José de Alencar e a Função do Espaço na Ficção

Categoria: Spoilers!?
“Tudo isto, se tinha o mesmo ar de velhice dos móveis da sala, era como aqueles cuidadosamente limpo e espanejado, respirando o mais escrupuloso asseio. Não se via uma teia de aranha na parede, nem sinal de poeira nos trastes. O soalho mostrava aqui e ali fendas na madeira; mas uma nódoa sequer não manchava as tábuas areadas.
Outra singularidade apresentava essa parte da habitação: era o frisante contraste que faziam com a pobreza carrança dos dois aposentos certos objetos, aí colocados, e de uso do morador. Assim no recosto de uma das velhas cadeiras de jacarandá via-se neste momento uma casaca preta, que pela fazenda superior, mas sobretudo pelo corte elegante e esmero do trabalho, conhecia-se ter o chique da casa do Raunier, que já era naquele tempo o alfaiate da moda. Ao lado da casaca estava o resto de um trajo de baile, que todo ele saíra daquela mesma tesoura em voga; finíssimo chapéu claque do melhor fabricante de Paris; luvas de Jouvin cor de palha; e um par de botinas como o Campas só fazia para os seus fregueses prediletos.
Sobre um dos aparadores tinham posto uma caixa de charutos de Havana, da marca mais estimada que então havia no mercado. Eram regalias como talvez só saboreavam nesse tempo os dez mais puros fumistas do império.”

“Senhora” de José de Alencar, página 38 (LP&M, 285 páginas) .

Parece que virou um esporte criticar o romantismo brasileiro e seu principal autor José de Alencar, como se nada ali prestasse. Não é incomum encontrar até mesmo a crítica especializada preguiçosamente lendo as mesmas obras da mesma forma e repetindo os lugares-comuns que definem o gênero (quem nunca escutou que o romantismo brasileiro é uma cópia mal feita do romantismo que veio de fora?). O trecho acima é um modo de mostrar o grande escritor que foi José de Alencar, numa aula sobre a função do espaço para a ficção. Ali, o leitor está sendo apresentado a Seixas, sem que suas características físicas, seu caráter, nem mesmo seu nome seja mencionado. Há apenas a descrição de um ambiente. Apesar disso, já conseguimos visualizar o personagem como alguém que vive num padrão além do que suas posses permitem, o que será a base para o conflito no romance. Nada mal para um autor que vive sendo desdenhado.


Thomas Mann e a Jornada do Herói

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“Aí encontrou aberta a porta brônzea do santuário, e os joelhos do pobre jovem quase que cederam diante do espetáculo que se lhe oferecia aos olhos estarrecidos. Duas mulheres grisalhas, seminuas, de cabelos desgrenhados, com seios pendentes de bruxa e mamelões do comprimento de um dedo, entregavam-se lá dentro, no meio de chamejantes braseiros, a manipulações horrorosas. Por cima de uma bacia esquartejavam uma criancinha. Dilaceravam-na com as mãos, num furioso silêncio - Hans Castorp divisou os finos cabelos louros poluídos de sangue -, e devoravam os pedaços. Os frágeis ossinhos estalavam entre as suas presas, e o sangue pingava dos lábios selvagens. Um pavor gélido paralisou Hans Castorp. Fez menção de tapar os olhos com as mãos e não conseguiu. Quis fugir e não pôde. E elas acabavam de descobri-lo, no meio da sua atividade abominável. Agitaram os punhos ensangüentados, ralhando sem voz, mas com extrema vulgaridade, em termos obscenos, na gíria da terra de Hans Castorp. Este se sentiu mal, pior do que nunca. Desesperadamente esforçou-se por sair do lugar - e na mesma posição em que, durante essa tentativa, caíra de lado junto a uma coluna, encontrou-se na neve, ao pé do galpão, deitado sobre um braço, com a cabeça encostada e as pernas providas de esquis estendidas à sua frente.”

“A Montanha Mágica” de Thomas Mann, páginas 674-5 (Nova Fronteira, 986 páginas, tradução de Herbert Caro) .

“Neve” é sem dúvida um dos capítulos mais bem escritos de toda a literatura. Não somente pela clássica e aterrorizante visão de Castorp descrita em parte acima – que remete à visão do santuário bíblico do Ezequiel –, mas pelo que se transforma o romance a partir dali. Castorp é o típico herói clássico em sua jornada. Ao sair para esquiar e ser apanhado por uma tempestade de neve, Castorp chega ao topo da Montanha Mágica e, conseqüentemente, ao ápice de seu aprendizado. Dali em diante, o olhar será de um personagem maduro que não é mais dominado pelas opiniões extremas de Settembrini e Naphta. Tanto que o foco não será mais sobre os dois e sim sobre Mynheer Peeperkorn, uma personalidade vazia, que produz um inexplicável fascínio entre as pessoas. O prenúncio de que o mundo ao redor de Castorp já não é mais o mesmo.


Bartleby e sua Renúncia

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Tinha de escolher entre a garota e Salinger. Visto que ele e ela não se falavam e, portanto, não pareciam conhecer-se, percebi que não tinha muito tempo para escolher entre um e outro. Devia agir com rapidez. Decidi que o amor tem de estar sempre à frente da literatura, e então planejei aproximar-me da garota, inclinar-me diante dela e dizer-lhe com toda a sinceridade:

- Desculpe, gosto muito de você e acho que sua boca é a coisa mais maravilhosa que vi em minha vida.

“Bartleby e Companhia” de Enrique Vila-Matas, páginas 86-7 (Cosac Naify, 188 páginas, tradução de Maria Carolina de Araújo e Josely Vianna Baptista) .

O tema de “Bartleby & Companhia” é a renúncia literária, a pulsão negativa que leva um escritor a deixar de escrever. Toda essa renúncia é brilhantemente sintetizada no trecho acima, em que o Bartleby narrador vê-se frente a frente com o recluso Salinger e, ao invés de abordá-lo como seria natural para qualquer grande fã da literatura, escolhe seguir uma bela garota que não sabe quem é. A ironia de um Bartleby que cataloga outros escritores da renúncia, pessoas que como ele, propositalmente escolhem não fazer. Somente um trecho de um livro que é quase uma declaração de amor à linda garota chamada Literatura.


A Nova Coluna Spoilers!?

Na internet o termo spoiler se refere àquele estraga-prazeres que tece comentários que revelam fatos importantes da trama de uma história. No site, a coluna reunirá trechos de grandes obras, que merecem ser descobertas pelo leitor. Os pontos de exclamação e interrogação ao final indicam o critério de reunião desses trechos: o belo impacto e questionamento que podem produzir no leitor. Também antecipa o comentário “epa! mas isso não é um spoiler?“. Na dúvida leia.