produzir o mesmo efeito grandioso por toda eternidade. Algo que além de admirável, é assustador.
Não sei até que ponto isso pode ser positivo, do ponto de vista do autor. Musil parece que foi atormentado enquanto viveu por este monstro; uma obra que cobrava todo seu tempo, que exigia todo seu esforço de trabalho, que exigia, enfim, a eternidade para sua composição. Imaginar um autor sendo consumido e consumindo todos os seus recursos na realização de uma única obra é como imaginar um Sísifo condenado a rolar sua pedra eternamente. Um escravo de sua vontade de sublimação, sem nenhuma garantia de que seu esforço pudesse ter efeito. Mas ao lermos “O Homem Sem Qualidades” descobrimos o quanto é difícil resistir a esse monstro. Se no papel de leitores, somos levados a pensar na obra pelo tempo em que vivemos, imagine se fôssemos tomados por sua idéia original, sua gênese. Difícil não nos imaginarmos também transformados em Sísifos com tinta e papel.
Atividade comum em vários países, o resgate da memória através das páginas de revistas e jornais é algo ainda pouco visto por aqui. Portanto, é muito satisfatório encontrar um livro como “Pena de Aluguel” de Cristiane Costa. A autora faz um belo trabalho ao escrever a história da relação entre a literatura e o jornalismo no país. O livro procura responder como esses dois ramos foram se encontrando com o desenvolvimento da imprensa no país e como a produção numa área vem influenciando a outra. Afinal, será que o trabalho de um escritor como jornalista pode influenciar a forma como este escreve literatura? Será que o escritor, trabalhando na imprensa, faz melhorar a qualidade dos jornais? As perguntas servem apenas de mote a uma deliciosa viagem no tempo, onde encontramos desde personalidades do início do século XX - como Machado de Assis, José de Alencar, Monteiro Lobato -, até nomes recentes da literatura brasileira - como Bernardo Ajzenberg, Bernardo Carvalho, Cíntia Moscovich, Luiz Ruffato, Marçal Aquino, dentre tantos outros -, que falam sobre os cruzamentos que ocorrem entre esses dois caminhos. No livro, encontramos os escritores como personagens que refletem sobre questões que envolvem trabalhar nas duas áreas.
“Pena de Aluguel” na verdade retoma uma enquete similar feita por João do Rio no início do século, quando os jornais davam um tratamento à literatura bem diferente ao dado hoje. Na época, escritores como Machado de Assis e José de Alencar, possuíam um espaço para publicação de livros através do folhetim. Além disso, críticos como José Veríssimo, dividiam suas análises na primeira página dos jornais com o próprio editor. Mesmo assim, preocupações como o tempo gasto nas atividades dum jornal, que para alguns poderia ‘matar’ o escritor, e a utilização da linguagem jornalística, uma linguagem que muitos classificavam - e que alguns classificam até hoje - como inferior, que poderia ‘contaminar’ a linguagem artística, foram questões discutidas já naquela ocasião. Isso sem contar a questão financeira, onde muitos artistas consideravam um terror venderem seus textos, fazendo perder assim sua aura artística, para um meio preocupado tão somente com algo considerado mesquinho chamado lucro. O efeito é a divisão entre escritores de prestígio e os malditos. Enfim, questões que foram lançadas no início do século XX e que permanecem atuais, como a autora nos mostra de modo perspicaz.
A atualidade das questões envolvendo a relação jornalismo-literatura faz a autora avançar até os nossos dias e procura ouvir de nossos contemporâneos o que eles acham das questões levantadas no início do século. Afinal, houve alguma mudança no modo como o lado escritor se relaciona com o lado jornalista? As respostas são variadas e o livro traz alguns comentários a respeito do levantamento, mostrando não somente uma evolução no modo como a questão é tratada pelos artistas - que já não vêem mais a literatura dum modo tão sacralizada, mas como um trabalho -, mas também uma evolução do próprio artista que se aproxima cada vez mais das editorias culturais e se afasta das demais. A íntegra das entrevistas com esses autores contemporâneos podem ser acessadas no site do projeto (www.penadealuguel.com.br), um brinde que a autora carinhosamente nos oferece.
Outro grande mérito do livro é o modo como fala da evolução da mídia impressa brasileira, sua crise atual e como os blogs tem sido responsáveis por mudanças significativas nos principais veículos do país. Desde que a imprensa abandonou o modelo francês de jornal mais opiniativo e adotou o modelo americano de jornal meramente informativo, a linguagem utilizada no meio também sofreu grandes mudanças. Sendo assim, como o escritor patinou nesse novo terreno? No livro reconhecemos que apesar da introdução do lide e do modo como a imprensa vem trabalhando a notícia até hoje (permitindo ao leitor ler tudo o que interessa no primeiro parágrafo) poder representar um empobrecimento na visão de alguns, houve um enriquecimento literário dos jornais através da evolução da crônica. Essas mudanças culminam no modo quase anárquico com que o texto é tratado nos blogs, tornando o leitor parte do processo de veiculá-lo, por disponibilizar um espaço para sua opinião através das caixas de comentários e por permitir o uso de links para disseminá-lo. Ou seja, o livro nunca faz um julgamento monocromático das questões levantadas, mas permite ao leitor reconhecer um perfil nessa evolução que se caracteriza por pontos positivos e negativos. Em resumo, um dos poucos livros que faz um trabalho tão abrangente e que pode ser enfaticamente recomendado a todos os que se interessam pelo assunto.
Lançamentos recentes que resgatam o passado através da republicação de textos críticos veiculados por importantes jornais e revistas do país provam que esse passado merece ser recuperado. Livros como os da coleção de quatro volumes organizados por Heloísa Seixas, entitulada “As Obras-Primas que Poucos Leram”, uma reunião de textos valiosíssimos da antiga revista “Manchete”, de nomes como Otto Maria Carpeaux, Paulo Mendes Campos, Carlos Heitor Cony, dentre outros, provam justamente isso. A leitura do livro “Pena de Aluguel” serve portanto de estímulo para que cada vez mais as editoras possam tratar dum modo mais adequado os textos de grandes autores que foram veículados através dos jornais. Para nós leitores, o cruzamento entre jornalismo e literatura é mais um baú de tesouros a ser descoberto e explorado. Tesouros de palavras.