Lendo este post da Dani e a argumentação do dia 25/04 da Olivia sobre o post, além dos comentários postados, pude perceber duas coisas:
1 – A crítica literária (ou crítica de um modo geral) geralmente não é vista com bons olhos por aqui;
2 – Há quase sempre uma associação entre produção literária (arte) com crítica literária (trabalho de pesquisa e esclarecimento);
O primeiro ponto acredito que faz bastante sentido em muitos casos. A crítica literária tem como objetivo, entre outras coisas, observar pontos que um leitor mediano não conseguiria observar sozinho e chamar a atenção a eles, de modo que à partir da análise realizada, o leitor possa compreender melhor a obra através de uma base mais forte. Ninguém é obrigado a conhecer a Irlanda para ler “Ulisses”, mas ajuda quando estamos informados sobre alguns hábitos e locais existentes ali. Ou seja, Joyce colocou enigmas suficientes para nos preocuparmos, não precisamos de mais alguns criados por nossa ignorância, e daí crítica deve ser vista com bons olhos, pois explicita alguns pontos pertinentes para que possamos nos concentrar em interpretar aquilo que realmente importa. Quando há alguma interpretação também, ela pode ser o primeiro degrau para seguirmos nossa própria linha de raciocínio e tirarmos nossas próprias conclusões. Mas, contrariando a lógica, existem textos de críticos que são simplesmente ilegíveis. Daí, conforme disse bem o Alexandre Soares Silva, vemos críticos procurando chifre em cabeça de cavalo. Num trecho simples, onde inadvertidamente o autor se distraiu e deixou uma pequena brecha, o crítico mistura tudo, até filosofia, para falar do “aspecto transcendental” da vírgula utilizada. Isso deprecia o trabalho de críticos que realmente cumprem o seu papel. Pessoalmente tenho pouco tempo para ler. Portanto quando procuro uma crítica literária qualquer, quero ler algo que possa ser relevante para ampliar minha capacidade de interpretação. Se o crítico parece querer sempre se sobressair, jogando na minha cara que ele é o “especialista” e eu sou um reles “leitor”, ao invés de se resignar a informar pontos por ele pesquisados, eu me afasto. Uso o seguinte critério: passo os olhos rapidamente pelo texto. Se encontro várias e várias expressões em latim, nem perco meu tempo lendo a crítica. Quando falam do “leitmotiv” então… Posso até perder boas análises assim, mas que posso fazer? Meu tempo é curto, sendo assim tenho que de alguma forma separar o joio do trigo.
Com respeito ao segundo ponto, a culpa em grande parte dessa associação acredito que se deve a falta de acesso que boa parte dos leitores têm às críticas que deixem claro que por trás do texto, houve muito trabalho de pesquisa. Podemos encontrar facilmente, em revistas ou jornais, textos de celebridades dando seus palpites sobre este ou aquele livro que está lendo. Os bons textos de críticos geralmente são encontrados em livros. Essa falta de acesso faz com que as pessoas achem que um crítico é simplesmente um “palpiteiro” (no sentido mais pejorativo possível), quando na verdade se trata de uma pessoa que trabalha bastante para construir um texto realmente elucidativo. Se o que encontramos na maior parte dos meios de comunicação são os “palpiteiros” que não tem nem talento nem base de pesquisa para escrever sobre alguém ou alguma obra, a tendência natural é generalizar e colocar todos no mesmo barco. Com isso, a afirmação de que um crítico nada mais é do que um escritor incapaz de produzir algo bom se torna comum e parece fazer todo o sentido. Mas é preciso deixar claro que crítica literária não é arte.
Apesar destes pontos de vista comuns, acredito ser de grande importância debater sobre obras e procurar ampliar nosso conhecimento seus conteúdos. Um leitor sozinho nunca conseguiria esclarecer todos os pontos de uma obra. No caso de algumas, nem todos os leitores do mundo juntos conseguem esta façanha. Quando encontramos uma opinião de qualidade, que nos faz pensar um texto de uma nova forma, devemos valorizá-la. Afinal inteligência é algo cada vez mais escasso.























Leandro,
você notou que você parte do princípio que o leitor é um incompetente e que você afirma que o leitor sempre será um incompetente? No seu texto você não explica por que o leitor é inevitavelmente incompetente, apenas afirma isso, como se fosse um dogma. A linha de raciocínio é: como o leitor, por pressuposto, é incompetente em analisar uma obra, precisa de um crítico (esse sim, competente) para lhe dizer o que ler.
“Um leitor sozinho nunca conseguiria esclarecer todos os pontos de uma obra. No caso de algumas, nem todos os leitores do mundo juntos conseguem esta façanha.”
Por quê? Porque são leitores? E se esses leitores tiverem pós-doutorado em literatura mas não forem críticos de literatura? E se esses leitores forem escritores? Qual o seu critério em estabelecer quem tem a competência de análise? Só o fato de usarem um label: sou um crítico?
Outra coisa: normalmente quem aponta características geográficas, sociais ou culturais em um livro é a editora ou o tradutor desse livro, não o crítico literário. Não faz parte do trabalho do crítico saber, como no exemplo que você deu, que a Irlanda de Joyce tem as características X,Y,Z. Quando o trabalho da editora é bom, isso vem em notas de rodapé. Nas edições originais as editoras costumam adicionar apêndices explicativos no final dos livros com as notas culturais/históricas para melhor compreensão do livro. Nas traduções, os tradutores colocam essas informações em notas de rodapé.
Comecei a acompanhar essa discussão com um pouco de atraso, mas tá interessante. Essencialmente, só discordo de um ponto fundamental do seu argumento: nem todos os leitores do mundo, esclarecidos ou não, jamais vão conseguir “esclarecer todos os pontos de uma obra”, pela simples razão de que o sentido de uma obra não está “depositado” nela, escondido e esperando para ser descoberto pouco a pouco. O sentido é constituído no ato performático da leitura. O texto só existe quando é lido, e tem que prestar contas à situação cultural e social na qual é lido. Não existe uma verdade da obra. Existe, sim, o potencial de uma obra para questionar e atualizar paradigmas culturais.
Mas eu não disse que ‘existe uma verdade da obra’. Literatura é arte. Disse claramente que o crítico busca orientar e não revelar certezas.
Olá Leandro,
Eu sou estudante do curso de Letras em Brasília/DF, e estou fazendo meu Trabalho de Conclusão de Curso com o tema A influência da Crítica Literária na formação da opinião do leitor, e achei bastante interessante o trabalho desenvolvido por você, assim se vc tiver algum material, ou mesmo algo que ache interessante que possa contribuir na minha pesquisa, mesmo com o seu ponto de vista, ou idéias com relação a este tema, pode entrar em contato comigo pelo e-mail luana.silva@mte.gov.br.