Essa semana conversei com Daniel Galera, autor de Dentes Guardados, Até o Dia em Que o Cão Morreu - cuja história foi adaptada para o cinema por Beto Brant e Renato Ciasca em Cão sem Dono - e Mãos de Cavalo, livro que concorreu ao prêmio Bravo!. Nas cinco perguntas, além do Amores Expressos, o escritor expressa seu ponto de vista sobre a classificação de escritor/blogueiro que freqüentemente acompanha seu perfil e como ele vê esse momento da nossa literatura.
Leandro Oliveira: Uma pergunta que parece ser inevitável a todos os autores que participaram do Amores Expressos é sobre como foi a viagem. Em seu caso, porém, observei algumas piadas do tipo “gaúcho ir à Buenos Aires não é viagem”. Essa aproximação geográfica foi uma vantagem para a construção da ficção? Sentiu-se em casa para escrever sua história? Acha que há conflitos que são interessantes justamente por causa dessa mistura de proximidade e distância cultural?
Daniel Galera: Os piadistas têm razão, um gaúcho em Buenos Aires se sente em casa. Logo nos primeiros dias eu já pensava que estar na capital argentina era como estar em Porto Alegre, só que um pouco melhor e mais barato. No início tentei perseguir a estranheza que me fora negada pelos organizadores (eu teria escolhido Rússia), buscando excentricidades na conversa dos taxistas ou nas ruazinhas mais improváveis dos bairros tradicionais, mas percebi que minha busca não era essa. Buenos Aires foi um exílio para mim. Me proporcionou o afastamento necessário para que eu encontrasse uma estranheza de outra natureza, a estranheza da história que pretendia escrever. Meu romance não precisaria se passar em Buenos Aires. Se eu lutasse contra isso, se me preocupasse em retratar aquela cidade, me perderia das minhas idéias. Então fui colocando meus personagens e cenas naquele lugar, deixando a cidade tornar-se cenário, oferecer cor e detalhes à trama que construí. Não explorei as semelhanças do argentino com o gaúcho porque minha protagonista é paulista. Buenos Aires é para ela o mesmo que foi para mim durante aquele mês: exílio. Mas se minha busca nesse exílio era escrever um romance, para ela é algo bem diverso: fugir de um romance e mergulhar numa outra obsessão muito pessoal, do tipo que eu próprio jamais poderia viver.
L.O.: Mãos de Cavalo teve uma recepção positiva por parte da crítica. Pessoalmente, achei muito interessante o tratamento dado a um tema que parecia surrado demais na literatura nacional: a violência urbana. Além do romance, a adaptação para o cinema de Até o Dia em Que o Cão Morreu recebeu diversos elogios, o que indiretamente acaba chamando atenção para o escritor. Isso, de algum modo, cria certa expectativa em relação a esse livro? Acha que é possível escrever sem se preocupar muito com a recepção que a obra terá? O fato de o Amores Expressos ser um projeto coletivo dissipa a atenção a um autor individual?
D.G.: Em primeiro lugar, peço licença para discordar de uma coisa: não acho que o Mãos de Cavalo trate de violência urbana. Trata, penso eu, da violência típica da juventude, de guris crescendo e medindo suas forças, e também da violência estética, como a dos filmes e quadrinhos, e sua influência na imaginação desse personagem em particular. No mais, sinto sim que há uma alta expectativa em relação ao meu próximo romance, mas ao mesmo tempo a boa recepção do Mãos de Cavalo me dá segurança para fazer o que eu quiser criativamente e assumir a responsabilidade perante o resultado, seja qual for. Em outras palavras, não busco satisfazer expectativas de leitores do Mãos de Cavalo no novo livro. Há até mesmo um prazer mórbido na perspectiva de frustrá-las em nome de outros temas e formas que me interessavam explorar dessa vez. A incerteza da recepção dá medo por um lado, mas mantém um certo contexto de aventura imprevisível que experimentei ao publicar meus livros anteriores - um risco que, no meu caso, faz parte o prazer de escrever. Como diz meu amigo Guilherme Pilla, “o cagaço move”.
L.O.: Você já admitiu sua preferência por novos autores de língua inglesa. Seu trabalho de tradutor, inclusive, reflete essa preferência, com traduções para o português de obras de escritores como Jonathan Safran Foer e Benjamin Kunkel. Isso, de algum modo, é visível em seu novo livro? Que elementos da ficção desses autores contemporâneos mais lhe agradam?
D.G.: Não sou mais blogueiro do que qualquer outro ser humano vivo que tem ou já teve um blog sobre qualquer assunto. Blog é um formato de publicação de uso genérico, e chamar alguém de “blogueiro” é como definir alguém como “telefonista” porque usa o telefone para se comunicar com as pessoas (bem, há os blogueiros, sim, pessoas que vivem e trabalham em função de seus blogs, mas não é o caso da maioria). A influência da internet na vida literária é um tema sério e pertinente, mas as perguntas que me fazem a esse respeito parecem ecos infinitos de um mesmo clichê apressado que me força a repetir à beira da loucura coisas como “blog é um formato de publicação de uso genérico”. Tem gente por aí que publica ficção regularmente em seus blogs, e a esses a discussão da literatura de blogs pode fazer sentido, mas nunca foi meu caso. Não comecei escrevendo em blogs, nunca publiquei ficção neles. Publiquei meus primeiros contos num fanzine por e-mail, muito antes de existirem blogs. Usei blogs para publicar coisas como “Olá amigos, escutei uma banda legal ontem, baixem aí, toma o link”. Às vezes me chamam de “músico” também, coisa que não sou, a não ser que qualquer um que toque um pouco de violão e tenha participado de uma banda no fim de semana seja músico. Não me ofende ser chamado nem de blogueiro nem de músico, são duas atividades honradas que muito contribuem para a riqueza da vida humana, mas no meu caso não é verdade. “Escritor” me basta, e ainda assim sempre convém desconfiar
L.O.: Por último, que avaliação você faz da literatura contemporânea nacional? Acha que essa mescla de escritores de diversas gerações e tão diferentes entre si que o projeto Amores Expressos reuniu aponta para algo positivo? Mostrar essa geração através dos documentários traz algum benefício para a literatura?
D.G.: Fiquemos apenas com: gente pra dedéu escrevendo, gente demais se referindo à literatura como Literatura (parece besteira, mas a inicial maiúscula é traiçoeira) e gente demais contentando-se em “ser escritor” numa época em que isso tornou-se banal, como evidencia-se no próprio fato de haver tanta gente escrevendo. Ou seja, igualzinho a todo o resto do planeta Terra. A literatura mudou, pro bem e pro mal. Tá cheio de tiozinho chiando, tá cheio de gurizão aproveitando, e o resultado disso só poderá ser avaliado daqui a uns vinte anos por um crítico que ainda não surgiu. Talento? Na minha opinião, ele está à solta por aí, sim. Vozes cantando na gritaria. Estou escutando algumas agora mesmo. Mas para encontrá-las, precisamos esquecer dos autores - dos bares em que bebem, dos projetos de que participam (ou não) e da irrelevante crônica de seus comportamentos -e dar uma olhadinha séria nos livros (ou blogs, ou sites, ou revistas, ou fanzines, ou podcasts). Refletir e falar sobre texto, e tal. Seria lindo.























Leandro, parabéns pelo blog! Sou leitor assíduoe ele supre em boa parte a falta de material de qualidade publicado pela imprensa sobre a “nova” literatura.
Não gosto da literatura do Galera, mas esta entrevista foi excelente nas perguntas e respostas.
Parabéns, Leandro.
Olá.
Esta é a primeira vez que venho até o blog. Mas gostaria de parabenizá-lo pelo excelente trabalho.
Está favoritado. Voltarei sempre.
Muito boa a entrevista.
Grande abraço.