João Paulo Cuenca e o Amores Expressos

Categoria: Entrevistas

João Paulo CuencaContinuando as entrevistas sobre o Amores Expressos, nessa semana conversei com João Paulo Cuenca, autor dos romances Corpo Presente e O Dia Mastroianni. Cuenca foi um dos quatro escritores brasileiros selecionados pelo Bogotá 39, um projeto que no ano passado selecionou os melhores escritores latino-americanos com menos de 39 anos.

Leandro Oliveira: Seus dois romances são bem diferentes de muitas maneiras. Somente para citar uma diferença que é marcante em minha opinião: enquanto Corpo Presente tem um tom mais sério, a ironia e o humor dão o tom em O Dia Mastroianni. O que o leitor encontrará no novo livro? Você o aproximaria mais ao seu primeiro ou segundo romance?

João Paulo: Apesar de terem humores opostos, como você percebeu, há terreno em comum entre esses dois primeiros romances, quase como se eles fossem faces diferentes de uma mesma moeda. Poderia destacar o jogo de metalinguagem, entre outros fatores. Mas o romance do Japão, como o estou chamando, é uma guinada em outra direção. Acho que ele é radicalmente diferente dos anteriores, que já são bastante diferentes entre si, especialmente no uso da linguagem. E isso não me preocupa, ao contrário, me estimula.

L.O.:Você cita em seu blog algumas leituras sobre a cultura japonesa e diz que, apesar de interessantes, não o faziam “sequer arranhar a superfície dessa sociedade complexa”. Depois daquele post, você conseguiu encontrar em alguma leitura, algo que ampliasse sua visão dessa cultura? Acha que conseguirá em seu livro fazer o leitor, citando suas palavras, ao menos arranhar a complexidade cultural do país?

J.P.: Certamente o meu objetivo não é esse. Se assim fosse, me enfurnaria em bibliotecas e escreveria um ensaio, não um romance. Sobre o romance, penso que se o leitor sair tão desorientado da experiência como eu, já me dou por satisfeito.

L.O.: Você escreveu bastante em seu blog sobre diversos aspectos culturais de Tóquio. Eu apostaria que você foi talvez o escritor que mais falou sobre a cidade que visitou. Além dos textos, há também boas fotografias e vídeos. Não pensou em, a partir desse material, publicar um livro de crônicas? O que é mais fácil: escrever crônicas ou ficção sobre a cidade?

J.P.: É muito mais fácil escrever crônicas porque elas são produto direto de experiências e olhares muito recentes, da mesma semana ou dia em que se escreve. Não preciso ficcionalizar muito, e normalmente não penso numa estrutura literária ou num estudo de linguagem, coisa que durante a escrita de um romance acontece. Sobre um livro de crônicas, tenho cogitado isso, sim. Mas seria um livro com uma seleta geral – publico crônica em jornal há cinco anos.

L.O.: Quanto aos documentários do projeto, já é possível adiantar algo? Qual foi a orientação do diretor? O que esse registro procurará abordar em relação à literatura?

J.P.: Quem poderia falar melhor sobre os docs são o Tadeu Jungle e a Estela Renner, que conduzem essa parte do projeto. Minha experiência, como entrevistado, foi a melhor possível. Acredito que o registro enfocou o processo criativo de cada um, dentro do tema proposto (escrever uma história de amor naquela cidade). Mas acredito que as entrevistas tenham rendido muito mais. Desconfio que escritores sozinhos em cidades desconhecidas possam se tornar pessoas bastante suscetíveis, o que é ótimo para uma entrevista.

L.O.: Por último (e saindo um pouco do assunto Amores Expressos), seu livro O Dia Mastroianni alterna o relato do passeio dos protagonistas com trechos de uma voz crítica, que julga todo o tempo elementos do texto. Existe nessa voz argumentos que são usados por parte da crítica literária contemporânea (escatologia num texto literário é algo ruim, para citar apenas um exemplo). Como você enxerga a crítica literária contemporânea? Está satisfeito com a receptividade da sua obra? Ou é algo que o preocupa?

J.P.: A crítica foi generosa comigo desde o início, o que talvez tenha me corrompido para sempre. Mas, como disse a outro jornalista que me fez pergunta parecida recentemente, estou com uma preguiça olímpica de entrar nesse tema. Acho que já o visitei na ficção, como você bem apontou, e essa visita fazia sentido no contexto daquele romance - que pode ser lido como uma sátira a um pretenso aspirante a escritor ou poeta. Mais não digo, porque fazer uma exegese da crítica não é o meu papel. O meu papel nesse jogo é escrever, e escrever melhor, simplesmente. A crítica é que deve se ocupar de mim, se assim quiser.

 

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