A minha primeira reação ao ouvir o anúncio de Pinter como o escritor ganhador do prêmio Nobel de Literatura do ano foi negativa. Nada contra o autor ou a academia, mas sim por saber que grande parte do trabalho do autor foi para o teatro. Embora meus conhecimentos de teatro sejam quase nulos – dos clássicos do teatro brasileiro, li apenas alguns, em especial Dias Gomes, e quanto aos estrangeiros, pouco, quase tudo Beckett -, coloco os textos num patamar menor. Explico: sinto bastante falta de um narrador quando leio qualquer peça de teatro. No teatro, ninguém olha de soslaio, ninguém sente um cheiro ocre, nenhuma paisagem é arrebatadora. O modo econômico como a ação é conduzida, às vezes dá a sensação de que o ritmo é sempre muito rápido. Daí, quando assistimos à peça sendo bem encenada, o texto parece se transformar. Num romance isso, na maior parte das vezes, não acontece. Primeiro, porque a criação visual não é necessariamente o mais importante. Segundo, porque o narrador, quando aparece no romance, funciona como um controlador do fluxo do texto, enquanto que no teatro, quando um narrador aparece, é apenas mais um personagem. Para o teatro, o narrador é completamente desnecessário.
Apesar de tudo isso, saí à procura de alguma peça de Pinter para conhecer seu trabalho. Encontrei a tradução de Millôr Fernandes da peça “Volta ao Lar”, duma coleção antiga chamada “Teatro Vivo”, da editora Abril. A primeira impressão é que o texto tem muitas semelhanças com o texto de Samuel Beckett. A peça conta a história de um filho que volta ao lar depois de seis anos e isso faz com que o ambiente familiar violento, se torne ainda pior. A diferença parece ser que nas peças de Beckett o absurdo é sempre apresentado de modo bem escancarado (Lucky amarrado pelo pescoço, obedecendo as ordens de Pozzo em “Esperando Godot”, ou o cego Hamm explorando suas vítimas em “Fim de Partida”) enquanto o absurdo na obra de Pinter parece mais escondido (o texto se refere não a mendigos ou vagabundos como em Beckett, mas sim a uma família). Apesar disso, o efeito não é amenizado, a estranheza é semelhante aos textos de Beckett.
“Volta ao Lar” foi escrita em 1964, quando o autor já escrevia roteiros para o cinema, e pouco tempo depois, Pinter declarou em entrevistas que se dedicaria a peças mais curtas – “Paisagem”, peça de 1968, quando encenada, dura cerca de trinta minutos apenas e “Noite”, uma peça minúscula, sete. Em 1969, o escritor adaptou o romance “O Mensageiro” (The Go-Between) para o cinema e o filme levou a Palma de Ouro em Cannes em 1971. Além disso, Pinter também escreveu para rádio e televisão e foi condecorado com a Ordem do Império Britânico. Um escritor que realmente trabalhou muito durante toda sua vida, recebeu um bom reconhecimento por todo este trabalho e é, aparentemente, bem visto pelo público. Com isso, o que se pode dizer contra a escolha da Academia Sueca? Esperamos apenas que não demore muito para que as editoras brasileiras publiquem outros bons trabalhos do escritor.























Creio que devemos tomar um pouco de cuidado ao afirmar que no teatro não se têm um narrrador, ou melhor, um ‘condutor’ de fluxo do texto, ou mesmo da trama em ação.
E existe narrador em teatro, tal qual num romance?