Não há um consenso sobre que obra pode ser classificada como um clássico. Mas muitos pontos de vista estão ligados ao tempo. Por exemplo, diz-se que clássico é sempre atual. Outros afirmam que um clássico é um livro que sobreviveu ao tempo. E ainda há aqueles que dizem que um clássico é uma obra à frente de seu tempo. Todos são pontos de vista popularmente reconhecidos, mas será que são realmente válidos? A questão é curiosa visto que vivemos numa cultura que se relaciona de maneira bem estranha com o passar do tempo. Em geral, valoriza-se o que é novo em detrimento ao que é velho. Os novos são belos, são mais capazes, são mais modernos. Mas são valores estabelecidos que nem sempre estão corretos - prova disso são os vários profissionais qualificados desempregados por serem ‘velhos demais’. Transpondo isso para o campo da literatura, fica a pergunta: Qual o problema de uma obra ser velha? Quer dizer que a única premissa para que uma obra seja lida por gerações posteriores é ser ela vista como nova? O prazer proporcionado por sua leitura simplesmente acaba por completo se o tempo a transformar numa obra ‘antiga’? Um livro lançado hoje somente será reconhecido como clássico após várias gerações de leitores?
Outro ponto que me intriga nestas concepções adotadas para a definição de uma obra clássica é a premissa de que esta é sempre uma obra não-conservadora em relação aos valores adotados no tempo de sua concepção. Afinal, quando a pessoa afirma que um clássico está à frente de seu tempo, na verdade ele quer dizer que o ponto de vista assumido pela obra é bem diferente do ponto de vista da sociedade da época. Mas existem obras que sequer defendem ou criticam qualquer coisa, mas ainda assim são obras belíssimas. Por exemplo, consigo encontrar uma simplicidade encantadora nos contos “Kaschtanka” e “Enfermaria Nº 6″ de Tchekhov, que pessoalmente classificaria como dois clássicos. Mas que pontos de vista são defendidos ali? As pessoas podem formular uma série de teorias, mas a única qualidade que vejo (e que por isso classifico como contos clássicos) é sua extrema beleza. Conservadorismo ou não-conservadorismo não cabem nestes textos. Qualquer perspectiva apontando para qualquer uma dessas direções, a meu ver, somente reduziria sua grandiosidade.
Continuando a avaliação sobre o tempo e os clássicos, a afirmação de que a obra é clássica por ser atemporal também não me satisfaz. Invariavelmente, quando alguém diz que uma obra é atemporal, certamente ele não tem como provar sua afirmação. Afinal, literatura não é ciência, não existe elementos ali que provam que um livro lido hoje, será lido daqui a cem anos. Se este for esquecido daqui a cem anos, significa isso que um livro não é um clássico? Aproveitando a comparação entre arte e ciência, cito Karl Popper que afirmava que a pesquisa científica na verdade não busca uma prova da verdade absoluta, mas procura fazer uma afirmação e depois busca elementos para falseá-la. Quando uma afirmativa não consegue ser falseada por uma série de cientistas, tendemos a acreditar nela. Com a literatura acontece algo semelhante. O tempo, embora sem dúvida um elemento muito importante, não é o único fator determinante ao se dizer que uma obra é um clássico. O fato de que textos da Bíblia ou o “Dom Quixote” sejam lidos até hoje é um forte indício de que há nestes textos elementos suficientes para que os classifiquemos como obras clássicas. Porém, ninguém pode provar que tais textos continuarão a ser lidos daqui a cem anos. E, francamente, isso não importa muito. Numa avaliação atual, tais textos são clássicos.
Quando percebo esta constante necessidade que muitos leitores vêem de se ligar uma boa obra literária ao tempo, desconfio que isso se dá desta maneira apenas pela dificuldade que muitos possuem em distinguir elementos abstratos contidos num bom livro. Falta a muitos instrumentos para valorizar bons personagens, boas histórias, bom ritmo, boa montagem, etc. Essa é a razão principal, em minha opinião, de tantos leitores afirmarem que algumas obras não podem ser discutidas. ‘James Joyce é gosto e gosto não se discute’, já ouvi alguns afirmarem. Sinceramente, não tenho como concordar com tal ponto de vista. Toda obra literária pode ser discutida. Toda obra, inclusive obras clássicas, podem ser criticadas. Certamente, deve existir algo que atrai a atenção de muitos leitores de tal modo que algumas obras são classificadas como clássicas por leitores de diversas culturas, idades e sociedades. Sem entrar num campo mais ‘técnico’ e sem querer tratar aqui das diversas teorias que permeiam a literatura, é preciso reconhecer que somente através da ampliação desta capacidade de perceber elementos abstratos que qualificam uma obra é que pode haver uma enriquecedora discussão sobre obras clássicos. Portanto, proponho o seguinte exercício: elabore uma lista de seus clássicos. Após a escolha, tente justificá-las descrevendo claramente porque esta obra e não qualquer outra é uma obra clássica. Se houver pontos negativos, tente dizer porque, apesar disso, tal obra é um clássico para você. Vamos ver quantos clássicos sobreviverão a sua própria análise.























Acho interessante quando vc diz “seus clássicos”. É por aí mesmo. Existem aqueles clássicos já consagrados nos quais não consigo vislumbrar o motivo de tanta fama.
Como o espaço é pequeno para fazer uma lista, direi que meu clássico nº1 é o “Grande Sertões - Veredas”. O motivo? Por parecer-se um novo livro, uma nova obra a cada leitura.
Mas esse argumento não pode ser utilizado para outros clássicos de minha lista. “O Amor Nos Tempos do Cólera” por exemplo, é maravilhoso e relê-lo é transportar-se para uma história já conhecida e sem surpresas, mas nem por isso menos poderosa, bela e lírica.
Enfim, essa discussão é interminável. Parabéns pelo seu texto. De novo.
Também já estive pensando nessa questão de definir clássicos. Vejo que você não concorda, mas para mim entraria o elemento do ‘resistir ao Tempo’; realmente não sei se “Dom Quixote” ou a Bíblia continuarão a ser lidas dentro de 100 anos (mas estou apostando que sim); uma outra possível definição que li em alguma parte é que um clássico é um exemplar perfeito ou quase perfeito de alguma coisa - “Ana Karenina” (pra citar uma das suas sugestões) de Tolstoi, que apresenta o adultério de uma mulher passo a passo, aliada a uma ‘apresentação’ da sociedade russa da época, onde uma moça (Kitty) personifica esse objeto à venda, uma-jovem-em-idade-de-noiva: a forma como Tolstoi nos mostra Kitty como coisa, como criatura comerciável (à venda) e tão ‘respeitável’ esse mercado…é soberba.
Eu acredito fortemente na idéia de que clássico é aquele que consegue descrever bem a aldeia (quem falou isso?). Melhor, é o que consegue captar a essência humana além do seu tempo. O escrito, descrito, percebido, continua real em qualquer época. As personagens descritas por Proust são eternas e estão vivas ali, no quarto vizinho ao seu. E essa ligação, do seu tempo ao tempo do livro, é maravilhosa.
Caríssimo Leandro, desculpe meu off-topic a esse belo post: o amigo e blogueiro André Marmota estará em BH neste fim de semana. Nos reuniremos no sábado à noite, em lugar ainda a ser determinado. Passei para deixar o convite. Sei que o fim de semestre é sempre apertado, mas se puder juntar-se a nós, deixe um alô lá no Biscoito, ou mande notícias por email, tá? Um abração,
Esqueceu de dizer que uma obra é definida como classica pelo conjunto da obra.